A raiz ideológica do Estado Islâmico

02/01/2016 16:13

O que é o wahabismo, a raiz ideológica do Estado Islâmico

Da BBC Mundo

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Era de manhã em Karbala, cidade a cerca de 100 quilômetros ao sul de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos.

Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos.

Eles, então, avançaram pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram esta matança não eram do grupo autodenominado Estado Islâmico.

O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que acabava de formar um novo movimento religioso: o wahabismo.

O wahabismo, uma forma rígida e conservadora do islamismo e é, nos dias de hoje, a religião oficial da Arábia Saudita. E alguns afirmam que é o "pai ideológico" do Estado Islâmico.

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Acordo no deserto

"O wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas", disse à BBC o professor Bernard Haykel, especialista em teologia e lei islâmica.

"Mas, para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

Haykel explica que esta é uma corrente ideológica "muito antiga no Islã, extremamente literal na forma como aborda o texto da revelação e tende a condenar outros muçulmanos que não compartilham desta ideologia".

O salafismo remonta ao século 19 e uma das figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em 1703, diz ele.

"Ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã", disse Haykel.

"Ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música."

Al Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, voltando aos princípios básicos da fé. E, gradualmente, suas ideias foram se espalhando.

Mas nem todos estavam de acordo e ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Ele encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744.

Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Ibn Saud se comprometeu a apoiar Al Wahhab política e militarmente e, em troca, Al Wahhab daria a Ibn Saud legitimidade religiosa.

"Al Wahhab acreditava que a jihad estava justificada contra os descrentes, incluindo os muçulmanos que não seguiam sua versão da fé", afirmou o estudioso.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades na região. Muhammad ibn Saud reinava e Muhammad ibn Abd al Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser a prática correta do Islã.

"Tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe", disse Haykel.

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A aliança entre Al Wahhab e Ibn Saud continuou capturando territórios. No final do século 18 controlava quase toda a Península Árabe.

Desta forma foi estabelecida a união entre a Arábia Saudita e o wahabismo.

Globalizado

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Al Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Ibn Saud e pelos partidários que vieram depois dele.

Madawi al Rasheed é professora saudita de Antropologia e Religião na London School of Economics (LSE) e autora de vários livros sobre a Arábia Saudita.

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A especialista explicou à BBC que em 1932 os wahabistas descendentes de Muhammad ibn Saud conseguiram um ímpeto renovado com um novo acordo e, com isso, conseguiram poder suficiente para fundar o país que hoje é conhecido como Arábia Saudita.

"Com o acordo, foi dado aos wahabistas controle total da vida social e cultural do reino, o que significava que teriam o controle da educação e do sistema judiciário", disse Rasheed.

"A família al Saud tinha controle total das relações internacionais e do gerenciamento da economia. Em troca, os clérigos wahabistas deviam pregar aos cidadãos sauditas que obedecessem seus dirigentes. E isto mantinha os al Saud satisfeitos pois garantia a conformidade no nível doméstico."

Sempre que o governo queria fazer alguma mudança no país, grande ou pequena - como introduzir a televisão no reino ou permitir a educação das mulheres - devia negociar com os clérigos.

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"Nos anos 1960 e 1970 começaram a surgir muitas ideias revolucionárias no mundo árabe e, para se proteger, os dirigentes sauditas pensaram que os wahabistas eram um bom antídoto, pois ofereciam uma narrativa alternativa sobre como obedecer aos dirigentes sem interferir na política."

Os dirigentes sauditas investiram milhões de dólares em campanhas educativas, construíram milhares de mesquitas, imprimiram milhões de exemplares do Corão para distribuir de graça, estabeleceram a Universidade de Al Madinah que ensina religião a estudantes do mundo todo para que eles voltem a seus países e espalhem este conhecimento."

Tudo isto para promover o wahabismo no mundo transformando-o em uma ideologia global.

Alguns afirmam que, ao exportar o wahabismo, a Arábia Saudita ajudou voluntariamente a conseguir recrutas para o Estado Islâmico.

"O que vimos foi a propagação de uma linguagem revolucionária que inspirou alguns indivíduos a cometer atrocidades no nome do Islã", afirmou Madawi al Rasheed.

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"Quando o Afeganistão foi invadido pela União Soviética, o wahabismo foi utilizado pelo regime saudita para inspirar os jovens a lutar a jihad no Afeganistão contra os infiéis soviéticos."

Foi dito que os sauditas pagaram para enviar milhares de jovens para lutar no Afeganistão, entre eles, Osama bin Laden.

Despertar islâmico

Madawi al Rasheed afirma que é um erro acreditar que o wahabismo como a única influência do Estado Islâmico.

"Se beneficiou com a chegada da Irmandade Muçulmana, que foi exilada de lugares como o Egito, Síria e Iraque nas décadas de 1950 e 1960. A Arábia Saudita os recebeu. Muitos deles se transformaram em professores de religião".

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"Esta fusão da religião do wahabismo com as capacidades de organização de outros movimentos islamistas levou à criação de uma nova tendência que foi chamada de 'o despertar islâmico'", afirmou.

Esta tendência mudou o tom de muitos clérigos em todo o mundo, segundo Aimen Dean, que foi membro da Al Qaeda no Afeganistão e depois de transformou em um espião para os serviços de inteligência britânicos.

"Isto aconteceu por causa da globalização. Porque muitos clérigos tinham problemas com o que viam como a expansão da cultura americana, com seus filmes de Hollywood e sua televisão por satélite", disse à BBC.

"E os clérigos responderam a isto com o método do medo. Propagando o 'temor a Deus' na mente dos jovens muçulmanos para evitar que os valores ocidentais entrassem em suas casas".

Dean afirma que este "temor a Deus" produziu uma geração de pessoas culpadas que acham que precisam se redimir e acabaram "vulneráveis a grupos como o EI ou a Al Qaeda" que ofereciam algo novo: absolvição total.

"Porque no Islã a recompensa que recebe em troca do martírio é a absolvição total".

Dean afirma que esta culpa comum a muitos muçulmanos não os transforma em extremistas, é apenas a primeira etapa de um longo caminho.

"É preciso perder todo o sentido de identidade, além da fé, e depois se identificar com os mártires do Corão que foram perseguidos."

"Aí é que se entra neste território sombrio que é a ideologia do EI, onde reza, onde jejua e onde não vacila nem um segundo para matar alguém. (...) Assim é como se forma uma jihadista preconceituoso e psicopata", disse.