Notícias

Decisão equivocada - Merval Pereira

19/02/2017 16:33
Decisão equivocada - Merval Pereira - O Globo   O Supremo Tribunal Federal, assumindo o protagonismo mais uma vez, decidiu que qualquer brasileiro preso em cadeias degradantes merece uma indenização do Estado. A decisão unânime veio a propósito de um preso do Mato Grosso do Sul, e...
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Tucanizando Temer? - Eliane Cantanhêde

19/02/2017 16:29
Tucanizando Temer? - Eliane Cantanhêde O Estado de S. Paulo   A simbiose entre Temer e tucanos só aumenta, mas sempre com um pé atrás   Quanto mais fracos ficam os homens fortes do PMDB, mais Michel Temer se aproxima dos caciques do PSDB e mais profundamente o PSDB mergulha...
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Uma defesa dos políticos - Hélio Schwartsma

19/02/2017 13:48
Uma defesa dos políticos - Hélio Schwartsma - Folha de S. Paulo   É preciso admitir que o autor é corajoso. Ele começa a obra afirmando que a vasta maioria dos políticos trabalha muito e ganha pouco e que eles geralmente fazem um trabalho fantástico, diante das pressões...
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O valor do debate - Míriam Leitão

19/02/2017 13:45
O valor do debate - Míriam Leitão - O Globo   André Lara Resende se sente um mensageiro que apanhou. Estava interessado em trazer para o debate especializado novas teorias sobre os juros e seu impacto na inflação, mas isso foi entendido como uma declaração política. Outros...
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Coluna do Jornalista Zózimo Tavares

19/02/2017 11:36
PP - de aliado fiel a adversário perigoso Senador Ciro Nogueira, presidente do PP: desenvoltura para jogar dos dois lados do campo - governo e oposição. A foto é de ontem à noite, na casa do deputado Robert Rios (PDT)   O fato político da semana no Piauí foi a puxada de tapete que o...
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Delação de Eike Batista pode esclarecer elos

19/02/2017 11:27
Delação de Eike pode esclarecer elos com Cabral, Cunha e PT Delação de Eike pode esclarecer elos com Cabral, Cunha e PT   Renata Agostini | Folha de S. Paulo   SÃO PAULO - Preso na penitenciária carioca de Bangu, Eike Batista terá uma longa lista de...
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Senador Ciro Nogueira se encontra com oposição

19/02/2017 11:00
Ciro revela reunião com W.Dias e depois se encontra com oposição em festa de Robert Rios Políticos se reúnem na casa do deputado Robert Rios (Foto: Reprodução Instagram)   Entre os presentes na festa de Robert Rios, Ciro Nogueira, Firmino Filho, Wilson Martins (PSB), João Henrique...
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Ajuste fiscal dói, mas alternativa é muito pior

19/02/2017 09:45
Ajuste fiscal dói, mas alternativa é muito pior – Samuel Pessôa - Folha de S. Paulo   Elio Gaspari, em sua coluna de quarta-feira passada (15) nesta Folha, sugere haver escolha de Sofia a desafiar nossos gestores. Há conflito entre responsabilidade fiscal e responsabilidade...
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Sérgio Pardellas e Germano | Revista IstoÉ

19/02/2017 09:27
Sérgio Pardellas e Germano Oliveira | IstoÉ “Levei mala de dinheiro para Lula”   Ex-sócio de Fernando de Arruda Botelho, acionista da Camargo Corrêa morto em acidente aéreo há cinco anos, Davincci Lourenço diz à ISTOÉ que ele foi assassinado e que o crime encobriu um esquema de...
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A jararaca está viva e engordou – Elio Gaspari

19/02/2017 08:27
A jararaca está viva e engordou – Elio Gaspari  O Globo   O primeiro aviso veio em dezembro, com uma pesquisa do Datafolha. Lula tinha 25% das preferências dos eleitores para o primeiro turno da eleição presidencial de 2018. À época havia um consolo, num segundo turno, ele...
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Duas esquerdas e os desafios do presente

18/02/2017 19:16
Duas esquerdas e os desafios do presente - *Sergio Fausto - O Estado de S.Paulo   Haverá ainda a chance de (re)construir no Brasil um campo político social-democrata?   Em meio às crises e incertezas do presente, pode parecer estranho voltar os olhos para o passado...
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As Forças Armadas nas ruas - Raul Jungmann

18/02/2017 19:12
As Forças Armadas nas ruas - Raul Jungmann - O Globo   O emprego de militares não deve ser banalizado, e muito menos se destina a corrigir crises sistêmicas e problemas estruturais de segurança pública   A crise na segurança pública do Rio de Janeiro e do Espírito Santo...
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O perigo do hiperinstitucionalismo - *Murillo

18/02/2017 17:55
O perigo do hiperinstitucionalismo - *Murillo de Aragão - O Estado de S.Paulo   Cada um no seu quadrado e nos limites da institucionalidade   A tragédia da era Dilma deixou-nos como herança instituições em frangalhos. Tendo optado por um governo centralizador e autoritário,...
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Foro em debate - Merval Pereira

18/02/2017 17:51
Foro em debate - Merval Pereira  O Globo   Debate sobre foro especial ganhou importância. O debate sobre o foro privilegiado está ganhando corpo. Não apenas porque o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso fez uma sugestão sobre sua limitação. Mas, principalmente, porque está...
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Meirelles sai na frente - João Domingos

18/02/2017 15:57
Meirelles sai na frente - João Domingos  O Estado de S. Paulo   Ministro capitaliza a melhora na economia e se fortalece para 2018   Um dos possíveis candidatos à Presidência da República em 2018 do lado da pactuação política que hoje toca os destinos do País está com...
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STF e o princípio republicano – Leandro Colon

18/02/2017 15:54
STF e o princípio republicano – Leandro Colon  Folha de S. Paulo   Além de um óbvio saldo positivo no combate à corrupção, os três anos de Operação Lava Jato, a serem completados em março, carregam o mérito de estimular o debate sobre a prerrogativa de foro no Supremo Tribunal...
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Governadores pró-desigualdade social - Suely

18/02/2017 13:22
Governadores pró-desigualdade social - Suely Caldas - O Estado de S. Paulo   Governantes sabem, mas fingem desconhecer quão necessário é o equilíbrio fiscal   Além de escancarar a gestão depredadora e irresponsável de governadores com o dinheiro público, a degradada...
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Governo STF - Míriam Leitão - O Globo

18/02/2017 13:19
Governo STF - Míriam Leitão - O Globo   Um dos princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal é não criar despesa sem dizer de onde virá a receita. O STF está livre desse limite e por isso criou, esta semana, uma despesa, que nem sabe o tamanho, quando mandou indenizar presos em...
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A intervenção no Rio - Adriana Fernandes

18/02/2017 12:38
A intervenção no Rio - Adriana Fernandes - O Estado de S. Paulo   Calamidade já é usada pelo Rio para obter no STF aval a novos empréstimos   O Estado do Rio está agora “transparentemente” falido. O golpe final foi a divulgação nesta semana do relatório de gestão fiscal...
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Mas é a lei - Ana Maria Machado - O Globo

18/02/2017 12:33
Mas é a lei - Ana Maria Machado - O Globo   Em Brasília, os pilantras que querem enterrar a Lava-Jato aproveitam a pátria distraída com o verão e o carnaval   O que está acontecendo conosco? Como chegamos a este ponto? Como pretendemos ser uma nação digna desse nome se todo...
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Mala de Dinheiro pra Lula - Revista IstoÉ

18/02/2017 06:21
BRASIL “Levei mala de dinheiro para Lula”   Ex-sócio de Fernando de Arruda Botelho, acionista da Camargo Corrêa morto em acidente aéreo há cinco anos, Davincci Lourenço diz à ISTOÉ que ele foi assassinado e que o crime encobriu um esquema de corrupção na empresa. O ex-presidente...
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O Papa Francisco na Universidade Roma Trê

18/02/2017 05:45
O Papa na Universidade Roma Tre: ser artesãos de diálogo e de paz Rádio Vaticana   Cidade do Vaticano (RV) – O Santo Padre deixou o Vaticano, na manhã desta sexta-feira (17/02), para fazer uma visita à Universidade Roma Três, a mais nova da Cidade. É a primeira vez que o Papa...
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Porandubas Políticas por Gaudêncio Torquato

18/02/2017 05:06
Porandubas Políticas Por Gaudêncio Torquato   Mata o bicho, sô   Abro a coluna com a mineirice de Zé Abelha   O monsenhor Aristides Rocha, mineirinho astuto, fazia política no velho PSD e odiava udenistas. Ainda jovem, monsenhor foi celebrar missa em uma paróquia...
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Faz que vai, mas não vai - Eliane Cantanhêde

18/02/2017 04:40
Faz que vai, mas não vai - Eliane Cantanhêde - O Estado de S. Paulo   Quanto mais os políticos esperneiam contra a Lava Jato, mais são obrigados a recuar   Quanto mais o Congresso tenta avançar contra a Lava Jato e a favor da impunidade, mais é obrigado a recuar, pela...
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Cunha tem mais perguntas – Bernardo

18/02/2017 04:33
Cunha tem mais perguntas – Bernardo Mello Franco - Folha de S. Paulo   Eduardo Cunha planejava passar o Carnaval no Rio. Obrigado a ficar em Curitiba, decidiu retaliar antigos companheiros de folia. É o que indica o novo questionário que ele enviou à Justiça Federal.   O...
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Artigo: Democracia e Democracias

17/02/2017 20:07
Democracia e Democracias - Argelina Cheibub Figueiredo - Valor Econômico   O presidencialismo de coalizão não é o vilão da hora   Recentemente nossa democracia sofreu um revés. E, como sempre, as instituições políticas são responsabilizadas. O principal alvo de crítica...
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O momento da economia - Míriam Leitão

17/02/2017 20:03
O momento da economia - Míriam Leitão - O Globo   Arminio Fraga acha que a dívida pública brasileira pode chegar a 90% do PIB. Mesmo assim, ele sente alívio no atual momento porque a crise poderia ter sido muito mais profunda. Admite que o Brasil “é uma aberração no quadro global”...
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Nove meses depois - Celso Ming

17/02/2017 18:26
Nove meses depois - Celso Ming - O Estado de S. Paulo   O governo Temer completou nove meses e isso já dá mais do que uma gestação. A crise e seu problemas continuam aí. O jeito de governar ainda é muito à moda antiga, mas, na área econômica, dá para notar algum avanço em direção à...
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Produtividade em queda segura o PIB - Claudia

17/02/2017 18:22
Produtividade em queda segura o PIB - Claudia Safatle  Valor Econômico   É grande o número de pequenas empresas improdutivas   O medíocre desempenho da produtividade no Brasil está na raiz do baixo crescimento da economia. Os dados são eloquentes: dos anos de 1950 a...
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Jararaca e Ratinho - Luiz Carlos Azedo

17/02/2017 16:29
Jararaca e Ratinho - Luiz Carlos Azedo - Correio Braziliense   É um cenário do tipo “rouba mas faz” (Ademar de Barros) versus “prendo e arrebento” (João Batista Figueiredo)   A dupla caipira Jararaca (o alagoano José Luiz Rodrigues Calazans) e Ratinho (o baiano Severino...
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STF libera candidatura de Maia à reeleição

02/02/2017 11:25
STF libera candidatura de Maia à reeleição Supremo nega quatro pedidos para barrar candidatura de Maia   • Celso de Mello, decano da Corte, rejeita pedidos de liminares para barrar a candidatura do presidente da Casa; deputado do DEM é favorito e tem apoio do...
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Família autoriza doação dos órgãos de Marisa Letícia

