Chile admite possível assassinato de Neruda

07/11/2015 11:21

Autoridades dizem ser plausível hipótese de que poeta foi morto por ditadura militar

 

- O Globo

 

-SANTIAGO- O governo chileno reconheceu que Pablo Neruda pode ter sido assassinado depois do golpe de Estado que levou o general Augusto Pinochet ao poder, em 1973. Em comunicado divulgado na última quinta-feira, o ministério do Interior e da Segurança Pública do país admite que considera “claramente possível e altamente provável” a atuação de terceiros na morte do vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1971.

 

Em carta enviada ao juiz que investiga a morte do poeta, emitida pelo Programa de Direitos Humanos do ministério, é indicado ainda que, apesar de Neruda sofrer de câncer de próstata, não foram tomados os procedimentos médicos e forenses para estabelecer a causa da morte na época.

 

O ministério destacou que as investigações ainda estão em curso e não há uma conclusão para o caso. “Dadas as persistentes dúvidas sobre a causa da morte de Neruda, o governo chileno, por meio do seu Programa de Direitos Humanos, estabeleceu dois painéis internacionais e interdisciplinares de especialistas (o último deles, em outubro de 2015), para continuar realizando perícias que permitirão chegar a uma conclusão científica”, diz o documento.


Pablo Neruda era mais conhecido por seus poemas de amor, mas também era um político de esquerda, diplomata e amigo próximo do presidente Salvador Allende, que cometeu suicídio para não se render aos militares durante o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 liderado por Pinochet.

Apesar de ter sido diagnosticado com câncer pouco antes de morrer, o poeta, de 69 anos, pretendia ir para o exílio. Impressionado com a perseguição e o assassinato de seus amigos, ele planejava continuar como uma voz forte de oposição à ditadura, fora do Chile.

 

Um dia antes de embarcar rumo ao México, contudo, o escritor foi levado de ambulância para a clínica Santa Maria, em Santiago, onde recebeu tratamento médico para o câncer e outras doenças. Neruda, então membro do Comitê Central do Partido Comunista e personalidade mais importante da intelectualidade chilena, morreu na noite de 23 de setembro de 1973, supostamente de causas naturais. Mas as suspeitas de que a ditadura tem algo a ver com sua morte persistem.

 

O corpo foi exumado para uma primeira análise em 2013. Na ocasião, a investigação, a cargo de uma equipe de especialistas, não encontrou veneno nos restos mortais.

 

Não achamos traços de veneno, mas isso não significa, necessariamente, que Neruda não foi assassinado. Outra equipe, com outras técnicas, pode encontrar substâncias — diz o legista espanhol Francisco Etxeberria, que participou dos trabalhos em 2013.

 

O motorista de Neruda, Manuel Araya, garantiu em várias ocasiões que o Nobel recebeu uma injeção aplicada por agentes da ditadura que se infiltraram na clínica e morreu seis horas e meia depois.

 

Carroza Espinosa, juiz atualmente encarregado do caso, solicitou novos exames para detectar substâncias não procuradas na primeira exumação.

 

Espinosa afirma que há muitas “coincidências”, além de provas testemunhais e documentais no caso, mas diz que somente provas científicas darão 100% de certeza de que Neruda foi assassinado.

 

Ele tinha câncer, mas não estava em estado terminal. Até que, em 23 de setembro, seu estado de saúde se deteriorou a ponto de matá-lo em seis horas — relata Espinosa.

 

O juiz agora aguarda os resultados de um exame sobre a bactéria Staphylococcus aureus, encontrada em maio nos restos mortais de Neruda. Segundo especialistas, o microorganismo pode acelerar uma morte.


 


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