Cunha mantém influência em pelo menos cinco bancadas na Câmara

29/01/2016 11:44

Por Thiago Resende – Valor Econômico

 

BRASÍLIA - Desafeto do governo, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deve manter a capacidade de influir em partidos da base de apoio do Palácio do Planalto. Líderes próximos do pemedebista foram reeleitos. E, nos casos em que haverá disputa, aliados de Cunha tentam alçar aos cargos deputados alinhados a ele.Siglas que integram o governo, como PMDB, PP, PR, PTB e PSD, podem ser comandadas por parlamentares ligados ao presidente da Câmara.

Aliados de Cunha dizem que, apesar das denúncias e investigações contra ele, o pemedebista continua com força na Casa, mesmo que em intensidade menor se comparada ao começo do ano passado.

 

Governistas avaliam que a estratégia de se aproximar das deserções da base do Planalto pode ser uma forma de "sobrevivência de Cunha". Diante das chances de o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff ser enterrado na Câmara, a oposição pode "precisar menos dele" e tentar derrubar o governo via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), observa um líder alinhado ao Executivo.

 

A principal disputa para Cunha na retomada das atividades do Congresso Nacional, prevista para terça-feira, será o comando do PMDB, que detém a maior bancada na Câmara e tende a ficar com a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), instância onde será analisado o recurso contra a abertura de processo no Conselho de Ética para investigar o presidente da Casa por suposta quebra de decoro parlamentar.

 

Mesmo durante o recesso de janeiro, Cunha não deixou de vir a Brasília e participar das articulações para a escolha do novo líder do seu partido. Ele defende Hugo Motta (PB). Para isso, terão que derrotar Leonardo Picciani (RJ), atualmente no cargo, e que conta com apoio de quase toda a bancada mineira após Leonardo Quintão (MG) desistir da concorrência.

 

Fontes relatam que, se eleito, Picciani indicaria Rodrigo Pacheco (MG) ou Sérgio Souza (PR) para comandar a CCJ. Pemedebistas da ala pró-impeachment, que apoiam Motta, não revelam quem seria o escolhido para a Comissão, pois "é moeda de troca na votação". Cargos da Câmara estão na mesa de negociações. Enquanto o grupo de Picciani diz ter cerca de 45 dos 67 deputados do partido - o que daria ampla margem para vitória -, a campanha de Motta mantém o sigilo, lembrando que a votação secreta instiga traições.

 

Para liderar o PR e o PSD, Maurício Quintella (AL) e Rogério Rosso (DF), respectivamente, foram reconduzidos aos cargos. Os dois são assíduos frequentadores dos encontros na residência oficial de Cunha em Brasília. Deputados desses partidos têm articulado com Cunha no Conselho de Ética.

 

No PP, sigla que também deve haver disputa, o deputado Arthur Lira (AL), aliado do presidente da Câmara, tem encampado a candidatura do ex-ministro Aguinaldo Ribeiro (PB) para a liderança. Nos bastidores, parlamentares dizem que o movimento tem a benção de Cunha.

 

No caso do PTB, Jovair Arantes (GO) deve ser reeleito para a liderança da sigla na Câmara. Ele, assim como Rosso, se encontrou com Cunha esta semana em Brasília. Além disso, Jovair foi um dos cotados por parlamentares oposicionistas e dissidentes da base do governo para assumir a presidência da comissão que vai analisar o pedido de impeachment de Dilma.


Cabe aos líderes a escolha dos membros da comissão do impeachment, que deve ser instalada no fim de fevereiro ou em março. O novo líder do PMDB só deve ser conhecido no próximo mês. Picciani e Motta prometem consultar a bancada antes de anunciarem os oito deputados da sigla que vão compor o colegiado.

 

O PR, no entanto, já indicou. E, segundo fontes, nomeou apenas parlamentares que são contrários ao impeachment: Quintella, Aelton Freitas (MG), Marcio Alvino (SP) e Lúcio Vale (PA). A explicação, ainda de acordo com a apuração, é que as "questões Cunha e Dilma" são vistas de forma diferente.

 

O PSD tende a fazer o mesmo. Mas no PP há uma ala claramente oposicionista que pode conseguir cadeiras no colegiado. O PTB tem três vagas e Jovair pretende indicar Cristiane Brasil, que quer o impeachment de Dilma. Pedro Fernandes (MA) e Zeca Cavalcanti (PE) também estão na provável lista da sigla. Jovair, desde o fim do ano passado, preferiu não participar da comissão.

 

Interlocutores do Palácio do Planalto, como o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), calculam que Dilma tem votos suficientes para barrar o processo de impeachment. No entanto, a perspectiva é de que Cunha não deve - no curto prazo - ser afastado da presidência da Casa com o pedido feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal.