A França, o estado islâmico, o Oriente Médio

16/11/2015 23:04

A França, o estado islâmico, o Oriente Médio

Por José Viegas Filho

José Viegas Filho

Quero começar pelo comentário de que é sempre bom lembrar que o terrorismo não se combate com tropas uniformizadas regulares, nem no Afeganistão nem no Iraque nem na Líbia nem em outros lugares. Mas o clima é novamente de guerra e não poderia deixar de ser, diante da barbárie a que o mundo está exposto.

Em segundo lugar, a situação com centro na Síria é verdadeiramente complexa e não há quem não se sinta um tanto desorientado pelo rumo variado que as coisas vão tomando. Assim como em 2001, os terroristas islâmicos voltaram a mostrar capacidade de fazer e mudar a agenda internacional.

Assim como o Taliban no Afeganistão é o continuador dos Mujahidin que os americanos armaram e treinaram para lutar contra a União Soviética, o estado islâmico é descendente dos sunitas que 15 anos atrás mandavam no Iraque.

Assad tem amigos xiítas e inimigos sunitas. O esfacelamento da unidade política da Síria levou ao surgimento de organizações terroristas de base sunita das quais o estado islâmico é o exemplo mais atual.

Os ocidentais priorizaram Assad como o inimigo número um e isso permitiu que o estado islâmico crescesse à sombra, sem que os ocidentais o atacassem frontalmente. Já a Rússia prioriza a luta contra o terrorismo, em especial o estado islâmico. Esse é o seu alvo principal na guerra da Síria.

O estado islâmico não é apenas inimigo de Assad. É uma entidade extremista sucessora da al caeda, decidida a realizar o sonho da implantação do califado islâmico e intensamente hostil ao Ocidente e à Europa em especial.

Os atentados de Paris possivelmente forçarão a França e os EUA a atacar frontalmente o estado islâmico. Nesse sentido, estarão ao lado da Rússia. Mas os aliados dos EUA e da França dialogam com o lado pró-sunita (Estados do Golfo, Turquia, Israel) e os da Rússia dialogam com o lado pró-xiíta (Irã, Assad, Hesbollah).

Deduz-se daí que os EUA podem dar uma trégua a Assad e priorizar o combate ao estado islâmico sunita? Que acontecerá com os países divididos nessa luta ((Síria, Iraque, Líbano)?

Os EUA terão condições de conviver com a nova realidade em que os xiítas são vítimas do terrorismo sunita e seus tradicionais inimigos (Irã, Assad, Hesbollah) são agora seus potenciais aliados?

Que acontecerá com a Europa? Mergulhará na islamofobia? Os árabes europeus e os refugiados sírios viverão um inferno? Que porcentagem deles aderirá ao terrorismo?

Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Isis) foi criado em 2013 (Foto: AFP)

Fonte: Blog do Ricardo Noblat - O Globo