Aliado critica excesso de erros na gestão Dilma

21/09/2015 17:45
Aliado de vice critica excesso de erros da gestão Dilma
 
 
• Ex-ministro Moreira Franco diz que PMDB não trai governo
 
O acúmulo de equívocos do governo é algo bárbaro
 
• Ex-ministro de Dilma e um dos principais aliados de Temer, peemedebista diz que a gestão petista 'não confia em ninguém'
 
Daniela Lima – Folha de S. Paulo
 
SÃO PAULO - Ex-ministro da presidente Dilma Rousseff e um dos principais aliados de seu vice, Michel Temer, o peemedebista Moreira Franco, 70, diz que a relação entre o PT e o PMDB foi minada porque "o governo não confia em ninguém"
 
Em entrevista à Folha, Moreira Franco afirma que a "estratégia inicial" do segundo mandato de Dilma foi "desidratar o PMDB". "Mas nós sabemos nos defender. Estamos aqui há 50 anos. Temos raízes. Somos o partido que derrubou a ditadura sem matar ninguém, só com a política."
 
Interlocutor de Temer com diversos setores, inclusive da oposição, diz que o vice tem sido incompreendido e que "arca com o ônus de se explicar" numa tentativa de não agravar a crise.
 
Ele sustenta que "o PMDB não trai", que a queda de Dilma "não é uma meta" da sigla, mas que a legenda busca uma "solução para o país".
 
Folha - Especulam muito sobre o papel do PMDB nessa crise. O que o sr. vê?
 
Moreira Franco - O PMDB não conspira, não trai. Ao longo de toda a sua trajetória, e são 50 anos, o PMDB sempre teve a política como ferramenta de atuação. É um partido que tem a cultura da conversa, do diálogo e da maioria. O impeachment não pode ser tratado como algo banal, trivial. Ele não é. Mas aqui foi um tema introduzido pelo governo e, mais grave, pela presidente.
 
Nomes do seu partido dizem que o desempenho da economia será determinante para o desfecho da crise. Concorda?
 
A crise que vivemos é mais grave que a de 1929. Há um êxodo no mundo, a Europa está sendo objeto de ocupação. Há a China... E aqui é mais grave porque as raízes dela são internas, foram equívocos da política econômica. O ambiente é difícil, hostil. Exige paciência, equilíbrio e conversa. Estamos diante de desafios do passado.
 
Como assim?
 
Temos toda uma geração que não conhece inflação e não sabe se proteger dela, nem no supermercado nem no mercado de trabalho. É uma sensação de perda histórica. Estamos preocupados.
 
O vice-presidente Michel Temer reclamou do "clima de intrigas" no governo.
 
O Michel tem sido cauteloso, cuidadoso e incompreendido. O zelo é tamanho que ele assume o ônus de se explicar, o que por si só não é bom, mas ele assume. Há um esforço partidário de superação [da crise], mas estamos tendo dificuldades.
 
Que dificuldades?
 
O governo chamou o [Gilberto] Kassab [ministro e dirigente do PSD] e o Cid [Gomes, que deixou o ministério da Educação após falar que o governo era vítima de achacadores] para desidratar o PMDB. Nós sabemos disso. Mas estamos aqui há 50 anos, temos raízes. O PMDB é o partido que derrubou uma ditadura sem matar ninguém, só na base da política. Nunca fomos um partido de donos, e isso, muitas vezes, não é compreendido. O compromisso do PMDB é com a base.
 
O governo não compreende?
 
Primeiro, porque não confia em ninguém. Não entende que aliança não é casamento. Aliança é algo feito em torno de um projeto. As sugestões que se leva são sempre malvistas, nunca são nem sequer meditadas. Parecem não compreender que não se governa só com voto de deputado. Governa-se com saber, com humildade para convencer e ganhar as pessoas.
 
Foi a sensação de alijamento que levou ao afastamento entre o PMDB e o PT?
 
Não temos ressentimento por termos ficado quatro anos no limbo. Não há ressentimento por termos visto que a estratégia de montagem inicial do segundo mandato [de Dilma] foi diluir a força do PMDB. Sabemos nos proteger. Quando o Michel foi convocado para ajudar na articulação política, ajudou sinceramente. Fizeram milagres, ele e o Eliseu Padilha [ministro e integrante do conselho político do governo].
 
Milagres?
 
