A chama do bolivarianismo está se apagando

31/10/2015 10:45

Entrevista

Por Monica Gugliano - Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

 

SÃO PAULO - Os argentinos que foram às urnas no domingo deram um claro recado: querem mudanças na condução do país. Seja qual for o presidente eleito em segundo turno no mês que vem - o kirchnerista Daniel Scioli ou o oposicionista Mauricio Macri -, ele terá de oferecer novos rumos para os argentinos.


O ex-embaixador brasileiro na Argentina José Botafogo Gonçalves, vice-presidente emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), diz não ter dúvidas sobre a necessidade de mudanças no país vizinho. Como ocorreu no Brasil, o governo gastou demais: "Na Argentina, assim como no Brasil e em outros países, ficou mais do que evidente aquela máxima de que 'não existe almoço grátis'. Chegou a hora de pagar a conta. Está muito claro que chegamos ao fim do ciclo do distributivismo populista no continente, seja quem for o próximo presidente".

 

Nos últimos 45 anos, Botafogo Gonçalves ocupou diversos cargos na área diplomática, quase sempre relacionados a assuntos econômicos e comerciais. Em 2000, foi o embaixador especial para assuntos do Mercosul. Logo depois ocupou o posto de embaixador brasileiro na Argentina (2002-2004).

 

Leia, a seguir, trechos da entrevista:

 

Valor: Qual é a sua avaliação do resultado das eleições presidenciais na Argentina onde, pela primeira vez na história, haverá segundo turno?

 

José Botafogo Gonçalves: É evidente que houve uma reação muito clara contra a política econômica. A Argentina vive uma situação bastante difícil na economia. Preços distorcidos, inflação, tarifas públicas controladas. A presidente Cristina Kirchner continua tendo uma capacidade de comunicação e de sedução junto à população argentina muito grande. Mas ficou evidente que só isso não basta.

 

Valor: Qual é o principal problema econômico da Argentina?

 

Botafogo Gonçalves: A atual política econômica está chegando no limite. Na Argentina, assim como no Brasil e em outros países, ficou mais do que evidente aquela máxima de que "não existe almoço grátis". Chegou a hora de pagar a conta. Está muito claro que chegamos ao fim do ciclo do distributivismo populista no continente, seja quem for o próximo presidente. Perceba que é uma situação mundial. Aconteceu também na Grécia. A população não queria, mas acabou tendo que aceitar as medidas de austeridade. Esse modelo distributivista acabou.

 

Valor: O senhor vê semelhanças entre o que ocorre no Brasil e na Argentina?

 

Botafogo Gonçalves: Sim. Guardadas as peculiaridades de cada um dos dois países, há esse paralelismo. Creio que a Argentina tem uma capacidade de recuperação mais rápida do que o Brasil, pelas suas peculiaridades, como a forte classe média. Nossa situação é muito mais grave. Mas não há dúvidas de que é chegada a hora de seguir uma política de austeridade.

 

Valor: Mas o Brasil não consegue seguir essa política econômica. As medidas propostas pelo governo não encontram respaldo no Congresso.

 

Botafogo Gonçalves: Esse é um grande obstáculo. Fala-se em acabar com o Bolsa Família. Ninguém quer acabar com o Bolsa Família. Trata-se apenas de o governo dizer onde vai cortar despesas. Porque precisa cortar. Não contesto os méritos dessa política. No Brasil, ela trouxe melhorias para a população. Tirou milhões da pobreza, mas temos que pensar na sustentabilidade dessa e das demais políticas distribucionistas.

 

Valor: O senhor diria que a América do Sul vive uma onda onde os governos tidos como de centro-esquerda vêm perdendo espaço para os mais conservadores?

 

Botafogo Gonçalves: Acho que vivemos um momento em que os governantes da região, de formas diferentes, estão dando prioridade à austeridade. Embora o presidente Evo Morales mantenha seu discurso, há bastante tempo a Bolívia se afastou das fantasias do bolivarianismo. O Chile também pratica uma política econômica bastante ortodoxa. O recente Tratado do Pacífico é o sinal mais claro. A Colômbia vem exibindo ótimos indicadores. O Peru também. Até mesmo a Venezuela, onde haverá eleições e não se vislumbram saídas políticas, mas confrontos que podem levar a uma ruptura social grave, terá que mudar. Eles não têm mais condições de manter a atual política. A chama do bolivarianismo está se apagando.

 

Valor: Seja qual for o resultado das eleições presidenciais na Argentina, o senhor acha que haverá mudanças substanciais na relação com o Brasil e o Mercosul?

 

Botafogo Gonçalves: O Mercosul já não dá conta dos desafios da inserção no mercado internacional. De agora em diante só podemos regredir.

 

Valor: Os dados mostram que um quarto dos produtos vendidos pelo Brasil no exterior tem o Mercosul como destino e a Argentina é nossa principal parceira...

 

Botafogo Gonçalves: Sim, mas temos que pensar em novos conceitos para uma integração regional. O ideal seria uma convergência de políticas macroeconômicas. O que vem acontecendo é que as importações de produtos brasileiros pela Argentina têm diminuído. Isso não é um problema em relação ao Brasil. A Argentina está em crise, sem dinheiro. Diminuiu o que compra do Brasil porque tem dado prioridade aos países, como a China, com oferta de mais crédito.

 

Valor: Na sua opinião, enquanto a Argentina não resolver seus problemas na economia, a tendência é continuar nessa curva em declínio?

 

Botafogo Gonçalves: A situação ruim está em ambos os países. A balança comercial brasileira também teve uma brutal queda nas importações. O Mercosul foi criado como uma zona de livre comércio e da união aduaneira. A união aduaneira, ainda que com defeitos, existe. O item de maior dinamismo, no entanto, não é o livre comércio. Do ponto de vista técnico, ele não existe. O Brasil tem que trabalhar, junto com a Argentina, pela integração não apenas entre si, mas no mundo. Veja a situação do Brasil: estamos entre as dez maiores economias do mundo e nossa participação é de 1% do comércio mundial. Somos anões do comércio.


 


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