Artigo de Opinião: O sol quando nasce é para todos

23/11/2017 19:10
O sol quando nasce é para todos
Susana Fonseca - De Portugal
 
Portugal tem vindo a trilhar um caminho promissor em termos de utilização de energias renováveis. São hoje visíveis as consequências positivas para o país de apostas feitas há mais de duas décadas.
 
A energia renovável é e será um aspeto decisivo para a transição de Portugal para a sustentabilidade, ainda que deva ser sempre pensada e concretizada a par com um uso mais racional da energia, numa ótica de suficiência.
 
Portugal tem vindo a trilhar um caminho promissor em termos de utilização de energias renováveis, é certo que com alguns altos e baixos decorrentes de diferentes ciclos políticos, mas são hoje visíveis as consequências positivas para o país de apostas feitas há mais de duas décadas. Temos hoje menos emissões de dióxido de carbono (CO2), menos poluição do ar e mais emprego devido à aposta na promoção da produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, as únicas onde a “fonte” não requer qualquer pagamento. Basta-nos ter a tecnologia certa para as aproveitar.
 
Mas os desafios presentes e futuros que se colocam a Portugal são superiores aos conquistados até hoje. Não obstante o trabalho já feito, muito falta ainda fazer, por exemplo na necessária transição para uma mobilidade partilhada e elétrica, no âmbito dos objetivos de descarbonização a que Portugal já se comprometeu a atingir em 2050. Do lado da produção, a aposta no solar. A energia fotovoltaica representa menos de 2% de toda a produção elétrica renovável, que muito contrasta com a produção hídrica e eólica que asseguram a maioria da produção verde. Na lógica da transição energética, esta aposta tem de acontecer sempre com o foco de atingir o consumo suficiente de energia, pois qualquer produção de energia tem implicações várias na sustentabilidade e nem todas são positivas, mesmo tratando-se de energias renováveis.
 
Para além da sustentabilidade inerente, as energias renováveis são também relevantes pela forma democrática como podem ser aproveitadas e utilizadas. O sol quando nasce é para todos e deve ser um desígnio de Portugal apostar na democratização do acesso ao mesmo. A promoção do autoconsumo, a nível individual e coletivo (por exemplo, nos condomínios, em bairros e comunidades) é um passo fundamental que Portugal tarda em dar, ao contrário do que outros países já estão a fazer. Na União Europeia já se percebeu que existe um enorme potencial de fomento de sistemas descentralizados de produção de energia renovável, atribuindo a cada cidadão europeu maior responsabilidade e capacidade de ser um agente do sistema. Neste sentido, Portugal, pioneiro em renováveis, está a ficar para trás no apoio aos projetos de energia promovidos por grupos de cidadãos ou comunidades locais. Escócia, França, Alemanha, Inglaterra, Holanda: todos têm medidas específicas para apoiar projetos promovidos por cidadãos e não se compreende a razão porque Portugal insiste em defender um sistema centralizado, onde o cidadão é um mero consumidor.
 
Ao longo dos seus quatro anos de atividade, a Coopérnico conquistou mais de 790 membros, que investiram 727.500€ na produção de energia renovável expressa em 650 kWp de potência instalada em 14 centrais fotovoltaicas em todo o país. Muito recentemente, a cooperativa ultrapassou 1 GWh de produção de energia renovável anual.
 
Para assinalar o seu 4.º aniversário, a Coopérnico lançou o ID Energia, uma plataforma online para ajudar a poupar energia e água e medir a produção dos sistemas de autoconsumo, a cidadãos e organizações. Esta plataforma está acessível a todos os portugueses gratuitamente aqui. Em 2018, a Cooperativa tem por objetivo ser a primeira empresa da economia social a comercializar energia elétrica, permitindo aos cidadãos serem donos da empresa que lhes fornece eletricidade.
 
Para a Coopérnico, a primeira cooperativa de energias renováveis em Portugal, promover a capacitação e participação dos cidadãos no sistema energético é o elemento estruturante da sua ação e acreditamos na implementação deste modelo de forma alargada.
 
Susana Fonseca é membro da direção da Coopérnico
 
 

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