02/02/2017 11:07
Família autoriza doação dos órgãos de Marisa Letícia A ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva, esposa e companheira do ex-presidente, durante o Encontro das mulheres e militantes com Lula, na Casa de Portugal do Grande ABC em Santo André (SP) (Leonardo Benassatto/Futura...
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Eunício Oliveira é eleito presidente do Senado

01/02/2017 20:15
Eunício Oliveira é eleito presidente do Senado   Peemedebista recebeu 61 votos, contra 10 do seu único adversário, José Medeiros. Novo presidente foi citado em delação da Odebrecht   Por Da redação - Site da Revista Veja O novo presidente do Senado, Eunício Oliveira...
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Eunício deve ser eleito hoje no Senado - Estadão

01/02/2017 13:29
Eunício deve ser eleito hoje no Senado • Com apoio da base e da oposição, senador do PMDB é defensor da agenda de reformas do governo Michel Temer, de quem se diz amigo   Ricardo Brito | O Estado de S.Paulo   BRASÍLIA - Num contraponto à tensa disputa ao comando da Câmara,...
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Artigo: A grande jogada de mestre ?

01/02/2017 11:40
A grande jogada de mestre ? Por Josenildo Melo   Em se concretizando hoje a filiação de um grande nome da política piauiense; o grande mestre coloca no tabuleiro do xadrez político a concretização de um sonho em prol do Estado do Piauí. E não está errado? Afinal quem é o grande...
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Resposta ao desemprego - Míriam Leitão

01/02/2017 11:22
Resposta ao desemprego - Míriam Leitão - O Globo   O principal problema da economia brasileira hoje é o desemprego. Ele é o fruto mais amargo da grave crise na qual o país entrou por má condução da política econômica. Foi o governo Dilma que jogou o emprego nesta queda livre, mas o...
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Cármen Lúcia quer sortear relatoria da Lava Jato

31/01/2017 11:57
Cármen Lúcia quer sortear relatoria da Lava Jato entre cinco Novo relator decidirá sobre sigilo de delação da Odebrecht   • Nome deve ser escolhido entre os integrantes da 2ª Turma do tribunal   Letícia Casado, Valdo Cruz | Folha de S. Paulo   BRASÍLIA - Após a...
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Supremo homologa delação da Odebrecht - Estadão

31/01/2017 11:47
Supremo homologa delação da Odebrecht, mas mantém sigilo Ministra Carmen Lúcia homologa as 77 delações da Odebrecht   • Presidente do STF, contudo, decidiu manter o sigilo dos depoimentos dos executivos e ex-executivos da empresa   Breno Pires e Rafael Moraes Moura | O...
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Estatais do Rio, MG e RS valem R$ 34 bilhões

30/01/2017 12:14
Estatais do Rio, MG e RS valem R$ 34 bilhões Por Rodrigo Carro | Valor Econômico   RIO - Se privatizarem todas as suas estatais, os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul conseguirão abater quase 50% de sua dívida com a União. Levantamento feito pela agência de...
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Sinais para a sociedade - Merval Pereira

29/01/2017 13:24
Sinais para a sociedade - Merval Pereira - O Globo   Homologar delações da Odebrecht será bom sinal. Caso a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, a “lucidade senhora” nas palavras do músico Tom Zé, homologue as delações dos 77 executivos da Odebrecht, ou pelo...
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O mundo contra a vida - Cacá Diegues
- O Globo
 
Um dia, acabamos por descobrir que não amamos tanto quanto gostaríamos de ter amado, não cuidamos de nossos filhos como pedia o nosso afeto
 
Em geral, o mundo está sempre atrapalhando nossa vida. O mundo e nossos compromissos com ele, os compromissos que o mundo nos obriga a ter, nunca são mais atraentes do que aquilo que consideramos necessário à nossa felicidade. Raramente servem a nosso bem-estar, como se fossem apenas obrigações desagradáveis das quais não podemos abrir mão, se queremos seguir vivendo. Podemos até nos acostumar a essas obrigações, mas elas sempre pesarão em nosso corpo e em nosso espírito, em nossas vidas.
 
Um dia, acabamos por descobrir que não amamos tanto quanto gostaríamos de ter amado, não cuidamos de nossos filhos como pedia o nosso afeto, não curtimos os amigos como devíamos, não divagamos nas nuvens sem preocupações, do modo que bem merecíamos. O mundo não nos permitiu viver do jeito que havíamos planejado, preferido e merecido.
 
O mundo é o obstáculo à vida, uma realidade inventada por não sabemos direito quem, a fim de nos fazer sofrer de todos os modos. O inimigo de nossos melhores planos, a quem somos obrigados a prestar vassalagem com o que temos de melhor a oferecer, da saúde de nosso corpo à nossa inteligência, do nosso tempo sem ócio à submissão ao dinheiro para sobreviver. O lugar do doloroso trabalho, das frustrações do reconhecimento, do abandono e da solidão involuntária. Nele, somos obrigados a obedecer a todas as regras sobre as quais ninguém nunca nos perguntou nada.
 
De vez em quando, ousamos preferir a vida, mesmo que isso seja objetivamente inútil, um pretensioso pecado de soberba que, de um modo ou de outro, nos causará algum mal. A vida será sempre sitiada pelo mundo, obrigada por ele a perder sua energia, a alegria que vislumbramos nela.
 
Quando uma pessoa amada se cura de uma doença diagnosticada inicialmente como fatal, o mundo nos diz que devemos tudo a ele. Estamos na segunda metade da segunda década do século XXI, devemos saudar as descobertas da ciência, o incrível avanço dos aparelhos e da tecnologia correspondente, os novos aparatos à disposição dos doutores capazes de nos salvar de tudo. Se tudo isso já não tivesse sido inventado, o tratamento teria sido um fracasso. Mas só pensamos em celebrar a vida, pois sabemos que foi uma força pessoal sem nome, a energia de uma vontade luminosa, a fogueira de um desejo invencível, o gosto imenso de viver, maior que as razões do mundo em volta, que curou definitivamente a pessoa amada. E usamos o mundo para registrar com subserviência esse recomeço.
 
