Bataclan: três horas no Inferno de Dante

21/11/2015 20:55

Bataclan: três horas no "Inferno de Dante"

AFP

 

Testemunhos de sobreviventes do massacre que ocorreu há uma semana na sala de espectáulos parisiense permitem fazer a reconstituição do horror vivido por centenas de pessoas,

Sexta-feira, 13 de Novembro. O Bataclan, sala de concertos parisiense, vibra ao som de um grupo de rock alternativo. De repente, ouvem-se tiros: Há três suicidas armados, sangue por todo o lado, o cheiro acre de pólvora, 89 mortos, e um assalto policial três horas depois. Uma eternidade no inferno.

 

Vindos do deserto californiano, os irreverentes Eagles of Death Metal tocavam há três quartos de hora para uma multidão jovem e compacta – a sala parisiense pode acolher 1500 pessoas – quando o horror entrou em cena.

 

Eram cerca de 21h40 quando um Volkswagen Polo preto, com matrícula belga, estaciona em frente à sala de espectáculos. Três homens saem, de rostos descobertos, vestindo coletes-bomba – com TATP, um explosivo artesanal muito instável – e carregando armas de guerra. Um deles envia um sms (“Já partimos, vamos começar”) antes de atirar o seu telemóvel a um caixote do lixo.

 

Plantado à porta, o chefe dos seguranças, “Didi”, refugia-se dentro do edifício assim que ouve os primeiros tiros. Ao Le Monde diz que gritou “Rápido, rápido, entrem, estão a disparar!”. Os atacantes faziam as suas primeiras vítmas no passeio.

 

No interior, o concerto atingia o seu auge. Os americanos tocamKiss the devil, quando se ouvem na sala, mergulhada na escuridão, detonações: no rés-do-chão, os atacantes tinham começado a disparar.

 

Passam alguns segundos, a banda continua a tocar. A medo. Vários espectadores, meio inquietos, meio a gozar, dizem “São petardos”. Charles e Nicolas, 34 anos: “Pensamos que eram efeitos pirotécnicos.”

 

Corpos desabam, o cheiro a pólvora invade o ar e ouvem-se gritos na multidão. A música pára, e o grupo consegue sair de cena. Os jihadistas disparam “ao nível do bar e da mesa de som”, relata Philippe, um jovem pai. “Eles ligaram as luzes.”

 

Grupos compactos de espectadores fogem pelas saídas de emergência abertas pelos seguranças, outros saem pelo tecto. Outros escondem-se onde podem: atrás de cartazes, em paredes falsas...

 

Os telefones tocavam, eles diparavam”

 

Na plateia, a multidão atira-se para o chão. “Sentia o sangue a correr ao meu lado", conta Loïc Wiels, 33 anos, "A onda de choque das pessoas que caiam à minha volta” enquanto "os atacantes desatavam aos tiros”.

 

Havia gente a passar-se, a chorar, a gritar”, diz Samuel, 42 anos, “outros que diziam ‘chiu, pouco barulho’, porque temíamos que fosse a nossa vez”.

 

Os telemóveis tocavam e eles disparavam: ‘pum’. De 15 em 15 segundos: ‘pum’”. Sylvain Raballant, 42 anos, tenta chegar à porta. Uma rajada atira-o para o chão. Sobrevive. Alguns escapam quando os atacantes recarregam as suas armas. Outros, encurraladas, fazem-se de mortos, escondendo-se entre os cadáveres. “Estamos a vingar os nossos irmãos da Síria”, ouve Philippe.

 

Sylvain vê dois dos atiradores “vestidos normalmente, calças de ganga”. Benoit Werner diz que todos tinham uma kalashnikov.

 

Do balcão, Marielle Timme vê lá em baixo “um cemitério”. “Eles varreram a plateia com balas. Toda a plateia cravada de balas”. “Havia cadáveres por todo o lado”, descreve Pierre Janaszak, 35 anos.

 

Anthony está deitado, olha para cima e vê um “tipo barbudo” que dispara, metodicamente. “Estava à espera da bala fatal”. Mas depois os jihadistas foram para cima.

 

Alguém gritou que eles tinham partido”, continua Anthony. “Deslizei por um mar de sangue espesso, rastejámos, apoiados uns nos outros... O caminho para a saída estava cheio de “obstáculos”, cadáveres.

 

No piso de cima, os jiahdistas continuaram a disparar. Alguns espectadores acabam num beco sem saída, como David, que ficou suspenso nas barras de uma janela aberta, a sete metros do chão e que foi mandado reentrar pelos atacantes. “Vieram ter conosco e disseram "Não vos vamos matar, sigam-nos’”, conta Stéphane ao jornal L'Humanité.

 

Cerca das 22h00, um comissário da brigada anti-criminalidade de Paris é o primeiro a entrar no Bataclan com o seu motorista. Com a arma de serviço, abate no rés-do-chão um dos jihadistas, cujo colete explode.

 

Às 22h15, a brigada de intervenção (BRI) chega ao local, conta um polícia que participa no assalto: uma primeira coluna progride em direcção ao primeiro andar, uma segunda, de polícias de elite (RAID), fica no exterior e no rés-do-chão.

 

 


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