Circunstâncias fazem PT ser 'ambíguo' sobre Cunha, diz Olívio Dutra

24/11/2015 17:29

Por Mariana Schreiber

Da BBC Brasil em Brasília

Olívio Dutra (Foto: Emílio Pedroso/UPPRS)

Figura histórica do PT, ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra diz não concordar com a postura do partido frente às graves denúncias que recaem sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Na sua avaliação, o PT hoje tem uma postura "ambígua" porque, sendo governo, carrega "essa carga enorme no ombro de (ter que) fazer o governo funcionar". E para tanto, afirma, "tem que trabalhar relações" com o Congresso.

Cunha é acusado de participação no esquema de corrupção da Petrobras investigado pela Operação Lava Jato – o que ele nega. As denúncias ficaram mais fortes no fim de setembro, quando veio à tona que ele e sua família têm contas milionárias na Suíça. O parlamentar reconhece a existências das contas, mas diz que o dinheiro tem origem lícita.

"O PT, por conta das circunstâncias em que vive, está tendo uma postura, no meu entendimento, ambígua nisso porque não faz a declaração aberta da insensatez que é ter uma figura como o deputado Cunha, com todas, digamos, essas evidências de coisas malfeitas, presidindo a Câmara Federal", afirmou Dutra à BBC Brasil.

"É uma questão realmente muito séria. O partido fica prisioneiro. Eu, particularmente, não concordo com essa postura. Mas quem está de fora (do governo) para dentro pode falar", disse o petista, que atualmente está sem cargo político.

No momento, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados analisa uma representação contra Cunha apresentada por PSOL e Rede, mas que recebeu assinatura de deputados de outros partidos, a maioria deles (32) do PT.

No entanto, a imprensa brasileira tem noticiado que haveria um acordo nos bastidores, articulado pelo ex-presidente Lula, em que o PT retardaria o processo no conselho em troca de Cunha não dar início a um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

Esse acordo teria ganhado mais força após a decisão dos partidos de oposição, como PSDB e DEM, de romper com Cunha.

(Foto: Reuters)

Há três deputados do PT no conselho: Zé Geraldo (PA), Valdir Prascidelli (SP) e Leo Brito (AC). Na semana passada, eles não apareceram no horário marcado para a leitura do relatório a favor da abertura de um processo contra Cunha – o que acabou contribuindo para dificultar o início da sessão por falta de quórum.

A reunião, marcada por muita polêmica, acabou não sendo realizada após manobras do presidente da Câmara para cancelar a sessão. Isso gerou forte reação de parte dos deputados, que abandonou o plenário da Casa aos gritos de "fora Cunha".

A leitura do relatório pelo deputado Fausto Pinato (PRB-SP) ocorreu nesta terça, mas, como aliados de Cunha pediram vista para analisar o documento, a votação para decidir se um processo contra ele será aberto ficou para daqui a uma semana.

Caso seja instaurado, o processo deve se estender até abril de 2016.

PT e Dilma

Dutra nega a existência de tal "acordão" entre PT, governo e Cunha. Para ele, uma negociação do tipo "seria algo absurdo".

"Eu duvido que tenha lideranças sérias do partido decidindo isso. Eu duvido até que me provem por A mais B que tenha essa negociação. Para mim, ela não existe, a não ser nas suposições do jogo político, adversário, para desgastar o governo e o PT", afirmou.

"Até porque a Dilma, no meu entendimento, não tem porque sair do governo. Não tem argumentos consistentes, jurídicos, políticos, para um impeachment contra a Dilma. No entanto, ela fica constantemente prisioneira das chantagens da base aliada. O PMDB está e não está no governo. O Cunha é do PMDB, que é base do governo", acrescentou Dutra.

Eduardo Cunha (foto: AFP)

O petista gaúcho não vê saída rápida para a atual crise, que na sua avaliação não é só do PT, mas de todo o sistema político. Ele aponta um suposto preconceito das elites contra o partido, mas reconhece que a legenda precisa fazer uma autocrítica.

"Eu acho que o PT está sendo uma mala sem alça para a Dilma. É um problema porque o PT se meteu em coisas que feriram profundamente o patrimônio ético e moral do partido. São figuras importantes (as envolvidas) e o PT não fez essa autocrítica pública, então fica cada vez mais desgastado nessa situação", reconheceu.

"Ele (o partido) não ajuda muito a presidente. Aliás, eu acho que de certa forma é um peso. E os demais partidos estão também envolvidos em falcatruas. Às vezes para eles a política sempre foi isso, para nós a política não era para ser isso.”

Questionado sobre sua expectativa quanto ao desempenho do PT nas eleições municipais, Dutra disse que o eventual encolhimento do partido não é necessariamente ruim e criticou uma possível candidatura de Lula a presidente em 2018.

"É evidente que o partido não vai resolver a situação ganhando essa ou aquela eleição. Até acho que é muito temerário colocar o Lula como candidato a presidente da República", opinou.

"O partido depender de uma única pessoa significa que o partido tem que fazer muito mais do que já fez para ter base social, quadros políticos, que não dependem de uma única figura, por mais importante que ela seja."

 

 


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Design profissional
  • Criação super fácil

Este site foi criado com Webnode. Crie o seu de graça agora!