É ainda uma enorme e vulgar incompreensão rir-se por grotesco ou desprezar por vazio o hábito contemporâneo do smartphone. Quem disse que esse é um hábito solitário, um solipsismo social de nosso tempo? O smartphone é a arma moderna na busca por um amigo, a última esperança de encontrar um afeto, um amor que o mundo real não tem mais como nos oferecer. Um criador de parcerias.
 
Assim como o hábito da selfie, praticado com o mesmo aparelho celular, é uma confirmação de nossa existência neste mundo governado por famosos vazios permanentemente registrados nas redes, nos jornais, na televisão. O Cristo Redentor, a Torre Eiffel, o Taj Mahal no fundo das selfies, não têm nenhum significado próprio; esses monumentos estão ali a serviço de nossa própria grandeza pessoal, acrescentando, sempre em segundo plano, algo retumbante a nossos rostos sorridentes e felizes. Que são o que interessa à vida.
 
O que há de sagrado no mundo é a vida dos outros. Não podemos ameaçá-la com nossos interesses, nem mesmo com nossas necessidades. É assim, por exemplo, que agem os políticos corruptos, opondo seu bem-estar aos interesses e necessidades dos outros. Um deles, preso recentemente, pediu dinheiro a seu corruptor em nome do “futuro de seus filhos”, como foi fartamente relatado pelos noticiários. Com isso, recebeu do empresário que o corrompia os recursos de que os outros dependiam para ir à escola, tratar-se num hospital decente, não passar fome. Ir ao mundo e viver sua própria vida.
 
Me escandalizo com o fracasso total do ideário moral, político e comportamental das mais belas e generosas vanguardas do século XX, vanguardas para as quais a vida era a razão de tudo e o mundo devia estar a serviço dela. Não sobrou nada dessas vanguardas esquecidas, a não ser uma literatura no mofo, considerada hoje de fantasia. Ou caricaturas de suas expressões fundadoras, palavras de ordem como paz & amor, é proibido proibir, a imaginação no poder. Será que a humanidade não deseja ser feliz?
 
Só nos resta ir em frente com nossas vidas, enquanto o verão ainda está aí com seu sol que nos abrasa.
 
 
*Cacá Diegues é cineasta

 

Nomeação infeliz – Editorial | Folha de S. Paulo
Em episódio que marcou os estertores do governo petista, a ex-presidente Dilma Rousseff anunciou a escolha de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, para a chefia da Casa Civil.
 
Como ficou mais que evidente à época, tratava-se de manobra que tinha como um de seus objetivos garantir foro privilegiado ao ministro recém-nomeado, em cujo encalço estava a força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba.
 
Eis que agora o Palácio do Planalto, sob o comando de Michel Temer (PMDB), decide conceder status ministerial a Moreira Franco, peemedebista citado ao menos 34 vezes em delação premiada de um ex-dirigente da construtora Odebrecht.
 
Há que se guardar, por óbvio, as proporções entre as circunstâncias, os personagens envolvidos e as consequências esperadas em um e outro caso. Mas o eventual sentido administrativo da medida de Temer permanece muito menos visível que o benefício concedido ao correligionário.
 
Moreira Franco é um dos auxiliares mais próximos ao presidente. Ocupava o cargo, estratégico para a política econômica, de secretário-executivo do Programa de Parceria em Investimentos (PPI), ao qual cabe desfazer os gargalos no setor de infraestrutura.
 
Assumirá a recriada Secretaria-Geral da Presidência, à qual estará subordinado o mesmo PPI, além das estruturas de comunicação, administração e cerimonial.
 
Sobre ele pesa a suspeita —que evidentemente ainda precisaria ser corroborada por provas— de ter auferido propinas, sob o codinome "Angorá", para fazer avançarem os interesses da empreiteira quando era ministro da Aviação Civil do governo Dilma.
 
Boas razões embasam o princípio do foro privilegiado —pelo qual ministros de Estado, entre outras autoridades de primeiro escalão, só podem ser processados e julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Trata-se de uma proteção contra a litigância de má-fé por parte de inimigos políticos.
 
A garantia constitucional, entretanto, não pode se converter em atalho para a impunidade, o que muitas vezes ocorre devido ao acúmulo de processos que se arrastam no STF.
 
Como revelou uma pesquisa efetuada por este jornal, em novembro passado havia nada menos que 362 inquéritos e 84 ações envolvendo profissionais da política na corte.
 
Por ineficiência geral da Justiça e chicanas jurídicas dos interessados, o foro é visto com desconfiança pela opinião pública. Quaisquer que tenham sido seus propósitos, a nomeação infeliz anunciada por Michel Temer acaba por contribuir para essa imagem nega
'A utopia foi privatizada', afirmou Zygmunt Bauman em entrevista inédita
Filósofo polonês morto em 2017 falou sobre política, tecnologia e como enxergava o futuro
 
Daniel Augusto* | Colaboração para o Estado de S. Paulo
 
Vídeo da entrevista com Zygmunt Bauman, da série Incertezas Críticas, produzido pela Grifa Filmes.
 
Quando eu e o diretor de fotografia Jacob Solitrenick tocamos a campainha da casa de Zygmunt Bauman, já estávamos com todo o equipamento pronto para iniciar a entrevista. Ao entrarmos, porém, o sociólogo não deixou que começássemos a trabalhar: fez questão de nos servir um lanche com frutas, papear um pouco, como quem reduz a velocidade a que estamos acostumados no cotidiano, abre uma brecha de humanidade na produtividade. Não que ele estivesse sem o que fazer: precisava arrumar as malas para uma conferência fora do país, tinha que deixar uma lista de e-mails respondida, entre outros assuntos. Mas não pôde deixar de abrir uma pausa na urgência, um desses gestos pequenos e gigantes ao mesmo tempo, lição de adequação entre o pensamento e o cotidiano: não basta criticar o tempo que vivemos, é preciso vivê-lo de outra maneira.
 
