Ainda no alto - MÍRIAM LEITÃO

21/07/2016 08:48
Ainda no alto - MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 21/07
 
O Banco Central manteve os juros no mesmo nível e mudou a forma de dizer isso. Na nota de ontem, o BC disse que a inflação está em queda, o país está com grande capacidade ociosa, a taxa está indo para 4,5% no ano que vem, mas ainda existem riscos. De todas as incertezas que cercam a economia, a maior é a política, porque dela depende a aprovação ou não de medidas que permitirão o ajuste fiscal.
 
Os riscos inflacionários, segundo o Banco Central, são: os alimentos em alta, as dúvidas sobre a aprovação do ajuste, a indexação. IPCA-15 de julho vai ser um pouco mais alto do que se previa, em torno de 0,45%, segundo o professor Luiz Roberto Cunha, porque leite e feijão subiram mais do que o esperado. Contudo, a taxa em 12 meses continua caindo, o que mostra que esse primeiro risco apontado pelo Copom pode ser só um episódio. Sobre o segundo ponto: não está mesmo garantida a aprovação dos projetos de ajuste, como o teto para os gastos. Aliás, a política continua sendo uma fonte de incerteza. O terceiro risco inflacionário apontado pelo BC é o de que a inflação alta, por tempo muito prolongado, tenha fortalecido “os mecanismos inerciais”. Neste caso, os preços subiriam por causa da indexação. A própria nota fala, no entanto, que a grande capacidade ociosa da economia pode acelerar a queda da inflação. Dos três riscos apontados pelo BC, o político é o mais forte.
 
O mercado já esperava a manutenção da taxa em 14,25% e a expectativa era apenas sobre como seria a comunicação do Banco Central presidido por Ilan Goldfajn. Em vez daquela nota lacônica de algumas poucas linhas ao fim da reunião, foi divulgada uma nota mais ampla. Uma espécie de miniata.
 
Mesmo sendo mais longa e mais compreensível, houve divergências na interpretação. O economista Alexandre de Ázara, por exemplo, considerou que o Copom quis dizer que os juros permanecerão um pouco mais neste nível em que foram mantidos, mas poderão começar a ser reduzidos em outubro. Isso porque o Copom disse que no seu cenário a inflação está em 4,5% no ano que vem, mas o mercado ainda projeta uma taxa um pouco mais alta (5,3%). A consultoria Rosenberg Associados achou que a nota indica que os juros só caem em janeiro do ano que vem.
 
Na verdade, a nota deixa claro que há um cenário otimista: se as medidas de ajuste fiscal forem aprovadas, isso pode permitir um aumento mais rápido da confiança, reduzindo as expectativas de inflação. Além disso, a economia permanece muito fraca, o que pode acelerar a “desinflação”. Num quadro assim, os juros cairiam mais rapidamente.
 
O país está ainda prisioneiro do pior dos dilemas em política monetária: os juros são espantosamente altos para uma economia tão fraca. Em qualquer país do mundo que tivesse pelo segundo ano consecutivo um drástico encolhimento do PIB, os juros não seriam 14,25%. O que impede a queda da Selic no momento é a inflação que ainda está perto de 9%. Caiu, mas continua alta para uma recessão tão forte e juros tão altos.
 
O Brasil tem uma longa e complexa história inflacionária. O governo Dilma foi irresponsável em deixá-la subir, ficar acima do teto e depois chegar aos dois dígitos. A presidente afastada repetiu erros que no Brasil cobram um preço alto demais. Ao final de dois anos de recessão, e com a manutenção dos juros em níveis altíssimos, o país conseguirá voltar ao centro da meta de inflação. No melhor cenário. E é este cenário que o Banco Central está tentando realizar.
 
Além desse erro, o governo Dilma deixou o país descarrilar do ponto de vista fiscal. A força da desorganização das contas foi tão forte que o rombo continua se aprofundando. O governo Temer ainda não conseguiu dar um horizonte de queda a esse déficit. O problema fiscal é o maior impedimento à normalização da economia. O país continuará com déficit primário até 2018, pelas projeções da Secretaria do Tesouro. A inflação poderá chegar ao centro da meta no ano que vem, mas o estrago nas contas públicas provocado pela gestão Dilma só começará a ser revertido no governo que for eleito ao fim do atual mandato presidencial.
 
 

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