Aproveitar o momento – Editorial / O Globo

27/05/2016 14:10
• Com o recuo do populismo na Argentina e no Brasil, os dois países devem liderar a reforma do bloco
Ao lado de acenos para mudanças de rumo importantes na política econômica, o governo do presidente interino, Michel Temer, marcou de maneira forte diferenças em relação à administração lulopetista de Dilma Rousseff também na diplomacia.
 
Logo na primeira ação de vulto como ministro das Relações Exteriores, o senador tucano José Serra respondeu no devido tom a governos bolivarianos (Venezuela, Equador, Nicarágua e ainda Cuba, entre outros) que participam da campanha difamatória desfechada pelo PT dentro e fora do país, para tachar de “golpe” o afastamento, com base constitucional, da presidente Dilma, cujo pedido de impeachment será julgado no Senado.
 
 
Mas as mudanças que a política externa requer não são apenas de tom e de discurso, mas também no campo do comércio, uma atividade em que ficou bastante visível a equivocada interferência do PT. Os rastos de ruínas mais visíveis da partidarização do Estado estão na macroeconomia, no comércio externo e na diplomacia.
 
No comércio, os governos do PT, induzidos por uma ideologia terceiro-mundista da década de 70, de uma cepa nacional-populista, apostaram todas as fichas no grande acordo de liberalização do comércio, conduzido pela Organização Mundial (OMC), mas que não teve êxito. Em seguida, o mundo partiu para assinar acordos bilaterais. O Brasil do PT não participou desse movimento, ficou preso ao Mercosul, convertido num bunker antiglobalização, portanto reacionário, com a entrada no bloco de países como Venezuela, Bolívia, Equador, sob os auspícios do Brasil lulopetista e da Argentina kirchnerista.
 
Enquanto isso, na América Latina, governos mais arejados constituíram a Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile), interessados em se integrar mais ao mundo e não o contrário, como foi no Mercosul nestes últimos 13 anos.
 
Os prejuízos são enormes. Numa crise da qual o país poderia sair também com a ajuda das exportações, os superávits que o Brasil tem conseguido (US$ 17,2 bilhões, este ano, até a sexta passada) são decorrentes da própria crise brasileira. Não é um paradoxo: os saldos positivos se devem mais à queda das importações, devido à recessão, do que ao aumento das vendas externas por meio da evolução da competitividade do país.
 
Uma feliz coincidência é o lulopetismo ter entrado em baixa no Brasil, com o afastamento de Dilma, ao mesmo tempo em que o kirchnerismo sai da Casa Rosada, com a derrota do seu candidato para Mauricio Macri. Em visita nesta semana a Buenos Aires, Serra começou a acertar os ponteiros com Macri para a reforma de que o Mercosul necessita: maior abertura ao mundo, o que se traduz em proximidade com a Aliança do Pacífico, e tornar possível que membros, isoladamente, possam fazer acordos bilaterais com outros mercados. É crucial aproveitar o momento para se reaproximar de grandes mercados do Norte, em que os EUA lideram a negociação de amplos tratados. Parte mais um bonde da História.
 
 

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