Bauman nasceu na Polônia em 1925, mas residia na Inglaterra, onde foi professor titular da Universidade de Leeds. No decorrer da sua trajetória, publicou dezenas de livros, traduzidos para diversas línguas. Aliava uma vasta observação do mundo contemporâneo com uma escrita acessível ao leitor não-especializado: seu conceito de modernidade líquida, por exemplo, suscitou debates nas universidades, mas também na imprensa, nas artes, assim por diante.
 
Fui entrevistar o sociólogo em junho de 2012 por conta de uma série de televisão que escrevi e dirigi, Incertezas Críticas, produzida pela Grifa Filmes. Meu objetivo era inserir determinados aspectos do nosso presente num horizonte mais amplo: isto é, apresentar algumas possibilidades de análise e interpretação de temas como a crise econômica, a internet, a arte contemporânea, entre outros, de modo a sugerir quadros conceituais menos fixados na urgência das últimas notícias. Nesse sentido, a conversa com Bauman era promissora: ao longo da sua obra, existe uma variedade de assuntos notável, que caminha lado a lado com uma ambição interpretativa alargada.
 
Ao saber da morte de Bauman no último dia 9, decidi tornar público parte do material da entrevista, ainda inédita. Como se verá, muito do que foi dito naquela tarde ajuda a explicar o mundo que vivemos hoje.
 
Como você relaciona crise econômica e modernidade líquida?
 
A incerteza é a única certeza que temos. Não sabemos mais como planejar a longo prazo e, quando planejamos, não temos certeza se o plano vai se concluir. Isso se aplica ao nível individual e ao nível social. A crise econômica é só um dos exemplos dessa instabilidade.
 
Como isso se dá?
 
Poder é a capacidade de realizar as coisas. Política é a capacidade de decidir quais coisas serão realizadas. As duas coisas, poder e política, até 50 ou 60 anos atrás, andavam juntas, dentro do quadro dos Estados-nações. As pessoas podiam estar à direita, esquerda ou no centro do espectro político, mas todas concordavam em um ponto: o que fosse decidido, as instituições políticas do Estado tinham o poder e os instrumentos para realizar. Então, a questão toda era quem estava sentado no palácio presidencial ou no comando do governo. Uma vez lá dentro, poderiam fazer política de um jeito ou de outro. Tinham os meios, os instrumentos e a capacidade para fazer isso. Não funciona mais assim.
 
Como funciona?
 
Na Europa, temos governos que trabalham com algo que, na área de sociologia, chamamos de double bind. Trata-se de uma pressão dupla em direções extremamente opostas. Por um lado, eles estão expostos ao eleitorado, porque são reeleitos ou tirados do poder a cada 3 ou 4 anos. Portanto, precisam escutar o que o povo quer. Por outro lado, os governos sofrem a pressão extraterritorial de finanças, capitais, bancos internacionais, corporações etc. Estes não dependem do eleitorado, não foram eleitos e não ligam nem um pouco para qual será a reação da população. Querem que o governo deixe de escutar o povo e faça as vontades dos acionistas pois, para eles, a economia equivale aos interesses dos acionistas, isto é, destes que podem ganhar bilhões do nada, ou destruir bilhões, em um dia. São pressões opostas. O resultado disso é que o governo tem opções limitadas.
 
As crises tendem a se multiplicar?
 
Eu não acho que essa situação de desordem econômica, pois é difícil chamar isso de ordem, poderia sobreviver sem uma crise constante. Deve haver algum lugar onde os capitais possam se reabastecer ou rejuvenescer, sugando os espólios de outros locais. Então, o que é característico do sistema mundial hoje, em tempos de modernidade líquida, é a constante mudança ou flutuação de poder econômico de um lugar para outro. A situação é essa: por um lado, há poderes que estão livres de qualquer controle político; por outro lado, há políticos que sofrem com a falta de poder. Temos poder sem política e política sem poder.
 
Como isso afeta cada um de nós?
 
Até recentemente, os Estados tinham a obrigação de prover as necessidades básicas da vida. Mas, por causa do déficit de poder dos governos nacionais, eles não conseguem mais prover. Portanto, os governos precisam deixar de lado as funções que tinham como obrigações. Eles tem duas formas de deixar de lado essas funções. Uma delas é privatizar. A outra forma é rebaixá-las a um nível que, após Anthony Giddens, chamo de política da vida real. Na política da vida real, eu, você e todas as pessoas, somos ao mesmo tempo parlamento, governo e judiciário. As pessoas têm que decidir o que fazer, executar e julgar. Assim, diversas funções que eram antes realizadas por uma comunidade, agora estão nos ombros dos indivíduos.
 
Quais as consequências dessa política da vida real?
 
