Dilma e o vírus zika – Editorial / O Estado de S. Paulo

27/01/2016 12:17

Não é difícil de perceber que o ministro da Saúde, deputado federal Marcelo Castro (PMDB-PI), é um pouco trapalhão com as palavras. Em menos de quatro meses no cargo, já acumulou inúmeras frases infelizes. Há males, no entanto, que vêm para bem. Sua recente declaração reconhecendo que o Brasil “perdeu feio” a batalha contra o mosquito Aedes aegypti ao menos trata com transparência um problema sério, que até agora a presidente Dilma Rousseff não enfrentou nem dá mostras de querer enfrentar com a devida severidade. Ela prefere divulgar sua irritação com as palavras do ministro e anunciar medidas demagógicas. Com esse modo de governar, o problema só tende a aumentar – do mesmo modo que cresce a mais que justificada irritação da população com a presidente da República.

 

É urgente combater eficazmente o mosquito Aedes aegypti. As palavras do ministro da Saúde, que tanta irritação causaram na suscetível presidente, mostram a dimensão do problema. “Nós temos 30 anos de convivência com o Aedes aegyptiaqui no Brasil. Disse e vou repetir, sem querer culpar ninguém: acho que houve uma certa contemporização com o mosquito. Mas agora a situação é completamente diferente. Além da dengue, o mosquito está transmitindo chikungunya e zika”, afirmou o ministro da Saúde, após reunião com a presidente Dilma.

 

Essa é a dramática realidade, que deve ser enfrentada responsavelmente. É sabido que o combate ao Aedes aegypti depende da participação da população, para evitar os focos de proliferação do mosquito. A calamitosa situação brasileira – cujos efeitos começam a se espalhar internacionalmente – é fruto do descaso de muitos cidadãos. Reconhecer esse fato não significa, no entanto, eximir de responsabilidade o governo federal, como parece almejar a presidente da República.

 

Se o combate ao mosquito exige a colaboração da população, é dever do governo federal fazer as devidas campanhas de comunicação e de alerta à população. Não basta dizer que já fez algumas campanhas. Se o problema persiste – na verdade, ele vem se agravando –, é necessário fazer mais e fazer melhor. Diante de tão grave problema de saúde pública, o mínimo que se espera é que o governo coloque todos os meios que estão ao seu alcance para estimular a população a adotar os cuidados necessários para evitar a proliferação do mosquito.

 

Não é, no entanto, o que se tem visto. A presidente Dilma adota postura demagógica, na qual a principal preocupação não é o mosquito Aedes aegypti, e sim a imagem de seu governo. Em primeiro lugar, a presidente Dilma não transmite com transparência à população a gravidade da atual situação. Nas vezes em que integrantes do governo o fazem, como o ministro Marcelo Castro, a presidente da República faz saber que ficou irritada.

 

Depois, para que a população não tenha qualquer dúvida a respeito do grau de confusão do atual governo, são prometidas medidas de baixíssima eficácia. Anunciou-se, por exemplo, a ida das Forças Armadas às ruas para combater o mosquito. Ou também que 400 mil mulheres grávidas, participantes do programa do Bolsa Família, receberão repelentes gratuitamente.

 

Essa parece ser a exata medida da responsabilidade do governo federal. Sem utilizar os meios de que dispõe para promover uma mobilização da população contra o mosquito – justamente esse governo que é tão entendido em marketing e marqueteiros –, prefere fazer depender a saúde das gestantes e de seus filhos da eficácia dos repelentes. Um governo sério ficaria envergonhado de anunciar tamanha irresponsabilidade. O governo Dilma, porém, faz isso com a maior normalidade.

 

Não é compartilhando irritações que a presidente Dilma Rousseff deve enfrentar o grave problema de saúde pública causado pelo mosquito Aedes aegypti. É hora de assumir a responsabilidade pelo que está aí e agir consequentemente, com campanhas efetivas de comunicação. Está em risco a saúde da população e, como disse o ministro, até agora o País está perdendo feio.


 


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