Procura-se ministro para tempo de guerra

16/11/2015 12:10

Efeito de atentado é maior se destaque na mídia for maior

 

Por Angela Bittencourt: Procura-se ministro para tempo de guerra

- Valor Econômico

 

Procura-se urgente um ministro para a República do Brasil. Ser alto não é condição imprescindível, mas ajuda. Do primeiro para o segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff, a equipe econômica teve um upgrade: 190 cm passou a ser a estatura predominante. Um meio rápido de limar diferenças. Joaquim Levy e Nelson Barbosa falam de igual para igual, ainda que não ouçam a chefe da mesma maneira. Note.

 

Procura-se urgente um ministro para o Bloco P, da Esplanada dos Ministérios, Brasília, Distrito Federal. Até a sexta-feira, as peculiaridades da função exigiam alguma prática e imensa habilidade. A partir desta segunda-feira, ao menos um atributo deverá ser adicionado ao currículo para tranquilizar a contratante. O candidato deve ter noção de finanças internacionais. Se dispuser de entendimento mais que mediano de questões geopolíticas, entra na seleção final. Arrisco dizer que será praticamente contratado se comprovar experiência em gestão da economia em momentos de crise.

 

Parece um currículo e tanto? Pode ser. Mas é desse profissional que o Brasil precisa. No "day after" dos atentados em Paris, com mais de 100 mortos e 300 feridos, de autoria reivindicada pelo Estado Islâmico e pelo grupo tratada como o 'início da tempestade', já não basta à República do Brasil buscar um novo ministro com a bagagem técnica de Joaquim Levy e a expertise de Henrique Meirelles. É pouco.


O Brasil precisa de um ministro com espírito aberto para enfrentar os desafios de uma guerra e a tormenta que compartilhará com mais de 200 milhões de brasileiros - a de uma economia que sucumbe à sombra de escândalos de corrupção e de uma crise política de alta voltagem sob a batuta de uma governante com 10% de aprovação popular e de seu antecessor que diz ter um plano melhor para o país. E, até por essa razão, tornou-se o anunciante do "Procura-se um ministro".

Um novo ministro pode mesmo ser necessário para o risco de governos petistas enfrentarem dias de tucanos dos anos 1990. É improvável, mas sabe-se lá! O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dono de dois mandatos no Planalto, viu sua popularidade derreter de carona na Crise da Ásia, ou do Sudeste Asiático, que teve início na Tailândia, em 1997, alastrou-se sobretudo nos mercados cambiais e consta em registros como a primeira grande crise dos mercados globalizados.

 

Como a História é caprichosa, não estará ela preparando para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva crises geopolíticas que o fará lembrar do alerta de Francisco, o Papa, que teme estar sendo engendrada por terroristas a Terceira Guerra Mundial? Exagero? Pode ser. É certo que ataques terroristas não são eventos cotidianos, mas as suas consequências são. E, no mínimo, porque um dos preceitos do terrorismo é romper estruturas.

 

O ataque do grupo islâmico Al-Qaeda às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, em Nova York, matou quase 3 mil pessoas de 70 países. O índice Dow Jones Industrial (DJIA) caiu 7,1% no primeiro dia de negócios após a suspensão de cinco pregões pelo ato terrorista. Em uma semana, a queda desse índice chegou a quase 15%, a maior de toda a história __ posto perdido apenas em 2008 para outra semana infernal, quando o mundo gelou sem que um tiro de fuzil fosse disparado.

 

Na semana fatídica da retomada do pregão em 2001, a Bolsa de Nova York contabilizou perda de valor de mercado de quase US$ 2 trilhões a preços de hoje. Negócios fizeram água. A perda de empregos foi avassaladora nos EUA que declararam guerra ao terror e invadiram o Afeganistão.


À sua maneira, o Federal Reserve - Fed, o BC americano - foi para o ataque e acelerou a redução da taxa de juro na tentativa de manter a economia aquecida. A política monetária frouxa alimentou a formação de bolhas de ativos. E o mundo capotou em 2008. A mudança da rota dos juros que tombaram a zero com a crise imobiliária estava prevista para o mês que vem, até a sexta-feira passada. O cronograma será mantido?

 

É precipitado, sem dúvida, supor que os mercados sofrerão com o fechamento de fronteiras na Europa; com o descaminho de milhares de refugiados que já afetavam o tecido sócio-econômico da região, procurando escapar do extremismo do mesmo Estado Islâmico; com o monitoramento mais intenso do espaço aéreo; e a queda na receita com turismo. Em breve, o estrago dos atentados na atividade será observado.

 

O especialista Mikel Buesa, professor de Economia do Terrorismo na Universidade Complutense de Madri, comenta em análises comparativas entre os atentados de Nova York em 2001; Madri, em 2004; e Londres, em 2005, que o custo das ações terroristas sobre a economia dos três países - EUA, Espanha, Inglaterra - revelou a importância da recepção ao ato terrorista. "Quanto maior for a reação na mídia e nos governos, maior será o impacto. Os terroristas querem propaganda", diz em entrevista ao Portal Terra e publicações internacionais.

 

Dentre as principais perdas para essas economias, afirma Buesa, está a redução significativa do PIB, mas o impacto econômico vem diminuindo, assim como seu impacto emocional e político porque a sociedade aprendeu a moderar suas reações. Buesa diz que muito foi aprendido com os atentados dos últimos anos, o que contribui para conter prejuízos. Muitos estudos foram desenvolvidos mapeando efeitos no turismo e nos investimentos.

 

O professor conta que para um país desenvolvido que sofre um atentado terrorista, o PIB tem uma redução de 0,7% a cada 1 milhão de pessoas. No caso de países subdesenvolvidos, a queda dobra. "Em Nova York, fizemos uma pesquisa e detectamos que logo após os atentados diminuem - nesta ordem de importância - o número de passageiros nos trens e nos ônibus, o número de espectadores de teatro e cinema e de clientes em restaurantes, além de haver uma redução no trânsito de turistas. Mas também verificamos que entre seis meses e um ano depois, os dados para esses setores já haviam voltado ao normal."

 

Em Nova York (2001), bancos perderam todos os registros com a queda dos sistemas. Em Madri (2004) já havia cópias em outros locais. Em Londres (2005), as consequências econômicas foram quase inexistentes.