Artigo de Opinião: Robôs nunca terão sentimentos

11/12/2017 20:11
SILVIA CAETANO - ROBÔS NUNCA TERÃO SENTIMENTOS
Lisboa - Quem tem medo da  Inteligência Artificial, esse conjunto de tecnologias que permite aos computadores imitar comportamentos humanos?O sistema veio para libertar ou aprisionar o homem?Vai contribuir para nossa felicidade ou levar-nos à depressão?Ameaça, como profetizam alguns, ou oportunidade,como defendem outros?A  Inteligência Artificial,apelidada de IA,será capaz de superar a inteligência humana e ,dessa forma,nos tornar meros escravos dos robôs?
 
O temor com relação à construção de máquinas mais inteligentes do que o homem não é novo. Já em 1955, o matemático inglês Irving Good, da equipe que decifrou os códigos alemães,contribuindo para a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial,alertou para os riscos dessa possibilidade.Irving declarou que se alguma vez formos capazes de construir uma máquina mais inteligente do que um ser humano,essa poderá ser a derradeira invenção da humanidade.Tornou-se professor nos Estados Unidos e foi consultor do filme” 2001:Odisséia no Espaço”,de Stanley Kubrick.
 
Os sistemas cognitivos são utilizados em muitas áreas. Já chegou ao campo da criação.Cineastas  produzem  vídeos promocionais  para seus filmes com seu apoio,como aconteceu no “Morgan”.Produtores musicais  utilizam  a IA para compor.Alex da Kid ganhou um Grammy com a primeira “ canção cognitiva”.O Watson auxiliou  a escolher palavras para emocionar o mundo.Operadores financeiros,  não  exatamente  artistas,como no Bradesco,melhoraram seu desempenho em 85%,também com auxílio do Watson.Chefes  estrelados  criam  receitas com novos conhecimento sobre a química da comida e da psicologia do paladar.A resolução de problemas complexos com  IA   é uma realidade.
 
Mas será  a IA capaz de substituir o ser humano em tudo?Não, isso não acontecerá . A explicação porque isso nunca será realidade está contida no livro que acaba de ser lançado em Portugal, “ A Estranha Ordem das Coisas- A Vida, Os Sentimentos e as Culturas Humanas”,do português António Damásio.Mais famoso neurologista e neurocientista da atualidade,com nove livros publicados e traduzidos em mais de trinta línguas,o professor de Neurociência ,Psicologia e Filosofia,e Diretor do Brain and Creativity Institute  na University of Southern , da Califórnia,apresenta argumentos sólidos contra essa amedrontadora possibilidade.
 
Ele argumenta que o motivo dos cenários de ficção científica serem atraentes “prende-se com os óbvios e espantosos êxitos dos programas de jogos inteligentes ao derrotarem campeões humanos de xadrez e de Go.Mas as razões pelas quais esses  cenários de ficção científica não deverão concretizar-se prende-se com o tipo de inteligência revelado pelos programas da IA.Embora espetacular,merece realmente o adjetivo artificial e tem pouca semelhança com os processos mentais dos seres humanos”.
 
Didaticamente, ao longo das 381 páginas do seu trabalho sobre o papel do afeto na tomada de decisões, Damásio esclarece  que os programas de IA “ possuem cognição pura sem afetos,pelo que os passos intelectuais das suas mentes « inteligentes» não podem beneficiar de uma interação com sentimentos anteriores,reais ou imaginados.Na ausência de sentimentos, a possibilidade humana desaparece…..”. Ufa,ainda bem que isso não se pode contornar.Os robôs nunca poderão amar ,chorar de alegria ou dor, escrever poemas como Drumond de Andrade ou  como Vinicius de Moraes.
 
Ele continua sua dissertação afirmando que,“ em vez de sentimentos,os roboticistas incorporam comportamentos de brinquedos,sorrisos falsos,beicinhos,choros,etc.O resultado faz pensar em marionetes e « emoticons» animados,fantoches”.António Damásio explica ainda que as ações não são motivadas por estados internos nos robôs,como no ser humano,mas programadas segundo “ caprichos dos roboticistas.Assemelham-se a emoções,no sentido em que emoções são programas de ação,mas não são ações motivadas.”
 
O professor  admite como razoável a possibilidade da criação de robôs semelhantes aos humanos,mas que possam ser nossos “ assistentes convenientes.”Como muitos, prega a necessidade de  haver controle humano sobre a IA. A mesma preocupação foi manifestada pelo físico teórico  e cosmólogo britânico,Stephen Hawkins,na abertura da segunda Web Summit em Lisboa.Ele chamou a atenção para os perigos da  IA sem controle humano,sustentando ser importante garantir que os sistemas futuros estarão alinhados com os interesses da humanidade.
 
Desde Bill Gates ,que defendeu o pagamento de impostos pelos robôs para  financiar empregos destinados aos substituídos pelas máquinas,passando por intelectuais,acadêmicos e cientistas em todo o mundo, a discussão sobre a IA está colocada na mesa em diversos países  civilizados.Terça passada, a relatora do tema  no Comitê Econômico e Social da União Européia,Catelijne Muller,reforçou o coro dos que querem impor limites ao sistema.E a professora de Ciências Cognitivas da Universidade de Sussex,Inglaterra, Margareth Boden,revelou-se preocupada com o fato de “ computadores serem utilizados como cuidadores  ou companheiros de idosos.”
 
No Brasil de hoje, essa discussão seria impensável entre  dirigentes políticos e parlamentares,ocupados  em livrarem-se da cadeia,preservarem cargos e assentos no Congresso. Na verdade, no Brasil   a tecnologia tem servido mais para burlar todas as formas de controle para evitar a lavagem de dinheiro do que para o bem geral.Fosse o  país civilizado, talvez estivéssemos assistindo à discussões e debates sobre a necessidade da criação de instrumentos reguladores para que a tecnologia seja empregada em favor da população e  não para proteger  bandidos e criminosos.
 

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