A união dos poderosos – Editorial / O Estado de S. Paulo

20/01/2016 10:18

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgou nota de apoio às violentas críticas de um seleto grupo de advogados à Operação Lava Jato. São irretocáveis a lógica e a coerência da atitude do dirigente petista. O lulopetismo é o responsável pela corrupção sistêmica que desde o primeiro mandato de Lula tomou de assalto o aparelho estatal. Faz sentido, portanto, que os petistas se empenhem por desmontar a exemplar ação articulada das instituições que têm o dever constitucional de combater o crime e punir os criminosos, antes que sejam colocados atrás das grades os figurões petistas e seus aliados que há mais de uma década se locupletam escandalosamente com o dinheiro público. Poderosos, uni-vos! é a nova palavra de ordem do lulopetismo.

 

Vale registrar que não ocorreu ao dirigente petista protestar contra a morosidade da Justiça que é responsável pela manutenção de centenas de milhares de pessoas em condições sub-humanas de detenção provisória por todo o País. Prefere o homem de Lula no comando do Partido dos Trabalhadores atacar os “exageros” das investigações policiais de que estaria sendo vítima a elite de políticos inescrupulosos, servidores públicos desonestos e empresários gananciosos associados no maior escândalo de corrupção de que se tem notícia na história da República. É o PT, mais uma vez, mostrando sua verdadeira cara.

 

Não se trata de mera coincidência, obviamente, o fato de o PT tentar politizar as investigações sobre corrupção exatamente no momento em que o cerco começa a se fechar perigosamente em torno de destacadas lideranças políticas, de modo especial o ex-presidente Lula. Os petistas têm larga experiência no assunto. Devem ter aprendido, com o julgamento do mensalão, que melhor do que protestar contra sentenças judiciais é tentar melar todo o processo antes que o resultado das investigações seja submetido à Justiça. É indispensável, portanto, desmoralizar policiais e procuradores federais – e até mesmo juízes, como Sergio Moro – por “desmandos” que podem “servir à violação de direitos” ou “fragilizar a democracia tão duramente conquistada”.

 

Em texto divulgado pela Agência PT, Rui Falcão revela toda a extensão de seu acendrado espírito público e refinado senso democrático ao exigir das autoridades respostas às denúncias de “exageros das delações forçadas, dos vazamentos seletivos de informações, do excesso das prisões preventivas, da espetacularização dos julgamentos, das restrições ao direito de defesa e ao trabalho dos advogados”. Em momento nenhum ele condena a pilhagem de recursos públicos por seus queridos amigos e correligionários.

 

O ponto alto da diatribe de Falcão tem tom épico: “É preciso vigilância e luta aberta contra este embrião de Estado de exceção que ameaça crescer dentro do Estado Democrático de Direito”. Seria interessante ver o resultado que a exortação do presidente do PT produziria sobre os movimentos que vivem à sombra do lulopetismo – como PT, PCdoB, CUT, MST, UNE e similares – se lhes fosse exigido que saíssem às ruas para se solidarizar com os advogados mais ricos do País, patronos de notórios ladravazes.

 

Ao confrontar abertamente a imagem pública de instituições como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, na qual repousa a esmagadora esperança dos brasileiros no fim da impunidade dos poderosos, o presidente do PT certamente sabe que está expondo seu partido ao risco de mergulhar mais profundamente ainda no pântano da impopularidade. Considerando, porém, a fidelidade canina de Falcão ao dono do partido, fica claro que Lula já decidiu que chegou o momento de fazer o possível e o impossível para evitar soçobrar nos escombros do petrolão e de outros escândalos, mesmo que para isso tenha de pisar no pescoço do PT.

 

A verdade é que Lula já não pode contar com o apoio de gente poderosa. Dos presidentes das duas Casas do Congresso aos chefes das legendas que compõem a base de apoio ao governo e os líderes dos partidos no Senado e na Câmara, somados aos principais executivos das grandes empreiteiras de obras, pouca gente escapa das investigações sobre corrupção na vida pública, de que a Lava Jato é o maior símbolo. Já os brasileiros, ao contrário da tigrada, só podem contar com o poder da Justiça.