Associação de juízes contra decisão que livrou deputados

18/11/2017 16:32
Associação de juízes vai ao STF contra decisão que livrou deputados da prisão
Assembleia do RJ: decisão do STF abriu brecha para livrar políticos da prisão (foto: Rafael Wallace/Alerj)
 
Após a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) revogar a prisão e restituir os mandatos dos deputados peemedebistas Jorge Picciani, presidente da Casa, Paulo Melo e Edson Albertassi, nesta sexta-feira (17), o presidente da AMB (Associação de Magistrados Brasileiros) informou que a entidade vai entrar com uma ação pedindo esclarecimentos ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a decisão da Corte usada pela assembleia para reverter medidas cautelares contra os
parlamentares.
 
"Só juiz tem competência no Brasil para assinar alvará de soltura e decretar prisão", afirmou Oliveira ao comentar a decisão dos deputados fluminenses. Picciani, Melo e Albertassi deixaram a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, onde
também está preso o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e outros envolvidos na Lava no Rio, pouco mais de uma hora depois dos parlamentares votarem pela soltura dos três, sem que a decisão tivesse sido informada à Justiça.
 
No dia 11 de outubro, o plenário do STF decidiu, por 6 votos a 5 que a aplicação de medidas cautelares previstas no Código de Processo Penal, entre elas o afastamento do cargo, deverá ser encaminhada à Casa Legislativa "a que pertencer o parlamentar" sempre que impossibilitarem o exercício regular do mandato.
 
Desde então, o resultado já foi usado, por analogia, para revogar decisões judiciais contra deputados estaduais do Mato Grosso e do Rio Grande do Norte e foi novamente evocado na sessão convocada pela Alerj para esta sexta (17), que acabou revogando a prisão de Picciani, Melo e Albertassi.
 
"Isso já ocorreu em três Estados. Daqui a pouco, nenhum vereador, deputado, poderá ser preso pelo motivo que for porque as Casas vão liberar", disse Oliveira, que defende que o Supremo suspenda as decisões dos parlamentos estaduais. "Isso é fruto de uma má interpretação da decisão do STF que desmoraliza o Judiciário."
 
O resumo da decisão final do julgamento redigido pelo ministro Alexandre de Moraes, publicado nesta sexta-feira (17), delimita textualmente seus efeitos para "parlamentares federais". Está expresso, portanto, que a decisão vale exclusivamente para os 594 integrantes do Congresso Nacional - 513 deputados e 81 senadores. Colocar a análise da Adin na pauta do
Supremo foi a solução institucional encontrada para diminuir a temperatura da crise aberta entre o STF e o Senado depois que a 1ª Turma da Corte afastou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) do exercício do mandato e determinou o seu
recolhimento noturno – entre outras sanções. Dias depois, a maioria dos senadores decidiu rejeitar o afastamento do tucano e anular as medidas cautelares impostas contra ele.
 
O ministro do STF Marco Aurélio Mello, que votou pela necessidade do aval do Congresso, foi categórico ao dizer que "o que foi decidido pelo STF foi só pelo ângulo da Constituição Federal", que diz respeito "unicamente" à situação dos congressistas. Presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), o juiz Jaime de Oliveira compartilha desse entendimento. "O que está acontecendo em vários Estados, no Mato Grosso e no Rio Grande do Norte, em que assembleias expediram alvarás de soltura, é uma completa aberração", declarou, ponderando em seguida que as decisões já estão sendo questionadas judicialmente.
 
No último dia 8, o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), sediado em Brasília, começou a analisar a validade da decisão da Assembleia Legislativa do Mato Grosso que mandou soltar o deputado estadual Gilmar Fabris (PSD), preso
em setembro por determinação do STF, mas o julgamento foi interrompido após um pedido de vista - e não tem data para ser retomado.
 
