Agentes do Retrocesso

17/07/2015 12:33

Agentes do retrocesso

Pairam sobre os habitantes do planeta perigos oriundos de uma infinidade de fontes. Comentarei apenas duas, que se originam nos próprios seres humanos: a direita primata e a esquerda adulterada. Esses dois entes ameaçam a prosperidade econômica, a evolução social, a segurança individual e o acesso aos máximos níveis de bem estar viáveis em cada país.

Seria impossível apontar todos os exemplos do comportamento rudimentar de um pequeno mas ruidoso segmento da direita política. Destacarei o caso dos EUA, tendo em vista a repercussão internacional de tudo o que lá ocorre. Houve época em que respeitáveis figuras do pensamento conservador de direita atuavam no cenário político local, sobretudo no Partido Republicano. Atualmente, a parcela mais visível da direita americana exibe aspecto lamentável e propaga objetivos conflitantes com uma sociedade feliz.

Desprovida de sabedoria teórica e prática que confira substância ao seu discurso, declara-se: descrente da ação do homem sobre a degradação ambiental; contrária a medidas atenuantes da desigualdade social; favorável à redução de investimentos públicos em educação, saúde e infraestrutura; partidária da total desregulamentação da economia; admiradora da opção militar em detrimento da diplomática na abordagem de desentendimentos internacionais; inimiga dos sindicatos de trabalhadores mas solidária com as organizações patronais; e defensora do porte descontrolado de armas. Como resultado, os aspirantes à candidatura pelo Partido Republicano à Presidência dos EUA nas eleições de 2016 formam um elenco que beira o ridículo.

"Direita primata e esquerda adulterada são entraves à prosperidade econômica e evolução social"

Com referência à direita brasileira, que costuma apresentar-se com o rótulo de “liberal”, declaro o seguinte: me provoca saudades dos tempos de conservadores como Milton Campos, Afonso Arinos, Mário Henrique Simonsen, Roberto Campos e até Carlos Lacerda.

Chamo de esquerda adulterada aquela constituída por lideranças usurpadoras das bandeiras do socialismo e dos progressistas democráticos. Os exemplos notórios são os dirigentes de Venezuela, Coreia do Norte, Bolívia, Equador e, em estilo diferente, do Brasil. Embora o socialismo puro e as variantes em torno do comunismo totalitário tenham fracassado, tais lideranças usam de maneira tosca esses mitos ideológicos como munição para se manter no comando.

Na Venezuela, em nome de um tal de socialismo do século XXI, barbaridades são cometidas contra os interesses nacionais. Alardeando um antiamericanismo arcaico, o governo atribui à conspiração imperialista yankee todas as agruras provenientes de seus próprios desacertos. Os presidentes da Bolívia e do Equador reduziram suas plataformas políticas à simples permanência em seus postos. A Coreia do Norte, onde o medíocre nível de vida contrasta drasticamente com o sul-coreano, chegou ao cúmulo de instituir a monarquia em solo comunista.

No Brasil, o PT, autodefinido como de esquerda, revelou-se no poder o antídoto a qualquer reforma institucional modernizante e condutora de autêntica equidade social, além de símbolizar inépcia e corrupção.

*Marcello Averburg é economista e por três décadas lecionou economia na Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalhou para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durante cerca de vinte anos, onde foi chefe dos depatamentos de Planejamento, Avaliação de Programas e de Indústria Naval, além de assessorar a presidência. É ex-assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington, onde exerceu a função de “Country Economist” para a Argentina e Paraguai, e foi secretário de planejamento do Estado do Rio de Janeiro. Averburg é formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduado pelo Instituto Latinoamericano y del Caribe de Planificación Económica y Socia (ILPES/CEPAL – Chile) e pela Universidade de Paris. Participou como conferencista nos cursos “Economic Development in Latin America”, na George Washington University e “The Politics of Economic Integration”, na Georgetwon University, ambas em Washington. Atualmente Marcello é consultor econômico nos EUA e também dedica grande parte do seu tempo à fotografia.

Fonte: O Globo & Instituto Millenium