Balanço dos riscos - MÍRIAM LEITÃO

08/01/2016 07:36

O GLOBO 

O mercado está com medo da desaceleração global. Essa é a tese do economista Ilan Goldfajn, ao comentar mais um dia de queda na bolsa chinesa, que foi acompanhada por outros índices mundo afora. A China saiu de 12% de crescimento em 2010 para algo em torno de 6% agora, mas ainda é o que segura o crescimento mundial. Os Estados Unidos estão com uma taxa de 2%, sendo considerada boa recuperação.

A dúvida, segundo Ilan, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do Banco Central, é o quanto mais a China vai desacelerar: - O medo é que, na descida da ladeira, a China leve um escorregão e caia muito mais do que está previsto. A dúvida nos últimos dias é por que o Banco Central está depreciando tanto a moeda? O temor é de que o crescimento vá para 4% ou menos - disse.

Quanto mais a China desacelerar, mais o crescimento mundial será afetado e mais incerta fica a recuperação americana. Isso também tem reflexos no ritmo de elevação da taxa de juros nos Estados Unidos. O que faz com que 2016 tenha começado com duas grandes incógnitas, exatamente sobre as duas maiores economias do mundo. Isso torna mais difícil a vida de um país com as fragilidades do Brasil.

- O problema é a fragilidade, porque choques no mundo sempre há. O país navega e passa. Mas com uma fragilidade de recessão de 4%, será muito difícil administrar um novo choque - explicou.

A mudança no quadro internacional faz sair dólares do Brasil, e isso eleva o câmbio, afetando a inflação. Uma boa notícia é que o dólar mais alto reduziu o déficit em transações correntes. Pelas projeções do banco, que ele mostrou em entrevista que me concedeu na Globonews, vai chegar a US$ 50 bilhões no fim do ano, e isso é metade do que era em 2014. Com essa redução e o alto nível de reservas, há menos riscos de uma crise cambial, como as que o Brasil teve no passado. Alguns velhos riscos, contudo, reapareceram. O pior deles é a elevação da dívida interna, que subiu para 66% do PIB agora e cuja projeção é de que chegue a 80% em 2018.

- Uma dívida que está indo para 80% é uma dívida fora de controle. Não é à toa que o Brasil perdeu o grau de investimento, por causa dessa trajetória. O país não voltará a crescer enquanto não resolver este problema - disse.

Ilan preparou um gráfico sobre o PIB brasileiro que, em vez de mostrar a taxa de crescimento, mostra um índice com o tamanho do PIB. O Brasil cresceu até 2013 e depois começou a cair. Se confirmada a recessão de 2,8% que o Itaú Unibanco projeta para este ano, o país chegará ao fim de 2016 com o mesmo tamanho que tinha em 2010. Todo o ganho foi perdido: - O crescimento só volta com a volta da confiança e isso só acontecerá quando se perceber que a dinâmica da dívida está estabilizada porque o fiscal está resolvido. Ninguém investe sem saber quem vai pagar a conta desse déficit. Medidas de estímulo só resolvem quando não se tem um problema fiscal tão grave.

Apesar de o ministro Jaques Wagner ter falado em não tirar coelho da cartola, o "Valor Econômico" disse ontem que o governo quer usar o dinheiro que foi pago aos bancos públicos e ao FGTS nas pedaladas para expandir o gasto sem impactar as contas públicas. Ilan Goldfajn acha que isso é um novo erro do governo.

- O dinheiro que o FGTS usa e os bancos públicos emprestam é subsidiado a uma taxa que é preciso que o governo banque. Se o governo não quiser pôr isso no gasto primário, em algum momento vai aparecer, como aprendemos. Não tem milagre. Tem que pôr tudo no Orçamento - afirmou.