Crise obriga empresas a vender R$ 150 bi em ativos

04/10/2015 10:26

Crise obriga a empresas a vender R$ 150 bi em ativos

Estatais e grupos privados se desfazem de negócios pouco lucrativos

 

Companhias tentam driblar recessão e dólar alto. Empreiteiras sofrem também com Lava-Jato

 

A crise econômica levou as principais empresas brasileiras a realizarem uma verdadeira liquidação de ativos. Entre negócios recentemente vendidos e outros que ainda buscam comprador, companhias de diferentes setores estão se desfazendo este ano de R$ 150 bilhões. A lista inclui desde participações em aeroportos até fábricas de alimentos e uma mina de carvão. A situação é mais grave nas empreiteiras por causa da Lava-Jato. “Para algumas empresas, era vender ativos ou quebrar”, diz Ricardo Carvalho, diretor da Fitch Ratings. O dólar alto tornou o preço dos ativos em reais mais baixo e pode facilitar a venda, afirmam analistas.

 

Um saldão de R$ 150 bilhões

 

Recessão, alta do dólar e Lava-Jato levam empresas pública e privadas a vender ativos

 

RIO, BRASÍLIA e SÃO PAULO - Afetadas pela crise econômica, preocupadas em aumentar a geração de caixa ou em se adaptar à nova realidade do mercado — focando em segmentos mais estratégicos e lucrativos —, empresas públicas e privadas estão promovendo um verdadeiro saldão de ativos. Levantamento feito pelo GLOBO em diferentes setores aponta que as companhias estão tentando se desfazer de ao menos R$ 149,6 bilhões. Para se ter uma ideia do tamanho desta operação, a cifra equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) da Bahia no ano passado. É comparável ainda ao orçamento de seis usinas Belo Monte. Ou ainda: o montante é pouco superior ao impacto causado pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, na economia brasileira em 2015, segundo cálculos da GO Associados (R$ 140 bilhões).

 

Na lista de empresas, estão Petrobras, Vale, Eletrobras e Infraero. As construtoras, afetadas pela Operação Lava-Jato, também entraram em temporada de liquidação, que inclui a venda de participações em diversas concessões. Analistas destacam que, apesar da instabilidade econômica, a forte alta do dólar — muito próximo dos R$ 4 — contribui para atrair investidores estrangeiros.

 

O Brasil está barato. Houve desvalorização de 60% a 70% no valor dos ativos nos últimos 12 meses por causa da alta do dólar. E a liquidez internacional é gigantesca — diz Fabio Silveira, diretor de pesquisa da GO Associados.

 

Ele avalia que a crise econômica pode durar até três anos e que a turbulência política, apesar de criar instabilidade institucional, é menor que os problemas políticos e sociais de outros emergentes, como os países do Leste Europeu e do Oriente Médio.

 

Governo pode levantar R$ 10 bi com aeroportos

Mas há desafios. Especialistas citam o caso da Petrobras, que vem sentindo os efeitos da crise econômica e da Operação Lava-Jato. Em meio ao maior escândalo de sua história, a estatal foi obrigada a cortar investimentos e vender ativos para reduzir seu nível de endividamento, que deve ter chegado a R$ 500 bilhões no fim de setembro, agravado pela alta do dólar e pela queda do preço do petróleo. Sua meta é se desfazer de US$ 15,1 bilhões (R$ 59,6 bilhões) até o fim do ano que vem.

 

A companhia precisa vender ativos, mas ainda não conseguiu bom resultado. Até a abertura de capital da BR Distribuidora foi adiada — diz Eduardo Roche, sócio-gestor da Canepa Asset Brasil.

 

Com o fim do superciclo das commodities, principalmente devido à desaceleração da China, a Vale apertou o passo de seu programa de venda de ativos. Para este ano, a expectativa da mineradora é levantar de US$ 6 bilhões a US$ 7 bilhões (até R$ 27,6 bilhões) com desinvestimentos e parcerias. No rol dos ativos que foram para a prateleira estão participações no corredor logístico de Nacala e uma mina de carvão, ambos em Moçambique.

