Depois da Olimpíada - ALBERT FISHLOW

21/08/2016 13:43
Depois da Olimpíada - ALBERT FISHLOW
ESTADÃO - 21/08
 
No passado, o Brasil mostrou uma impressionante capacidade de se recuperar
 
 
A Olimpíada chega ao fim. E o resultado foi melhor do que muitos temiam. Apesar das frustrações quanto aos resultados e alguns problemas de última hora, por culpa de nadadores dos EUA, o Brasil hospedou os Jogos de 2016 de maneira muito eficiente e gastando menos que britânicos e chineses. Zika e violência local não interferiram no brilho. Agora vem a parte mais difícil: a política doméstica. O impeachment da presidente Dilma evoluiu e parece certo quando o Senado se ocupar do assunto na próxima semana.
 
Mas essa unanimidade não se estende totalmente às responsabilidades futuras. O governo Temer terá problemas para reduzir o enorme déficit interno, não obstante a crescente confiança da sociedade e a possibilidade de um crescimento em 2017 melhor do que o previsto. Apesar do clima adverso que provocou aumentos dos preços de produtos agrícolas, o Banco Central está determinado a conseguir que a inflação fique em 4,5% no final de 2017. O que retardou a redução da taxa Selic, que se manterá até o fim deste ano.
 
Se a economia realmente atingiu seu nível mais baixo e o crescimento agregado for de 1,6% no próximo ano, como previsto hoje, não será nem preciso elevar os impostos.
 
As expectativas de crescimento estão divididas, com os economistas locais mais animados, ao passo que os bancos estrangeiros se mostram mais cautelosos. Os economistas brasileiros citam a confiança crescente observada nas várias pesquisas que medem a satisfação do empresariado com o governo. Isto levará a um aumento dos investimentos necessário para sustentar os avanços.
 
Os analistas estrangeiros ainda têm dúvidas quanto à determinação do governo no sentido de uma redução do déficit fiscal diante de problemas como a dívida estadual e municipal, aumento dos salários do setor público e outros que devem surgir. No passado, apesar de um Congresso refratário, o Brasil demonstrou uma impressionante capacidade de se recuperar de choques econômicos. A inflação não explodiu. Os mercados externos diversificaram. Os juros caíram. O investimento direto cresceu.
 
O ministro Henrique Meirelles está focado em dois dispositivos chave como seu Plano Real. Seu sucesso ajudará a impulsionar não só uma recuperação econômica, mas também seu potencial como candidato presidencial em 2018. No primeiro caso, tratam-se de regras que limitam os gastos públicas, não permitindo um crescimento real das despesas por vários anos. Assim, os familiares aumentos de impostos para contrabalançar a expansão constante dos gastos federais devem acabar. No segundo caso, são mudanças na legislação previdenciária com o fim de compensar um déficit maior agora que as mudanças demográficas já vêm alterando projeções feitas anteriormente.
 
Nos próximos anos, o Brasil observará um aumento surpreendente de indivíduos com mais de 65 anos de idade em comparação com a população economicamente ativa. O Brasil já utiliza uma porcentagem mais alta do PIB - Produto Interno Bruto - no pagamento das pensões do que outros países com nível de renda similar. O Congresso só debaterá seriamente essas propostas depois das eleições municipais de outubro, uma vez que seus membros ou devem disputar prefeituras ou estão em campanha em favor de candidatos do seu partido. No primeiro caso, emendas deverão ser votadas para aumentar os gastos públicos em saúde e educação. A questão de fato é até onde esses ganhos exigirão um crescimento das despesas totais.
 
No segundo caso, haverá um esforço para reduzir os ajustes anuais das aposentadorias por meio de mudanças na legislação do salário mínimo. Esta modificação de imediato afetará pouco o déficit, mas no futuro terá um impacto considerável. Estes esforços serão um teste da firmeza da nova aliança política de Temer.
 
O Brasil implementou com sucesso o Plano Real quando Itamar assumiu a presidência, de modo que há um precedente. Infelizmente existem poucas evidências de que somente uma política econômica melhor será o bastante para encorajar as tão necessárias reformas políticas. A Lava Jato tem mostrado que o Judiciário brasileiro é capaz de mudar o país num sentido positivo. Assim, talvez no futuro, veremos um número menor de partidos e um processo eleitoral mais restrito.
 
Afinal, ao que parece, Trump será derrotado nos EUA, o que dá esperança ao mundo inteiro de que a sensatez não desapareceu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
 
 

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