As urnas perdoam a corrupção? | Clóvis Rossi

22/10/2017 22:46
As urnas perdoam a corrupção? | Clóvis Rossi
- Folha de S. Paulo
 
Cristina Fernández de Kirchner, a ex-presidente da Argentina, está sendo investigada em oito casos diferentes de corrupção. Não obstante, é praticamente certo que será eleita neste domingo (22) senadora pela Província de Buenos Aires.
 
Lembra o Brasil, em que 54% dos eleitores consultados pelo Datafolha querem que Luiz Inácio Lula da Silva seja preso (ele já foi condenado em primeira instância e está sendo investigado em outros casos, da mesma forma que Cristina Kirchner). Contudo, lidera todas as pesquisas para a eleição presidencial de 2018, com cerca de 30% das intenções de voto.
 
A tentação inevitável ante ambas as situações é imaginar que o eleitorado perdoa a corrupção ou até a abençoa, o que é consistente com o fato de que um punhado de outros políticos, no Brasil e na Argentina, foram condenados ou investigados, mas ainda assim se elegeram.
 
Talvez seja verdade, mas é mais provável que dois outros fatores pesem bastante.
 
Primeiro, a descrença nas instituições, inclusive no sistema judicial. Na Argentina, aliás, o público desconfia mais do Poder Judiciário do que dos dois outros (Executivo e Legislativo): pesquisa recente da consultoria Management & Fit mostra que 75,6% da população têm pouca ou nenhuma confiança no sistema judicial.
 
Essa descrença facilita divulgar a tese de que Cristina está sendo vítima de uma "formidável manobra de perseguição política", como ela repete sempre.
 
Seus seguidores, por sua vez, gritam: "Parem com o assédio a nossos líderes, respeitem a nossa democracia", como relata no site da publicação "Americas Quarterly" a jornalista Lucia He, especializada no tema.
 
No Brasil, Lula e seus seguidores cantam a mesma canção. E a ela aderiram, mais recentemente, outros políticos igualmente investigados, como, por exemplo, Michel Temer e Aécio Neves.
 
Outra coincidência entre Brasil e Argentina: a demora em completar investigações sobre corrupção.
 
É fenômeno arqui-conhecido no Brasil, mas na Argentina é pior: Carlos Menem foi acusado de comércio ilegal de armas para Equador e Croácia durante sua presidência, em investigação iniciada em 1995.
 
Depois de 22 anos, Menem concorre neste domingo a seu terceiro mandato como senador pela Província de La Rioja.
 
Um segundo fator a pesar para que as suspeitas de corrupção não evitem vitórias como as de Menem, Lula ou Cristina é o fato de que há uma disseminada convicção de que todos os políticos são corruptos.
 
Essa percepção, injusta mas disseminada, leva o eleitor a votar em quem acredita ter feito um governo melhor do que os outros, supostamente tão corruptos como os seus preferidos.
 
A certeza de que Cristina será eleita decorre do sistema eleitoral argentino: cada Província elege três senadores, dois deles pela lista mais votada e, o terceiro, pela que ficar em segundo.
 
A ex-presidente, na pior das hipóteses, ficará em segundo lugar. Ganhará uma vaga (e seis anos de imunidade).
 
Mas, se ficar apenas no segundo lugar, será uma derrota política —e uma demonstração de que a suspeita de corrupção pesa, sim, no voto.
 
 

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