A Universidade Católica e o alargamento da razão

22/03/2016 17:42
Por Dom Leomar Brustolin
Bispo Auxiliar de Porto Alegre
 
Em 1990, de João Paulo II emanava a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, destacando a importância de uma universidade católica como instrumento privilegiado para chegar à verdade sobre a natureza, sobre o homem e sobre Deus e, também, para favorecer um diálogo franco entre a Igreja e todos os homens de qualquer cultura.
 
O novo humanismo que a sociedade contemporânea sustenta, contudo, distancia-se, cada vez mais, do humanismo integral e solidário de que a fé cristã reclama. Um dos aspectos mais evitados é a dimensão transcendental do ser humano. O projeto da razão emancipada é imanentista e só admitirá o elemento religioso numa perspectiva subjetivista sem implicações éticas e sociais. 
 
Nesse cenário, relevante foi a contribuição do Papa Bento XVI para enfrentar a fragmentação dos saberes. Sua reflexão reclamava o alargamento e o enriquecimento da razão, demonstrado, especialmente, em seu discurso na Aula Magna da Universidade de Regensburg – Alemanha, em 12 de setembro de 2006. O Papa Ratzinger denunciou a concepção empirista, pragmática e cética da razão que tenta afirmar a totalidade da inteligência humana. Ele exortou à dilatação do horizonte a racionalidade, sobre a base de uma justa visão do ser humano. 
 
Uma razão restrita, afirmou ele, corresponde a uma visão abstrata de ser humano, enquanto uma razão alargada corresponde a uma antropologia adequada à totalidade do real. Por isso, refuta-se o paradoxo no qual a perspectiva materialista reduz o ser humano àquilo que é corpóreo, e a verdade, ao experimentável, mas isso nega ao ser humano a sua realidade total e, portanto, concreta. Mesmo prescindindo do contexto religioso, as observações e experiências científicas não podem ou servir apenas para acumular informações, ou somente para contribuir para o progresso social e o coletivo do ser humano, mas devem aprender a sabedoria da natureza, possibilitando um diálogo entre sabedoria natural e sabedoria humana, que se realiza no equilíbrio entre as culturas humanas e os ecossistemas da Terra, na conservação e no profundo respeito à vida.
 
O objetivo essencial de uma instrução superior católica é o de preparar os estudantes para assumirem plenamente as responsabilidades culturais, sociais e religiosas que lhes seriam pedidas. A universidade católica educa, antes de tudo, através do contexto de vida, do clima que os estudantes e professores criam, no ambiente em que desenvolvem as atividades de instrução e de aprendizagem. Esse clima está cercado por valores não só afirmados, mas também vividos, pela qualidade dos relacionamentos interpessoais que ligam professores e alunos e alunos entre eles, pelo cuidado que os professores têm diante das necessidades dos alunos e das exigências da comunidade local, pelo claro testemunho de vida oferecido pelos professores e por todos os funcionários das instituições educativas.