Calamidade no Rio - Por Merval Pereira

18/06/2016 17:54
- O Globo
 
O estrago está consumado. Não há como evitar o desgaste da imagem do país. A decretação do estado de calamidade pública no Estado do Rio é uma consequência de duas crises, uma local e outra internacional, que se entrelaçaram. A economia do estado tornou-se dependente do petróleo, e a crise internacional que derrubou os preços do barril reduziu o repasse de royalties para o estado que é o maior produtor no país.
 
Ao mesmo tempo, toda a cadeia produtiva do petróleo sofreu um baque com a redução dos preços e da própria produção, tudo tendo com o pano de fundo a criminosa dilapidação da Petrobras, maior estatal brasileira, um verdadeiro crime de lesa-pátria que, nada estranhamente, não mobiliza sindicatos na defesa do patrimônio do país, e nem mesmo o seu próprio patrimônio e de seus associados.
 
À serviço de projetos políticos particulares, as centrais sindicais são incapazes de se mobilizar contra os que sangraram a maior empresa brasileira, assim como os fundos de pensão, por exemplo, que foram literalmente assaltados por decisões políticas que provocaram sérios prejuízos aos associados, inclusive o da Petrobras.
 
 
A economia fluminense foi afetada, portanto, em seus três principais pilares: o preço do petróleo, a falência da Petrobras e a falência das empresas da cadeia produtiva do petróleo que prestavam serviços para a Petrobras. A saída, como sempre, foi pedir auxílio ao governo central, que, no entanto, além de também estar em situação econômica calamitosa, não podia fazer nada porque a Lei de Responsabilidade Fiscal, tão vilipendiada nos últimos anos, não permite transferências de créditos para pagamento do funcionalismo.
 
Fora o problema político que se colocaria, pois todos os estados estão em situação semelhante, em busca de uma renegociação de suas dívidas com o governo federal. Decretado o estado de calamidade, encontrou-se uma saída jurídica para o auxílio, o que pode garantir certa tranquilidade até o fim da Olimpíada do Rio, mas não o que virá depois dela.
 
A consequência da crise econômica do país afetou diretamente o Rio, com o aumento da criminalidade nos últimos meses. O novo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, tem uma visão mais próxima da do secretário de Segurança Mariano Beltrame, que sempre reivindicou a presença maior do Estado nas áreas pacificadas para dar sequência ao trabalho de controle das regiões retomadas do tráfico.
 
A essa carência de ações sociais nas comunidades, ou pelo menos a presença insuficiente dos serviços sociais, somou-se uma diferença de concepção a respeito das Unidades de Polícias Pacificadoras (UPPs), que hoje se encontram fragilizadas no combate ao tráfico.
 
A recomendação de alguns especialistas com a qual concorda Alexandre de Moraes, mas não Beltrame, era para que os batalhões que integram as UPPs fizessem um rodízio permanente pelas diversas comunidades, para não permitir a cooptação do tráfico.
 
Prevaleceu a tese de Beltame de que a proximidade dos moradores das comunidades ajudaria na repressão aos traficantes. Não deu certo. Um dos pontos principais da estratégia das UPPs era a retomada do controle de regiões antes dominadas pelo tráfico, que consistia em reprimir a exibição afrontosa de armamentos por parte dos traficantes, sem que o combate direto ao tráfico de drogas propriamente dito fosse prioritário.
 
Essa guerra está sendo perdida paulatinamente, como demonstram o aumento da criminalidade, os tiroteios cada vez mais frequentes e os vídeos exibidos constantemente na televisão. O último deles, pelo jornalismo da Rede Globo, mostra grupos armados de fuzis andando de madrugada sem cerimônia pelo prédio da Central, onde está instalada a Secretaria de Segurança Pública do Rio.
 
O ministro da Justiça está montando novos esquemas de convênio com a Secretaria de Segurança do Rio e pretende, ao mesmo tempo, colocar em funcionamento uma ação de repressão ao contrabando de armas e drogas nas fronteiras do país, projeto que sempre foi muito falado e nunca realizado a contento.
 
O estrago está consumado. Não há como evitar o desgaste internacional da imagem do país, que vai realizar a Olimpíada em estado de calamidade, além do surto de zika,dengue e chicungunha, mesmo que o prefeito Eduardo Paes garanta que o município está em boas condições financeiras. O grande problema, de fato, será viabilizar ações de recuperação para além da Olimpíada, com o país em módulo de contenção de despesas.
 
 

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