Consciência negra - Editorial do Cruzeiro do Sul

19/11/2017 20:41
Consciência negra - Editorial do Jornal Cruzeiro do Sul
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Na próxima segunda-feira, quando em muitos municípios brasileiros será comemorado o Dia da Consciência Negra, teremos uma data propícia para refletir sobre as condições impostas aos negros desde a época da escravidão até os dias atuais e sua inserção na sociedade brasileira. E não há muito para se comemorar. 
 
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) trimestral, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) traz dados desanimadores na época em que se recorda a morte de Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares, ponto de resistência de grupos de negros à escravidão no Nordeste brasileiro no final do século 17. Os dados do Pnad mostram que no terceiro trimestre deste ano, havia 12,961 milhões de pessoas desempregadas no Brasil. Desse universo, 8,252 milhões têm pele preta ou parda, o que equivale a 63,7% do total. Esses dados levam à conclusão de que a taxa de desemprego da população preta ou parda é 14,6% acima da média, que ficou em 12,4%. Entre os cidadãos de pele branca, a taxa de desemprego ficou em 9,9%. Ou seja, seis em cada dez desempregados são pretos ou pardos. 
 
Às vésperas do feriado da Consciência Negra também ficamos sabendo pelos dados do IBGE que pessoas de pele preta ou parda, quando têm emprego, trabalham em atividades de menor qualificação e em piores condições, como atividades domésticas ou como vendedores ambulantes. No terceiro trimestre deste ano, o rendimento médio dos trabalhadores pretos e pardos foi de R$ 1.531, quase a metade do que receberam os brancos (R$ 2.757). 
 
Há outros dados oficiais que mostram o tratamento diferenciado que as pessoas recebem de acordo com a cor de sua pele. O Brasil tem 1,832 milhão de ambulantes, dos quais 1,222 milhão, ou 66,7% são pretos ou pardos. Há 6,177 milhões de empregados domésticos no País, dos quais 4,076 milhões, ou 66% do total, têm a pele escura. Esses dados são inéditos e fazem parte de um estudo sobre a desigualdade do mercado de trabalho conforme a cor da pele, especialmente preparado pelo IBGE por causa do Dia da Consciência Negra. Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, diz que as pessoas de pele preta ou parda estão inseridas em atividades com menor qualidade, que exigem menor formação e, consequentemente, são grupos de atividades que pagam salários menores. Para ele, a origem da desigualdade está na colonização. Passados mais de cem anos da abolição ainda vemos marcas bastante expressivas dessa tragédia que foi a colonização do Brasil. 
 
Desde 2007 as pesquisas por amostra de domicílio do IBGE registram que o contingente da população preta e parda supera o total da população branca -- a cor da pele é informada pelo próprio entrevistado. De acordo com os dados do terceiro trimestre deste ano, elas já são 54,9% da população de 14 anos ou mais e por 53% da população ocupada. 
 
Um dos caminhos para eliminar a desigualdade histórica entre pretos e brancos está na educação, no conhecimento. Além do fato de milhões de pessoas terem sido capturadas a força e transportadas às Américas onde foram escravizadas, pouco se sabe da história africana, de sua rica cultura e das diferentes etnias que vieram para o Brasil. Desde 2003 está em vigor a lei 10.639 que versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e sobre a importância da cultura negra na formação da sociedade brasileira. São temas importantíssimos que dizem respeito diretamente aos antepassados de mais da metade da população brasileira, mas até hoje o tema é pouco tratado nas salas de aula, pois esbarra na falta de capacitação dos professores e mesmo falta de interesse de algumas escolas. Enquanto não forem superadas essas barreiras culturais e as desigualdades na escolaridade entre brancos e pretos, os índices de emprego e renda continuarão sendo altamente negativos para a maior parcela da população brasileira.
 
 

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