Oliveira defendeu que o Supremo publique o acórdão rapidamente porque a situação está se repetindo e, para ele, traz "um desprestígio muito grande para o Poder Judiciário". "São prisões que têm sido decretadas e mantidas pelos tribunais superiores, e agora praticamente está se criando uma blindagem para tudo quanto é político", afirmou o juiz. Já o professor de direito constitucional Rubens Beçak, da USP (Universidade de São Paulo), aponta que, sendo o Brasil um país federalista, existe um "princípio de repetição obrigatória" nas instâncias menores da Federação daquilo que é
determinado na área federal.
 
"Não me causa estranheza que as assembleias legislativas estejam cumprindo, mesmo que o acórdão não tenha saído [...] Nesse caso que fala de conflito de competência da Corte Constitucional, eu acho muito difícil que não seja repetido nas instâncias menores", argumentou Beçak, que, no entanto, considerou a decisão do STF dúbia. "Foi um absurdo, um desastre, e por isso ficou nesse limbo."
 
Para Marco Aurélio Mello, não cabe o princípio da reprodução obrigatória porque a regra é "excepcionalíssima", assim como a que garante ao presidente da República, durante o mandato, não responder por atos anteriores. "Indaga-se: governadores e prefeitos também estão alcançados por essa regra?", questionou, retoricamente.
 
"Você tem cláusulas na Constituição Federal que são exclusivas, não são de repetição obrigatória. E se transportarem para a Constituição do Estado ou para a Lei Orgânica do município, se houver questionamento, vamos decidir", explicou o ministro, reconhecendo que o tema fatalmente deverá cair no STF.
 
A Adin julgada em outubro foi protocolada em maio do ano passado por três partidos e pedia que o eventual afastamento de parlamentares por decisão judicial fosse submetido em até 24 horas ao Congresso Nacional, que teria o poder de confirmar ou revogar a medida, como já ocorre nos casos de prisão em flagrante de membros do Legislativo. A ação foi apresentada dias depois de o Supremo afastar o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do mandato e, consequentemente, da Presidência da Câmara, por PP, PSC e Solidariedade, que apoiavam o peemedebista. Cunha foi cassado e está preso há mais de um ano.
 
No Rio de Janeiro, o caso ganhou contornos mais complexos. Os cinco desembargadores do TRF-2 (Tribunal Federal da 2ª Região) decidiram, por unanimidade, decretar a prisão preventiva de Picciani, que é presidente da Alerj, além de Melo e Albertassi, ex-presidente da Casa e líder do governo, respectivamente. Os três se entregaram à Polícia Federal na tarde desta quinta, horas depois do julgamento, e foram levados para a mesma cadeia em que está o exgovernador do Estado, Sérgio Cabral (PMDB) - preso há exatamente um ano.
 
Prisão preventiva e afastamento das funções públicas são medidas cautelares previstas no Código de Processo Penal. Ocorre que a Constituição estadual prevê a prisão de parlamentares apenas em flagrante de crime inafiançável e, neste caso, já
determina que os deputados têm a prerrogativa de resolver, por maioria, sobre a validade da decisão judicial.
Atendendo ao pedido do MPF (Ministério Público Federal), os integrantes da 2ª instância consideraram que os delitos pelos quais os três peemedebistas são acusados - corrupção, associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas - são crimes continuados, e portanto, configurariam o flagrante.
 
Relator do caso, o desembargador Abel Gomes afirmou em seu voto – acompanhado por outros quatro integrantes da 1ª Seção do TRF-2 - que as medidas impostas pelo Tribunal geraram "obstáculo" à decisão do STF. Ele argumentou que as decisões emitidas em uma Adin devem ser cumpridas pelos juízes e tribunais, aos quais cumpre observar a decisão do Supremo "em controle concentrado de constitucionalidade".
 
"Há que se dar cumprimento ao que [foi] recentemente decidido pelo STF na referida ADI, razão pela qual, executada a ordem e considerando que a investigação ainda está em curso, forme-se cópia integral destes autos a ser remetida imediatamente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão", declarou. Durante o julgamento, Gomes explicou ainda que, com a prisão, os três deputados estariam automaticamente afastados de seus mandatos. "O que a Alerj fará com essa decisão é um problema que nós não criamos", disse.
 
 
Por Redação Bem Paraná com informações do Uol
 
 
 

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