Dilma, o dia seguinte

14/09/2015 09:54

Dilma, o dia seguinte

Carlos Alberto Di Franco

Por *Carlos Alberto Di Franco

O vice-presidente Michel Temer, sempre prudente e calculista, lançou um míssil contra o governo Dilma Rousseff. Em encontro com empresários e movimentos de oposição, Temer comportou-se como um analista político, e não como o companheiro de chapa de Dilma, ao dizer que a presidente dificilmente chegará ao final de seu mandato se mantiver uma popularidade de apenas um dígito. “Hoje o índice (de aprovação) é realmente muito baixo. Ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo. Se continuar assim, 7% de popularidade, de fato fica difícil passar de três anos.”

Temer é uma raposa experiente. Suas declarações refletem a percepção do médico diante de um paciente terminal. O governo Dilma Rousseff apresenta um quadro de falência administrativa irreversível. Não tem volta. A renúncia seria a saída mais nobre, inteligente e menos traumática. O impeachment, à semelhança das dolorosas agonias, pode ter desenlace demorado e sofrido.

A opinião pública está cansada do autoritarismo ideológico e da incompetência lulopetista. A máquina do governo está parada, o desemprego aumenta, o investimento sumiu. A crise econômica não tem precedentes. O pessimismo, com sua forte carga psicológica, amplia a gravidade do quadro. A sociedade quer virar a página. É por aí mesmo. Mas é preciso ir devagar com o andor. A saída de Dilma dará uma oxigenada momentânea. Mas não significará, necessariamente, uma mudança substancial.

O modelo de governo de coalizão e os personagens que compõem o cenário político brasileiro não são nada animadores. Sem uma reforma política profunda, não cosmética ou para acomodar interesses subalternos, tudo terminará em revolta, decepção e, talvez, em perigosa porta de entrada para aventureiros, oportunistas e autoritários. Hugo Chávez não foi fruto do acaso. Foi o resultado direto da corrupção sistêmica, da injustiça social e do esgotamento do modelo político venezuelano. Deu no que deu.

Dilma será, em princípio, sucedida por Michel Temer. Trata-se de um bom constitucionalista e político experiente. Tem a vantagem de estar numa fase da vida em que a preocupação com a biografia costuma superar desvios e imediatismos. Seu suporte, no entanto, é o velho PMDB, partido de grande força e capilaridade, mas com fragilidades éticas importantes.

Chegou a hora da verdade para os políticos e governantes. A sociedade está farta da empulhação. Os culpados pela esbórnia com dinheiro público, independentemente dos partidos e da posição que ocupem na cadeia corruptora, devem ser exemplarmente punidos. E isso não significa, nem de longe, ruptura do processo democrático, golpismo ou incitamento à radicalização.

A sociedade não pode se limitar ao clamor pela saída da presidente. É preciso construir uma agenda de reconstrução nacional: reforma política profunda (com revisão do modelo de governança de coalizão), corte efetivo de gastos públicos, enxugamento do Estado, Ministério de alto nível técnico e ético. O governo Dilma acabou. É preciso pensar e focar no dia seguinte.

 

*Advogado e Doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra