Ameaças ao pré-sal - EDITORIAL O ESTADÃO

25/12/2015 09:17

O Estado de S. Paulo – 25/12

Se a cotação do petróleo se mantiver no nível que atingiu nas últimas semanas – baixou para seu menor valor desde 2009, quando a economia mundial enfrentava o período mais agudo da crise iniciada no ano anterior –, colocará em risco a viabilidade econômico-financeira do programa de exploração da área do pré-sal que o governo do PT impôs à Petrobrás e transformou em bandeira política. Por conta do grande aumento da produção dos Estados Unidos e da Rússia, além da recente decisão do cartel reunido na Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) de não reduzir a oferta e das expectativas com o retorno do Irã ao mercado em 2016, o petróleo Brent chegou a ser cotado a menos de US$ 40 por barril em Londres e o óleo comercializado em Nova York, a menos de US$ 35. A Petrobrás não informa oficialmente qual a cotação mínima para cobrir os altos investimentos exigidos pela extração do óleo do pré-sal, mas há fortes dúvidas se, ao preço atual, esses investimentos são viáveis.

Alvo do bilionário esquema de pilhagem que durante anos sob a gestão petista sangrou seus recursos financeiros – e que continua sendo desvendado pela Operação Lava Jato, ao longo da qual já foram condenados alguns dos principais responsáveis pelos crimes e recuperada parte do dinheiro desviado –, a Petrobrás perdeu eficiência, capacidade gerencial, vigor financeiro e, sobretudo, credibilidade. Sua rentabilidade caiu, sua dívida cresceu rapidamente, sua capacidade financeira foi brutalmente comprimida. Além de reduzir drasticamente seu programa de investimentos, a empresa iniciou um programa de venda de ativos para obter recursos que lhe permitam reduzir a dívida.

No fim do primeiro semestre de 2015, o conselho administrativo da Petrobrás aprovou o plano de negócios para os próximos cinco anos, com investimentos totais de US$ 130,3 bilhões, valor 37% menor do que o valor previsto no plano quinquenal aprovado em 2014. Mas as prioridades da empresa foram mantidas, como a grande concentração dos investimentos na área de exploração e produção, para a qual foram reservados inicialmente US$ 108,6 bilhões, ou 86% do total. E, nessa área, a grande ênfase é o pré-sal. Dos US$ 64,4 bilhões que a empresa pretendia investir em novos sistemas de produção no País, nada menos do que 91% seriam aplicados no pré-sal.

Na divulgação do plano de negócios a empresa já havia advertido que os valores ali contidos estavam sujeitos a fatores de riscos, como o preço do petróleo e a oscilação da taxa de câmbio. Esses fatores, entre outros, forçaram a Petrobrás a ajustar seu plano de negócios, com o corte dos investimentos previstos para este ano (de US$ 28 bilhões para US$ 25 bilhões) e o próximo (de US$ 27 bilhões para US$ 19 bilhões).

A Petrobrás tem insistido na tese de que o pré-sal é uma das fontes de petróleo mais competitivas do mundo, por causa de sua alta produtividade e das tecnologias desenvolvidas pela empresa e seus fornecedores, mas não informa qual o preço mínimo do barril do óleo que mantém financeiramente vantajosa sua exploração.

É normal que as cotações do petróleo, como de outras commodities, oscilem e, por isso, o planejamento estratégico das empresas não pode estar condicionado a essas variações. No entanto, as mudanças no mercado do petróleo, que levaram as cotações a um nível muito baixo, podem ter efeitos duradouros. O crescimento da produção americana decorrente da descoberta e da exploração de petróleo das formações de xisto vinha provocando a queda dos preços há vários meses. Mas a Agência Internacional de Energia constatou uma desaceleração “acentuada” da produção americana e prevê que haverá novas reduções. Outros fatores, no entanto, compensarão essa redução e manterão os excedentes de produção, como a desaceleração do crescimento mundial, que tende a conter a demanda, a decisão da Opep de, mesmo assim, manter sua produção e o retorno ao mercado da produção do Irã com o fim das sanções econômicas ao país. Não é um bom cenário para o pré-sal.