Nada andava. Os compromissos não eram cumpridos. Conseguiu-se aprovar boa parte do ajuste fiscal por convicção, porque as negociações não saiam. E isso em política é a pior coisa que tem. Você apalavrar e não cumprir. Gera um desconforto terrível. E nós falamos: "Tem que mudar..." e não mudava. Ainda assim não temos ressentimento. Agora, queremos ver se encontramos uma solução. É preciso ter uma.
 
O ajuste proposto na última semana pelo governo aponta um caminho?
 
A justificativa para o [Joaquim] Levy ser ministro da Fazenda foi evitar que o país perdesse o grau de investimento. Diante desse quadro, é inconcebível mandar um Orçamento deficitário. A base industrial brasileira, tirando os países desenvolvidos, é a melhor do mundo. Estamos perdendo isso. Foi um esforço de três gerações.
 
Setores do governo argumentaram que a perda do grau de investimento pela Standard & Poor's foi uma ação política.
 
A agência não tinha outra alternativa. Se você recebe um Orçamento deficitário e tem uma empresa de avaliação de risco, o que é que vai fazer? O gesto político equivocado foi mandar o Orçamento deficitário. Isso é que foi incompreensível.
 
O sr. falou que é preciso encontrar uma solução...
 
O quadro é extremamente grave e não adianta fingir que não é. A autocrítica é um ganho civilizatório. E esse valor é algo muito forte. Se você erra, e não admite o erro, não tem porque eu ficar confiando em você, vivendo com você... Existe uma grande dificuldade da admissão dos equívocos. É um gesto sem mal-estar, para resolver, reconstruir. Temos que ser sinceros. Não dá mais para achar que vai cobrir o sol com a peneira. E isso não significa que o PMDB queira derrubar [a presidente], não. Não é objetivo, não é meta, não é desiderato. O que se quer é encontrar uma alternativa para o país.
 
O pacote econômico do governo caminha nessa direção?
 
Ele é politicamente equivocado. Não se pode ter como força maior da solução o imposto, numa situação como a que estamos vivendo, com uma carga tributária monumental e uma má vontade construída politicamente há décadas. Não é possível que não tenha outra alternativa que equilibre melhor isso. Mas vamos ver como o Congresso vai agir. Tudo ali depende dos parlamentares.
 
A recriação da CPMF tem chance de ser aprovada?
 
É muito difícil.
 
Temer estava fora do país quando o pacote foi anunciado e será cobrado a se posicionar. Como ele vai reagir?
 
Ele já deu declarações contrárias à criação de imposto.
 
Há relatos de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preocupado com o afastamento de Temer do governo. Vê possibilidade de reaproximação?
 
O Lula disse, segundo o Painel [coluna de política da Folha], que a reforma administrativa, para dar certo, teria que começar do zero, e acho que ele é uma pessoa que tem talento e experiência para manifestar isso. O primeiro problema é a recomposição da estrutura de apoio do governo.
 
O sr. é apontado como um dos principais interlocutores de Temer com a oposição.
 
Eu não falo com a oposição. Tenho contatos pessoais com algumas pessoas há anos. Conheço o Fernando Henrique Cardoso desde o Cebrap.
 
O sr. coordena a formulação do programa que será apresentado no congresso do PMDB. O que será?
 
Será um documento robusto. Vamos mandar para todos os militantes, melhorar nossa presença digital, que era nenhuma, montar uma base para que os militantes possam participar, opinando sobre projetos que estão tramitando tanto na Câmara quanto no Senado.
 
O sr. consegue vislumbrar um cronograma para o desfecho da crise?
 
Impossível prever. A velocidade dessa crise é surpreendente... O acúmulo de erros, de equívocos é uma coisa bárbara. A bateção de cabeça... Exemplo: anunciaram que as emendas parlamentares seriam usadas para financiar o PAC. Recuaram.
Não dá para votar um programa de ajuste indo e vindo. Quando você apresenta a proposta e depois começa a tratá-la como um rascunho, não dá.
 
Vai precisar de articulação, agora que Temer se afastou...
 
Ele foi afastado.
 
Vê alguém no governo com capacidade de organizar a base?
 
Tanto o Giles [Azevedo] como o [Ricardo] Berzoini são pessoas por quem tenho apreço pessoal. Eles têm a confiança do PMDB.
 
Há um outro fator de instabilidade que é a Operação Lava Jato. Não teme as consequências do envolvimento de nomes do PMDB na investigação?
 
Não. O PMDB não tem nesses 50 anos de currículo nenhuma participação orgânica em casos de corrupção. Existem problemas, companheiros citados –e eles terão todas condições de se defender. Agora, participação orgânica, como outros partidos, nunca tivemos.
 
 
 

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