Artigo: Imposição da Ideologia pelo Medo

23/10/2017 05:57
Por SILVIA CAETANO
IMPOSIÇÃO DA IDEOLOGIA PELO MEDO
 
Lisboa - O Primeiro Ministro da Espanha,Mariano Rajoy, já havia cometido o pior de todos os erros com relação à Catalunha, que foi a repressão.Ontem, trancou e jogou fora a chave da porta para uma solução negociada com os separatistas.Lançou fogo na fervura,acrescentando ao problema da independência  o das liberdades reprimidas.
 
Depois do decepcionante pronunciamento do Rei Filipe VI, que, ao contrário do discurso do pai contra o golpe de Tejero,perdeu a chance de mediar o entendimento,Rajoy também deixou passar sua oportunidade .Anunciou aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola para sufocar reivindicações de parte da população catalã,confirmando  determinação de Madri de tratar a questão como se fosse apenas legal e não política.Outro erro.
 
Rajoy elencou apenas  vantagens econômicas na sua decisão e anunciou a convocação de eleições antecipadas na região.Nem uma só vez mencionou as aspirações dos catalães,tornando ainda mais imprevisível o que pode acontecer a partir de agora.Sem assumir,dissolveu o Parlamento Catalão e cassou os mandatos do Presidente Carles Puigdemont,  e do seu vice, Oriol Junqueros,eleitos pelo voto popular. E mandou para casa todos os Conselheiros ,que são os ministros  locais.
 
Calou a boca da imprensa que trabalha para o governo, constituindo-se senhor absoluto da administração da região, da sua Segurança e Finanças. Não satisfeito, decretou que Puigdemont não poderá  se candidatar às anunciadas eleições e o Parlamento debater, votar sua investidura,medidas contrárias às suas determinações ou exercer qualquer controle sobre as pessoas que vão substituir as autoridades catalães.Puigdemont tem até a próxima sexta feira para apresentar suas razões ao Senado,que nessa data votará a aplicação do artigo 155.
 
Para fechar o cerco à Catalunha ,a Procuradoria espanhola anunciou que se Puigdemont confirmar a declaração da sua  Independência,irá acusá-lo do crime de rebelião,punido com pena de até 30 anos. Deixou  no ar  que a medida poderá ser estendida aos parlamentares e, Puigdemont , detido preventivamente. E parte da imprensa tenta ridicularizá-lo comparando seus cabelos aos do menino Harry Porter,sem esclarecer que é para disfarçar as cicatrizes de grave acidente de carro sofrido aos 21 anos que os puxa para a testa.Mas é lamentável ver jornalistas utilizando esse fato para tentar diminuí-lo perante a opinião pública.
 
É claro que ambas as partes são culpadas e responsáveis pelo atual estado de beligerância que tomou conta da Espanha.Não houve concessão  de nenhum dos lados.Mas não é possível aceitar que o desejo de um povo de ser dono do seu destino e querer ser um Estado seja tratado como crime,nem deixar de denunciar a violência cometida pela polícia de Madri.A forma truculenta como a questão está sendo encaminhada coloca Puigdemont num beco sem saída.Por isso,ele tenderá a confirmar a independência da Catalunha e,possivelmente, convocar eleições antes dos seis meses fixados por Rajoy,que vai se opor com mais radicalismo para manter o roteiro que traçou.
 
No calor dos acontecimentos, os independentistas podem surpreender com a eleição de uma maioria  favorável  à separação ,a qual, quando sentada no Parlamento,com toda a certeza, convocará nova consulta popular sobre o tema. A humilhação  é sentimento predominante entre favoráveis à Independência  e a historia mostra que seu preço é caro. Cerca de 450 mil deles protestaram nas ruas imediatamente após o discurso de Mariano Rajoy, indicando que não se calarão.
 
Habitada há mais de 450 anos, invadida e dominada por ibéricos,visigodos,árabes,romanos e carolíngios da dinastia  Carlos Magno, a Catalunha nunca foi  reino independente,mas desde a fundação da Generalitat, em 1283,sonha com isso.As eleições antecipadas representam a chance para seu povo dizer pacificamente, de uma vez por todas, se a deseja ou não,pondo fim aos conflitos.Nesse momento preocupante,valeria a pena ler o excelente romance Patria,escrito por Fernando Aramburu, em 2006,onde narra a destruição,pelo terrorismo, de duas famílias amigas num pequeno povoado do pais basco. Ninguém pode defender ou desejar essa via violenta e inadmissível,mas ele mostra o que é a imposição de uma ideologia pelo medo.  
 
 
Fonte: Diário do Poder
 
 
 

Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Centenas de templates
  • Todo em português

Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também!