César Felício: Não são um reflexo, e nem um presságio

12/02/2016 16:53

Eleições municipais são termômetro ruim para jogo nacional

- Valor Econômico


O retrospectivo eleitoral no Brasil redemocratizado já não é tão curto e nem o eleitorado tão inconsistente assim para que não se possam estabelecer padrões de voto, que devem, até certo ponto, guiar os acontecimentos em outubro deste ano.

O primeiro dado incontroverso, quando se trata de pequenas e médias cidades, é que a eleição municipal, de nenhuma maneira, conta com "um partido vencedor". Em geral, os governadores são os organizadores das alianças. Este ano o PT está extremamente desgastado, mas terá volume expressivo de prefeitos na próxima eleição, porque governa dois estados, Minas Gerais e Bahia, que, sozinhos, respondem por um quinto dos administradores brasileiros. Pelas mesmas razões, PSDB, PMDB e PSB também terão quinhão de respeito. O caso do PP, com suas resistência nas pequenas cidades gaúchas e catarinenses, é particularíssimo.

 

Nas grandes metrópoles, o prefeito costuma ser um agente político autônomo e em torno dele se centraliza o debate. Fernando Haddad, em São Paulo, Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, e Marcio Lacerda, em Belo Horizonte, são os que jogam com as peças brancas.

 

Das três cidades, o caso paulistano é o único em que o fator partidário conta. Só em São Paulo, a rigor, o PT desperta paixões, seja de que sentido for. Das oito eleições para prefeito de capital disputadas desde 1985, o candidato petista esteve em primeiro ou segundo lugar em sete. A partir do momento em que foi instituído, o segundo turno tornou-se uma norma na cidade. Nas duas ocasiões (2004 e 2008) em que o prefeito disputou a reeleição, chegou à rodada final. É altamente improvável que o petista não esteja no segundo turno. "São muito apressados os que dizem que Haddad está derrotado", comentou o cientista político Rui Tavares Maluf, que militou no PSDB entre 1988 e 1992.

 

O governador Geraldo Alckmin é um protagonista do processo eleitoral, mas parece mais preocupado em disputar a hegemonia dentro da sua própria sigla do que em ganhar na capital. Alckmin é um homem de disputas, que procura mais prevalecer, amassar barro, como gosta de dizer, do que tecer consensos dentro da sigla. Já bateu chapa em outras ocasiões e a chance de seu candidato, João Doria Jr, vencer a disputa interna é alta. Para Alckmin, é o que importa. Se Doria Jr surpreender e tornar-se o próximo prefeito de São Paulo, terá sido por méritos seus. O governador não parece disposto a envolver-se na campanha em si.

 

No caso do Rio de Janeiro, por ora, Eduardo Paes reina sobre o vácuo. É o único governante brasileiro que está investindo. A bolha da ilusão carioca que transforma Paes em um novo Pereira Passos ou Paulo de Frontin, quando explodir, será depois das eleições.

 

A mudança da data das convenções ainda aproximou convenientemente o início da campanha com a realização dos Jogos Olímpicos, nas três primeiras semanas de agosto. Do outro lado da rua, não há um governador que joga contra, ou um governo federal que esteja distante. Não há um ex-prefeito com prestígio junto aos mais pobres. Não há ninguém com "recall", com capilaridade e tradição que o enfrente.

 

Daí se pode entender, à parte as questões de natureza puramente pessoal, a insistência de Paes em dobrar a aposta em favor de Pedro Paulo, mesmo com o escândalo da agressão de seu delfim à ex-mulher. Os mais conhecidos adversários potenciais de Pedro Paulo, como Marcelo Freixo (PSOL) e Marcelo Crivella (PRB), cada um a seu modo, são candidatos de nicho. Terão dificuldade de se viabilizar, mesmo com a descomunal rejeição que Pedro Paulo terá que administrar, condenado a passar a campanha inteira explicando o inexplicável.

 

Pezão revelou-se um articulador político importante para Dilma e um contraponto a Eduardo Cunha dentro do PMDB. Mas seu problema de caixa é definitivo e atualmente é ajudado pelo prefeito a manter a saúde estadual. Institucionalmente, não tem a faculdade de se reeleger.

 

Em Belo Horizonte, como observa o sociólogo Rudá Ricci, que militou no PT até o início dos anos 90, o prefeito Marcio Lacerda (PSB) é uma variável perturbadora para a eleição ao governo estadual, e por isso, seu jogo político de agora é temido tanto pelo governador Fernando Pimentel (PT) quanto pelo presidente do PSDB, Aécio Neves.

 

A capital mineira tem um histórico longo de vitória de candidatos associados à esquerda, mas nem o governador e nem o senador tucano querem se expor à possibilidade de uma derrota constrangedora. Ao mesmo, tanto um quanto o outro têm dificuldades de manterem suas tropas sem dissidência. "O ideal para Aécio e Pimentel seria buscar um nome fora de seus partidos ", pensa Ricci.

 

Pimentel teria uma carta poderosíssima nas mãos, caso o empresário Josué Gomes da Silva, que tentou o Senado em 2014, fosse o candidato do PMDB à prefeito este ano. Poucos apostam que esta possibilidade seduza um empresário de atuação nacional, vínculos tênues com Minas e pretensões maiores.

 

Lacerda por muito pouco não foi candidato a governador contra Pimentel em 2014. O acerto com Aécio emperrou porque o prefeito de Belo Horizonte não poderia empenhar-se na candidatura presidencial do tucano. Para manter-se fora da órbita do Palácio Tiradentes, quer amarrar a sucessão estadual agora, o que implica escolher o candidato do grupo à prefeitura da capital mineira.

 

As sucessões em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte são três processos em aberto, mas em um contexto de alto desgaste das administrações estaduais e da federal, é sintomático perceber que não se descarta entre os especialistas que o situacionismo ganhe nos três casos.

 

Na hipótese desta conjunção se confirmar, uma última regra sobre eleições municipais, específica para capitais, se confirma: o seu baixo poder irradiador sobre a eleição seguinte e reflexivo sobre a que passou. Em 1996, o PSDB perdeu, de forma retumbante, as eleições nas capitais dos três principais estudos do Sudeste. Tinha o controle na ocasião dos três governos estaduais, havia eleito o presidente no primeiro turno dois anos antes e repetiria a façanha dois anos depois. Como "mid term election", as disputas municipais são um mal termômetro.


 


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