Por um lado, é um grande avanço de liberdade individual. Em princípio, você pode ser o dono da sua própria vida. É o que chamo de indivíduos de jure: nós somos indivíduos por decreto. Assim, goste ou não, você é culpado por suas derrotas. Se você fracassa, não pode culpar a ninguém. O que, é claro, afeta sua autoestima. Se os seus pais sofressem de insônia, era sobretudo porque tinham medo de não estar suficientemente bem conformados aos padrões. Mas, caso você sofra de insônia, não é por medo de desviar da norma. Pelo contrário, você pode agir como quiser. Você pode ter medo, talvez, de ser incapaz de realizar algo. Sentir que não tem os recursos, o talento, a capacidade ou a energia suficientes para ser quem gostaria de ser. Supostamente, você é livre para escolher sua identidade, mas na prática você não consegue realizar isso. Portanto, você é um indivíduo de jure, mas não é um indivíduo de fato. Essa situação traz sentimentos muito desagradáveis, que são muito comuns no mundo hoje. Um deles é o sentimento de ignorância constante, de não saber o que vai acontecer. Outro sentimento é o de impotência, isto é, mesmo que eu saiba exatamente qual o perigo, não posso fazer nada para impedir. Não tenho o poder para isso. A combinação desses sentimentos, ignorância e impotência, resulta no de humilhação, que é um golpe pesado na autoconfiança e na autoestima. De acordo com as estatísticas, a depressão é a doença mais comum do momento. Muita gente fica deprimida em algum momento. A depressão é o produto dessa sensação de não ter controle, de estar abandonado. Às vezes, chamamos isso de exclusão. Nós somos excluídos de onde a ação acontece, de onde a vida real é vivida. Não conseguimos chegar lá.
 
Nessa perspectiva, dá para pensar em utopia?
 
Viver nessas circunstâncias exige que as pessoas tenham nervos muito fortes. Que tenham determinação e também que pensem em maneiras de transformar o mundo em que vivem. É muito difícil de propor isso e mais ainda de conseguir. As utopias, há 50 ou 60 anos, eram utopias sobre uma sociedade perfeita, na qual cada pessoa teria um lar com segurança e todos estariam mais ou menos satisfeitos com a vida. Ter uma boa vida significava viver dentro de uma boa sociedade, por causa dela e graças a ela. Hoje, essa utopia não existe mais. Utopia, como muitas outras coisas na vida, foi privatizada. A utopia privatizada não é sobre uma sociedade melhor, mas sobre indivíduos melhores, cada um em suas situações individuais, dentro de uma sociedade muito ruim. Sobre a sociedade, dizem que não dá para mudar. Mas o que as pessoas podem fazer é cuidar de si mesmas, de seus entes queridos, sua família, cônjuge, o que seja. Encontrar um lugar confortável em um mundo essencialmente desconfortável.
 
Você pode dar um exemplo de utopia privatizada?
 
O Facebook. Nele, você pode ter um mundo imaginário, on line, que não aparece na realidade offline. Você pode ser quem você quiser online. Pode ter várias identidades diferentes, pode fingir ser algo que não é, pode realizar todos os seus sonhos. É uma maneira de fugir das duras exigências e asperezas do mundo offline. Uma outra reação é buscar algum tipo de mudança na sociedade como um todo. Por exemplo, os movimentos Occupy.
 
Como você vê o futuro a partir dessas alternativas?
 
Eu não sou pessimista nesse sentido. Porque toda árvore de carvalho de cem anos começa com uma muda apenas. E, então, se torna um carvalho majestoso em cem anos. Todas as maiorias na história começaram como minorias. Se não fosse assim, ainda estaríamos no período paleolítico: se ninguém quisesse sair da caverna, ainda estaríamos lá. Aqueles que decidiram sair, eram minoria. Então, cedo ou tarde, o ser humano vai encontrar soluções, mudar os hábitos, mudar a si próprio e começar a viver de outra maneira. Tenho quase certeza disso, mas o problema que me preocupa é quanto tempo isso levará para acontecer.

 

Problemas estruturais – Editorial | O Globo
• Não há ideologia capaz de refutar a lógica que leva o sistema brasileiro à falência
 
Era inexorável a contaminação político-ideológica do debate sobre as reformas necessárias para retirar o país da crise fiscal, sendo uma das principais a da Previdência. Mesmo em tempos menos tensos isto não deixaria de ocorrer. Como acontece na Europa ocidental — região de economias e sociedades desenvolvidas —, sempre que é necessário rever mecanismos de seguridade social.
 
É o caso do Brasil. Mas aqui há o agravante de a missão de fazer estas reformas ter ficado com o governo de Michel Temer, vice de Dilma Rousseff (PT), retirada do Planalto por um processo de impeachment, apoiado, entre outros, pelo partido de Temer (PMDB), e instaurado por crimes de responsabilidade cometidos pela presidente ao desrespeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal.
 
Há, portanto, uma carga adicional nas críticas feitas à reforma da Previdência, forçada por simples lógica aritmética: as despesas com benefícios previdenciários e pensões ultrapassam a receita proveniente das contribuições dos trabalhadores no setor formal da economia (com carteira assinada), e são estruturalmente crescentes. No ano passado, o déficit quebrou a barreira dos R$ 100 bilhões, com projeções muito preocupantes. E o desemprego não explica tudo.
 
As razões que impõem esta reforma — que chega tarde, daí precisar ser dura —, de fundo demográfico, são idênticas às que volta e meia impelem países desenvolvidos a fazer o mesmo, e com iguais desdobramentos: incompreensão de muitos e temor dos políticos. Este é um dos momentos em que se vê a diferença entre a estatura dos homens públicos.
 
No atual debate sobre a reforma da Previdência, uma corrente tenta desqualificar o déficit com argumentos fantasiosos. Dependendo da forma como se torturem as estatísticas, elas mostram qualquer cenário. Até que a Previdência brasileira é superavitária. Basta, por exemplo, retirar do INSS a aposentadoria rural, e tachá-la de benefício social, alocado em alguma rubrica fora do INSS. É simples, mas mentiroso. Não se consegue esconder que as despesas do Estado, não importa onde estejam registradas, geram um déficit enorme, na faixa dos 9% do PIB. E se tirarmos dos gastos os juros, uma conta elevada, mesmo assim há um rombo acima de 2% do PIB. Mais: das despesas primárias (sem os juros), os gastos previdenciários já são mais de 40%. Logo, é preciso revê-los.
 
