Antes autoritário que corrupto – Ferreira Gullar

05/06/2016 19:56
- Folha de S. Paulo
Tenho dito aqui que o tipo de populismo característico do governo do PT –como o de alguns outros países latino-americanos– nasceu como uma alternativa ao regime comunista que acabou antes que chegassem ao poder pela revolução. Não chegariam, é claro, mas em face das novas circunstâncias, tiveram que mudar de tática.
 
Esse populismo, que se valeu dos recursos públicos para ganhar a adesão das camadas mais pobres da população, adotou naturalmente uma política econômica que, para mostrar-se anticapitalista, levou o país à bancarrota. Por outro lado, apropriou-se das empresas estatais e saqueou-as em aliança com empresários capitalistas, que diziam combater.
 
 
O resultado de tudo isso foi o que se viu: o processo político-econômico do petismo e os escândalos que culminaram com o impeachment de Dilma Rousseff. A cara abatida de Lula, no dia em que ela foi afastada do governo, não deixou dúvida quanto à realidade dos fatos: o populismo petista chega ao fim.
 
Pois bem, mas não é que, exatamente nessa ocasião, a direção do Partido dos Trabalhadores trouxe a público uma "Resolução sobre a Conjuntura" que pôs todo mundo perplexo? É que, nesse documento, os dirigentes petistas deixam claro que, de fato, seu projeto era instaurar no país um regime antidemocrático.
 
Vejamos o que diz o inusitado documento: "Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, modificar os currículos das academias militares, promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação".
 
Noutras palavras, o que está dito nessa resolução é que o projeto de poder do partido era substituir o Estado democrático por outro, controlado pelo PT, à semelhança das ditaduras de esquerda. Como isso seria feito?
 
Conforme está claro no documento, os petistas deveriam manter sob seu controle a polícia e a promotoria federais, mudar a formação ideológica das academias militares, assumir o comando das forças armadas, submeter as decisões do Itamaraty e comprar a opinião dos jornais e estações de televisão. Enfim, instaurar no país um regime totalitário.
 
Devo admitir que semelhante declaração me deixa surpreso. É que, embora saibamos que o propósito desse populismo sempre tenha sido usar a máquina estatal e os programas assistencialistas para perpetuar-se no poder, sempre procuraram mostrar-se como representantes da vontade popular, ou seja, como intérpretes da autêntica democracia.
 
Agora mesmo, neste episódio do impeachment da Dilma Rousseff, procuram caracterizá-lo como um golpe, ou seja, uma ação contra a democracia, de que seriam eles os verdadeiros defensores. Como se explica, então, que, contrariando suas próprias palavras de ordem e sua atitude em face do impeachment, tragam a público um documento em que deixam explícito o seu projeto de instaurar no país um regime autoritário? E veja bem, propósito esse que sempre foi veementemente negado por eles, toda vez que alguém os acusava se tal intenção.
 
E não era de se esperar outra coisa, uma vez que o PT se caracteriza com o partido da mentira. Por isso mesmo, ainda é mais surpreendente a sinceridade dessa resolução, na qual lamenta não ter conseguido instaurar no país o seu projeto autoritário. Diante disso, é inevitável perguntar: por que então essa inusitada sinceridade?
 
Vou arriscar um palpite. Como disse antes –e todo mundo sabe–, não só o impeachment de Dilma Rousseff mas também a participação do PT nas falcatruas denunciadas pelo mensalão e pela Lava Jato desmontaram a imagem do partido "que não rouba nem deixa roubar".
 
Este seria, portanto, o momento de fazer uma autocrítica. E é isso que essa resolução pretende ser, mas não é, pois, em vez de arrepender-se das falcatruas que praticou, culpa-se de não ter posto em prática um projeto revolucionário que não passava de conversa fiada
 
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Ferreira Gullar é ensaísta, crítico de arte e poeta
 
 

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