 

A Vale frisa que a reorganização de portfólio foi iniciada em 2011, quando passou a focar em “ativos de classe mundial, com baixo custo, vida longa e potencial de expansão”. O objetivo é fazer caixa para tocar projetos essenciais, como o S11D (expansão do Complexo de Carajás, no Pará), o maior da história da companhia, orçado em US$ 16 bilhões.

 

A CSN é outra que está à caça de compradores. São dois os ativos oficialmente à venda: o terminal de contêineres de Sepetiba (Rio de Janeiro), avaliado em cerca de R$ 1 bilhão, segundo fontes de mercado, e a fatia da empresa na Usiminas. Mas não está descartada a venda de ações que a siderúrgica detém na MRS e as subsidiárias de embalagem.

 

Em recente relatório, a agência de classificação de risco Fitch avaliou que a empresa precisa vender R$ 4 bilhões nos próximos dois anos para reduzir seu endividamento. A dívida líquida da companhia no fim do segundo trimestre estava em R$ 20,7 bilhões. A CSN não comenta.

 

A empresa estava correndo contra o tempo para negociar com potenciais compradores, mas conseguiu fôlego mês passado, ao alongar cerca de R$ 5 bilhões de sua dívida de curto prazo. O cenário não ajuda. Além da sobreoferta mundial de aço, a demanda por produtos siderúrgicos vem caindo no Brasil, com a desaceleração econômica.

 

Marco Aurélio Barbosa, estrategista da CM Capital Markets, que acompanha 180 companhias de capital aberto no país, lembra que a venda de ativos é uma saída extrema para evitar a quebra:

 

Antes, ela pode reduzir investimentos, enxugar custos, demitindo pessoas ou revendo contratos, por exemplo. Mas, quando há um descasamento enorme entre a geração de caixa e os custos para se manter, a saída é vender. O problema é que o comprador acaba oferecendo valor muito depreciado e, com a economia em retração, isso se potencializa.

 

No setor aéreo, o governo planeja vender os 49% de participação da Infraero nos aeroportos já concedidos à iniciativa privada — Brasília, São Paulo (Guarulhos e Viracopos), Galeão (no Rio) e Confins (Belo Horizonte). Segundo estimativas da equipe econômica, a meta é faturar ao menos R$ 10 bilhões. Na nova rodada de concessão, prevista para 2016, os aeroportos de Fortaleza, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre deverão ser integralmente entregues ao setor privado.

 

Haverá demanda dos estrangeiros. Os ativos estão baratos e a instabilidade econômica e política também pesa, o que pode deixá-los mais em conta — diz o advogado Roberto Nasser.


Nas montadoras, saída é cortar vagas

Entre as empreiteiras, a Lava-Jato colocou sob os holofotes pesos-pesados como OAS, Odebrecht, Galvão Engenharia e UTC. Endividadas, com contratos cancelados e sem crédito, ao menos cinco empresas, com dívidas que somam R$ 15 bilhões, pediram recuperação judicial. E vão vender ativos para tentar quitar dívidas. Caso da OAS, que colocou à venda sua fatia de 22,44% na Invepar, empresa que tem participação no aeroporto de Guarulhos, Metrô Rio, entre outros. A empreiteira espera arrecadar R$ 2,2 bilhões com a venda. Já a UTC está vendendo os 23% que detém no aeroporto de Viracopos. O valor estimado é de R$ 450 milhões. Procuradas, as empresas não comentam.

 

Para algumas empresas era vender ativos ou quebrar — afirma Ricardo Carvalho, diretor da Fitch Ratings.

 

Há exemplos até no setor de carnes processadas. Em junho, a Marfrig vendeu para a JBS por US$ 1,5 bilhão (R$ 4,5 bilhões ao câmbio da época, R$ 3,10) a marca de alimentos Moy Park, com base na Irlanda do Norte. A empresa ganhou fôlego para reduzir o endividamento, de R$ 10 bilhões, sendo 92% em moeda estrangeira, segundo o analista Felipe Martins, da Coinvalores. A BRF se desfez de ativos não prioritários — concluiu a venda da unidade de lácteos em julho para a francesa Lactalis — para se concentrar em bovinos e suínos e produtos processados. A unidade de lácteos representava 10% da receita líquida, justifica a empresa.