Sob o aspecto demográfico, a Previdência, como está, fica ainda mais insustentável. Pois, num país em que a expectativa de vida da população está felizmente em alta e já passa dos 75 anos, o fato de a idade média de se aposentar ser de 58 anos é um problema estrutural grave. E, como a faixa jovem da população tende proporcionalmente a ficar menor, é indiscutível que o INSS estará falido em algum tempo. Afinal, mais pessoas receberão benefícios por mais tempo e menos contribuirão para o INSS. Não há ideologia que refute esta verdade e desqualifique a proposta de uma idade mínima (65 anos) para a habilitação à aposentadoria, como na maioria dos países.

 

O furacão Odebrecht - Mario Vargas Llosa*
- O Estado de S. Paulo
 
Casos de corrupção em países da América Latina são chance para regenerar a democracia
 
Algum dia teremos de erigir um monumento em homenagem à empresa brasileira Odebrecht, porque nenhum governo, empresa ou partido político fez tanto quanto ela desvelando a corrupção que corrói os países da América Latina, nem trabalhou com tanto ânimo para fomentá-la.
 
A história possui todos os ingredientes de um grande thriller. O empresário brasileiro Marcelo Odebrecht, dirigente da companhia, condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, com seus principais executivos, depois de passar algum tempo entre as grades manifestou, para ter sua pena rebaixada, sua disposição em relatar todas as safadezas que cometeu – no Brasil, chamam isso de delações premiadas.
 
Ele começou a falar e da sua boca – e das bocas de seus executivos, saíram cobras e venenos que fizeram tremer todo o continente, a começar pelos seus presidentes, atuais e anteriores. Marcelo Odebrecht me lembra o tenebroso Gilles de Rais, o valente companheiro de Joana D’Arc, que, chamado pela Inquisição da Bretanha para responder se era verdade que havia participado de um ato de satanismo com um cômico italiano, disse que sim, e, além disso, havia violado e assassinado mais de 300 crianças porque apenas cometendo tais horrores ele sentia prazer.
 
A empresa Odebrecht gastou cerca de US$ 800 milhões em propinas pagas a chefes de Estado, ministros e funcionários de governos para ganhar licitações e obter contratos que quase sempre eram escandalosamente supervalorizados, permitindo à companhia contabilizar lucros enormes. Isso vinha ocorrendo há muitos anos e, por acaso, nunca haveria uma punição se entre seus cúmplices não houvesse um grande número de diretores da Petrobrás, petrolífera brasileira que, investigada por um juiz fora do comum, Sérgio Moro, que abriu a caixa de Pandora – aliás, é um milagre que ainda continue vivo.
 
Ramificações. Até o momento, há três mandatários latino-americanos implicados nos negócios sujos da Odebrecht fora do Brasil: os do Peru, da Colômbia e do Panamá. E a lista só começou. Quem está na situação mais difícil é o ex-presidente peruano Alejandro Toledo, a quem a Odebrecht teria pago US$ 20 milhões para conseguir os contratos de dois trechos da Rodovia Interoceânica que une, através da selva amazônica, Peru e Brasil.
 
Toledo, que está fora do Peru na condição de foragido, foi condenado por um juiz à prisão preventiva de 18 meses, enquanto o caso é investigado. As autoridades peruanas comunicaram o fato à Interpol e o presidente Kuczynski telefonou ao presidente americano, Donald Trump, pedindo sua deportação para o Peru – Toledo tem um emprego na Universidade Stanford. O governo israelense informou que não o receberá em seu território enquanto não ficar esclarecida sua situação legal. Até agora, Toledo tem se negado a retornar ao Peru, alegando ser vítima de perseguição política, algo em que nem seus mais inflamados partidários – e são poucos – acreditam.
 
Fico muito entristecido com esse envolvimento de Toledo porque, como lembrou Gustavo Gorriti em um dos seus excelentes artigos, ele liderou com grande carisma e coragem há 17 anos a formidável mobilização popular no Peru contra a ditadura assassina e cleptomaníaca de Alberto Fujimori, tendo sido um elemento fundamental para sua derrubada.
 
Não apenas eu, mas toda minha família, o apoiamos com entusiasmo. Meu filho Gonzalo gastou todas as economias que possuía na grande Marcha de los Cuatro Suyos, em que milhares, talvez milhões, de peruanos manifestaram em todo o país em favor da liberdade.
 
Meu filho Álvaro deixou todos os seus afazeres para apoiar em tempo integral a mobilização em favor da democracia e, depois da derrubada de Fujimori, participou da campanha presidencial de Toledo até o primeiro turno, e foi um dos seus colaboradores mais próximos. Mas depois algo estranho sucedeu: ele rompeu com Toledo, de maneira precipitada e ruidosa. Alegou ter ouvido em uma reunião algo que o alarmou muito: Josef Maiman, o magnata israelense, afirmou que queria comprar uma refinaria que pertencia ao Estado e um canal de TV.
 
Maiman, segundo denúncias da Odebrecht, atuou como testa de ferro do ex-presidente e serviu de intermediário, fazendo chegar às mãos de Toledo pelo menos 11 dos US$ 20 milhões recebidos para favorecer a empresa na obtenção de contratos públicos. Quando isso ocorreu, achei que a suscetibilidade do meu filho Álvaro era exagerada e injusta e até nos distanciamos um pouco. Hoje, peço desculpas a ele e o aplaudo por suas suspeitas e o olfato justiceiro.
 
Espero que Toledo retorne ao Peru por vontade própria, ou que o tragam para o país, e seja julgado com imparcialidade. Diferente do que se verificou na ditadura fujimorista, hoje isso é perfeitamente possível. E se for declarado culpado que pague pelos roubos e a traição cometida contra milhões de peruanos que votaram nele e o seguiram em sua campanha pela democratização do Peru contra os usurpadores e golpistas.
 
Tive bastante contato com Toledo naqueles dias e me parecia um homem sincero e honesto, um peruano de origem muito humilde que pelo esforço tenaz havia – como gostava de dizer – “derrotado as estatísticas”. Eu tinha certeza de que ele faria um bom governo.
 
