Alta de ônibus e metrô já pressiona inflação

05/01/2016 11:19

Índice oficial deve ser afetado por preços administrados e ficar acima de 6,5%, teto da meta do governo, segundo economistas

 

Idiana Tomazelli - O Estado de S. Paulo

 

RIO - Após um ano marcado por “tarifaços”, a inflação começa 2016 pressionada por itens administrados. Cariocas mal viraram o ano e já tiveram de enfrentar tarifas de ônibus e táxi mais caras. Já os paulistanos terão de desembolsar mais para andar de ônibus, metrô ou trem na próxima semana. Foram anunciados também aumentos no transporte público de Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre. Esses reajustes devem representar um impacto de 0,20 ponto porcentual na inflação, calcula a Tendências Consultoria Integrada.

 

Boa parte desse efeito será sentido em janeiro, mas até o fim do ano outras cidades promoverão reajustes no transporte. O impacto final deve chegar a 0,31 ponto porcentual na inflação em 2016, estima a LCA Consultores. O cálculo exclui passagens aéreas e transporte escolar, que não têm preços controlados.

 

Em 2015, a inflação no primeiro trimestre deu um salto com a alta de tarifas até então represadas, como energia elétrica, combustíveis e transporte público. Esses itens deram uma contribuição e tanto para que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegasse a 10,48% em 12 meses até novembro.

 

Agora, as tarifas de transporte público dão um novo salto, efeito secundário da inflação de dois dígitos que já penalizou o bolso dos brasileiros em 2015. Isso porque muitos contratos tomam como base índices de preços, como IGP-M ou o IPCA. “Claramente é um belo exemplo de como a inflação passada afeta os reajustes do presente. Há essa ideia de carregamento, que é um empecilho para o Banco Central na batalha contra o aumento de preços”, afirma o analista Marcio Milan, da Tendências.

 

Em São Paulo, região com maior peso no índice oficial de inflação, as tarifas de ônibus, trem e metrô vão passar de R$ 3,50 para R$ 3,80 no dia 9 - alta de 8,57%. No Rio, o ônibus aumentou de R$ 3,40 para R$ 3,80, avanço de 11,7%. “Uma parte desses reajustes era esperada. O que não se esperava era a magnitude, especialmente no Rio”, conta Milan.

 

Os reajustes de ônibus no Rio e em São Paulo terão, cada um, impacto de 0,07 ponto porcentual na inflação, calcula a LCA. Com menor peso em termos nacionais, Belo Horizonte teve alta de 8,82% na tarifa de ônibus, de R$ 3,40 para R$ 3,70, no dia 3. Em Salvador, o valor subiu 10% no dia 2, de R$ 3 para R$ 3,30.

 

Há também aumentos de táxi no Rio, no Recife e em Porto Alegre, além de reajuste no ônibus intermunicipal no Rio e em Belo Horizonte. O Rio ainda verá suas tarifas de trem e barcas ficarem mais caras em fevereiro.

 

O ônibus urbano, sozinho, responde por 2,55% dos gastos de uma família média brasileira, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para os consumidores de baixa renda, essa fatia beira os 10%. Por isso eles são, como em 2015, os mais penalizados por esses aumentos.

 

Ano eleitoral. Aparentemente, nem o ano eleitoral tem persuadido as administrações públicas a aliviarem a mão nos reajustes. Embora, do ponto de vista político, as eleições municipais sejam motivo para amenizar aumentos, a pressão sobre os cofres públicos parece ter prevalecido. “Havia expectativa de que os reajustes fossem mais tímidos, mas isso não se concretizou. Há pressão de custos, e algumas prefeituras estão com caixa apertado e não podem dar subsídios”, diz André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).


Entre os custos estão o óleo diesel, que subiu 12,75% no ano até novembro, segundo o IPCA, e a mão de obra. O economista da FGV lembra que o salário mínimo - que guia boa parte das remunerações do setor de transporte - avançou 11,6% neste ano, para R$ 880. “Até agora, quem tinha que dar reajuste o fez. Não conseguimos perceber processo de represamento”, afirma o economista Étore Sanchez, da LCA Consultores.

 

A LCA projeta que a inflação ficará em 7,1% em 2016 - mais um ano, portanto, acima do teto da meta de 6,5%.