 

Na indústria automobilística, a opção foi recorrer a suspensões temporárias do contrato de trabalho ( lay off), férias coletivas, licenças remuneradas, adoção do Programa de Proteção ao Emprego (PPE) e demissões. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), até agosto foram fechadas quase 10 mil vagas. No centro das turbulências que atravessam o setor elétrico e com negócios sob investigação na Operação Lava-Jato, a Eletrobras vai encolher e concentrar suas atividades em setores onde o governo considera a presença estatal estratégica: as grandes hidrelétricas e linhas de transmissão. Na quarta-feira, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, recebeu da consultoria Roland Berger levantamento dos ativos que poderiam ser colocados à venda. Participações da Eletrobras e suas subsidiárias estão no radar.

 

Estamos trabalhando em um projeto de reestruturação e em uma nova estratégia da holding, bem como a de cada uma das coligadas e das distribuidoras. Temos 154 Sociedades de Propósito Específico embaixo da Eletrobras. A nossa meta é fazer um grande enxugamento nisso, mas temos de avaliar cada uma delas. Isso está sendo feito — disse o ministro ao GLOBO.

 

Celg: valor estimado de R$ 8 bi

Além dessas participações, a Eletrobras planeja se desfazer das distribuidoras de energia nos estados, ou pelo menos de parte desses ativos. A primeira a ser vendida é a Celg, de Goiás, onde a estatal tem 51% de participação. A companhia tem valor de mercado estimado em R$ 8 bilhões. Outras seis distribuidoras poderão ser vendidas, ou pelo menos parte dos ativos: Cepisa, do Piauí; Ceal, de Alagoas; Eletrobras Amazonas; Ceron, de Rondônia; Eletroacre, do Acre; e Bovesa, de Roraima. Também estão na lista a CEA, do Amapá; e a CERR, de Roraima, onde a Eletrobras tem apenas participação.

 

O Brasil está à venda. O grande problema dessas distribuidoras é má gestão da Eletrobras, que sofre com indicações políticas. Mas são empresas interessantes com um grande mercado e que vão dar retorno a seus investidores. A Equatorial, por exemplo, comprou a distribuidora do Maranhão e a do Pará, e as empresas já são lucrativas. O mesmo vai ocorrer com a Energisa, que comprou o Grupo Rede, que estava sob intervenção, e agora já se fala até em dividendos — diz Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da UFRJ.

 

A estratégia do governo é começar a se desfazer dos ativos da Eletrobras menores, como usinas eólicas, pequenas hidrelétricas e linhas de transmissão curtas. Isso porque são considerados ativos mais líquidos e com demanda garantida, conforme revelaram leilões recentes, segundo uma fonte do governo.

 

Na quarta-feira, o ministro Eduardo Braga recebeu o presidente do conselho da Eletrobras e atual diretor de Infraestrutura do BNDES, Wagner Bittencourt, para tratar da venda da Celg e debater o relatório da Roland Berger. Segundo Braga, o governo ainda espera procedimentos do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para vender a distribuidora goiana.

 

Apetite chinês

Mais do que arrecadar recursos para a União, a venda de ativos do setor elétrico visa a reduzir o endividamento da Eletrobras e fortalecê-la financeiramente nas áreas em que o governo considera fundamental a presença forte da estatal. Essa seria uma alternativa para resolver os problemas de caixa dentro da própria empresa, uma vez que o acesso a financiamentos ficou mais restrito, disse uma fonte.

 

Segundo especialistas, as distribuidoras vão atrair interesse dos investidores estrangeiros, sobretudo, os chineses.

 

Os grandes concorrentes serão os chineses até por causa do dólar — lembra Nivalde, explicando que os grupos nacionais estão sem caixa para investir nesses projetos.

 

Procurada para comentar suas projeções de investimentos e vendas de ativos, a Eletrobras limitou-se a enviar fato relevante sobre o Plano de Negócios 2015 a 2019, aprovado em 31 de julho, e informou que “qualquer comentário adicional será feito em comunicado ao mercado quando necessário”.

 

 

 


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