O certo é que – safadezas à parte, se ocorreram – tudo foi feito muito bem, pois nos seus cinco anos de governo foram respeitadas as liberdades públicas, a começar pela liberdade de uma imprensa que entrou em choque com ele, e pela boa política econômica, de abertura e incentivos ao investimentos, que propiciou o crescimento do país.
 
Tudo isso foi esquecido desde que foi descoberto que ele havia adquirido imóveis caros, embora tenha alegado que tudo fora comprado por sua sogra com dinheiro do célebre Josef Maiman. Desculpas que, em vez de eximi-lo de culpa o comprometeram ainda mais.
 
Onda. As delações premiadas da Odebrecht constituem uma oportunidade magnífica para os países latino-americanos punirem severamente os governantes e ministros corruptos das frágeis democracias que substituíram, na maior parte dos nossos países – exceção de Cuba e Venezuela – as antigas ditaduras.
 
Nada é mais desmoralizador para uma sociedade do que ver que governantes que chegaram ao poder com o voto do eleitor comum aproveitaram seu mandato para enriquecer, infringindo leis e vilipendiando a democracia. Hoje, a corrupção é a maior ameaça ao sistema de liberdades que vem prosperando na América Latina depois dos grandes fracassos das ditaduras militares e dos sonhos messiânicos dos revolucionários.
 
É uma tragédia que, no momento em que a maioria dos latino-americanos começa a se convencer de que a democracia liberal é o único sistema de governo que garante um desenvolvimento civilizado, na convivência e na legalidade, o roubo frenético cometido por governantes corruptos conspire contra essa tendência positiva. Aproveitemos as delações premiadas da Odebrecht para puni-los e demonstrar que a democracia é o único sistema capaz de regenerar-se a si mesmo. / Tradução de Terezinha Martino
 
 
*É Prêmio Nobel de Literatura

 

Carne queimada - Vera Magalhães

- O Estado de S. Paulo
 
Quem for marcado com a cruz escarlate da Lava Jato terá o destino traçado
 
Quem tem mais de duas décadas cobrindo escândalos políticos de diferentes matizes político-ideológicos e magnitudes sabe reconhecer aquele momento em que surge um fato que torna impossível uma composição de interesses que permita abafar tudo e seguir adiante sem nenhuma alteração no status quo vigente.
 
Desde a redemocratização, isso ficou claro em eventos cruciais, como o impeachment de Fernando Collor – que ganhou impulso com as revelações do irmão Pedro e virou fato consumado com as do motorista Eriberto – e o mensalão.
 
Mas também foi assim em casos de menor alcance, como o da violação do painel de votações do Senado por Antonio Carlos Magalhães e a primeira queda de Antonio Palocci, em 2006, por frequentar a chamada “casa do lobby”.
 
ACM era, em 2001, o todo-poderoso do Congresso. Nessa condição, achou que sairia ileso se encomendasse a funcionários do Prodasen do Senado a lista de como votariam os senadores na cassação de Luiz Estevão. E sairia, não fosse o depoimento, na época, da então chefe da empreitada, a funcionária pública Regina Célia, que entregou o esquema e forçou o cacique a renunciar para não ser cassado.
 
Palocci também era o ministro forte de Lula quando um jardineiro, Francenildo, disse que ele era frequentador assíduo de uma casa onde rolava não só lobby como prostituição, em Brasília. Tentou esmagar o delator apontando que ele recebera para denunciá-lo. Para isso, usou o peso do cargo que ocupava e violou o sigilo bancário do caseiro na Caixa Econômica Federal. O tiro saiu pela culatra, e Palocci teve de pedir sua primeira demissão. Levaria ainda dez anos para ir parar atrás das grades, por outras traficâncias.
 
No mensalão, Marcio Thomaz Bastos achou que resolveria a parada com a tese de que tudo não passara de caixa 2. Não colou, e o divisor de águas foi o depoimento de Duda Mendonça na CPI dos Correios. A CPI virou indiciamento, que virou denúncia, que virou ação penal, que deu em condenações de pesos pesados da política, do sistema financeiro e adjacências.
 
Quando o STF começou a julgar o caso, depois de sete longos anos, o mesmo Thomaz Bastos garantiu a clientes, jornalistas e políticos que ninguém seria condenado. Mas de novo ali houve um “turning point” histórico: a divulgação de conversas entre ministros da corte mostrando que eles discutiam votos. Os olhos postos da opinião pública sobre o maior julgamento político-penal até então impediram que eles “amaciassem” para José Dirceu, como Ricardo Lewandowski confidenciou que era o plano.
 
Corte no tempo para a Lava Jato. A maior operação de desmonte de um esquema criminoso no Brasil já dura quase três anos, levou à prisão alguns dos principais políticos, dirigentes de estatais e partidos, empresários, executivos e publicitários do País. Motivou, juntamente com a debacle econômica, o impeachment de mais um presidente, Dilma Rousseff.
 
No petrolão, não há um só “evento incitante”, como se chama em roteiro aquele momento que muda o curso da história. Suas dezenas de delatores, a extensão e a implicação de praticamente todas as forças políticas do País é que tornam impossível que prospere qualquer operação-abafa.
 
Pode-se urdir teses jurídicas como a de que é preciso separar o “joio” (quem enriqueceu de forma ilícita) do “trigo” (o caixa 2 inocente), propor projetos de lei para blindar este ou aquele, conspirar em bunkers nas madrugadas de Brasília que o final está dado. Quem for marcado com a cruz escarlate da Lava Jato será carne queimada. Morto ou “só” mutilado, com pena elevada ou prestando serviços à comunidade, o destino político (e empresarial, do outro lado) estará traçado.
 
 


Contato

Jornalista Josenildo Melo

Teresina - Piauí - Brazil

josenildomelo@bol.com.br


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