Cartas de Berlim: Amor à França - Por Albert

17/11/2015 18:31

Cartas de Berlim: Amor à França

Albert Steinberger

Por Albert Steinberger 

 

Os ataques de Paris foram dirigidos não somente aos franceses, mas a toda a sociedade ocidental chamada de “civilizada”

Aprendi a amar a França na rua de Charonne, onde nesta última sexta-feira 19 pessoas foram brutalmente assassinadas. Era a primavera de 2012 e ali começava uma viagem de bicicleta que iria mudar a minha vida.

A viagem de bicicleta terminou em Vézelay, um vilarejo onde pouco mais de dois anos depois iria me casar com a francesa que estava ao meu lado na viagem.

Atentados como estes da semana geram o terror porque são muito próximos do cotidiano de quem mora, ou já passou algum tempo em Paris. Criam a sensação de medo e de que o próximo pode ser você. E conseguem também gerar uma onda dos mais variados sentimentos. Incredulidade, medo, ódio, tristeza, luto e compaixão se misturavam.

Eu e a Agnès, minha mulher, ficamos sabendo dos atentados ao sair de um show em Bonn, na Alemanha. Ao chegarmos em casa mergulhamos nos acontecimentos, com a TV alemã ligada, cada um com seu laptop no colo e ainda o celular ao lado.

Ela também é jornalista e aos poucos íamos zapeando da televisão alemã, para a BBC inglesa, passando pela CNN norte-americana, a France24 e a Globonews. As notícias se misturavam com mensagens, posts, fotos e videos espalhados pelas redes sociais.

E pelas redes sociais era possível se sentir muito próximo de Paris. A sensação era de estar em uma praça pública e conseguir ver o caos instalado na sociedade francesa e europeia. Assistir aos movimentos de manada criados pela situação. Novos hashtags, fotos, frases de efeito, relatos emocionantes e a multidão virtual correndo nas mais diversas direções, como uma boiada fora de controle.

Os ataques de Paris foram dirigidos não somente aos franceses, mas a toda a sociedade ocidental chamada de “civilizada”. No entanto, algumas frases que surgiam nas redes de civilizadas não tinham nada. Eram bordões de ódio e promessas de vingança.

Culpar o islamismo pelo que aconteceu é uma daquelas generalizações burras, mas que tem tudo para se espalhar no calor dos acontecimentos. A Front Nacionale de Marie Le Penn é quem mais sai ganhando com os ataques. E com o crescimento da extrema-direita, os terroristas também ganham. Eles buscam o confronto, o extremo, a guerra, o terror e o pânico.

Claro, que a luta contra o Estado Islâmico tem que ser intensificada, mas quem perde com esta escalação do terror e dos extremos são os milhares de refugiados e a maior parte da sociedade que não se encontra em nenhum destes extremos do espectro político e religioso.

No fanatismo perdemos a capacidade de nos compadecermos com o próximo. Esta capacidade de nos colocarmos no lugar do outro é uma das características mais nobres e humanas. Ao mesmo tempo, em muitas situações este é um processo longo, que dura gerações.

Pessoas da minha família lutaram nas duas guerras mundiais pelo lado alemão contra a França. Hoje, décadas depois, eu sou casado com um francesa e assim acredito que evoluímos. #NousSommesUnis


Agnès e Albert Steinberger (Foto: Albert Steinberger / Arquivo pessoal)