‘Dilma sabia de tudo’, diz Cerveró em anotação

26/11/2015 09:50

No documento de sua delação premiada, ex-diretor da Petrobrás fez anotação à mão na qual cita a presidente sobre compra de Pasadena

Mateus Coutinho, Valmar Hupsel Filho e Andreza Matais – O Estado de S. Paulo

 

Na minuta da delação premiada do ex-diretor internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró, há anotações do executivo à mão dizendo que a presidente Dilma Rousseff “sabia de tudo de Pasadena” e até mesmo estaria cobrando o então diretor pelo negócio, tendo feito várias reuniões com ele. O acordo de Cerveró foi firmado com a Procuradoria-Geral da República e submetido ao ministro do Supremo Teori Zavascki, que ainda não decidiu sobre sua homologação.

 

O fato veio à tona nas conversas gravadas entre o líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, o advogado Edson Ribeiro, que defendia Cerveró, e o filho do ex-diretor, Bernardo Cerveró. No diálogo, o senador revela que teve acesso ao documento sigiloso da dela- ção do executivo por meio do banqueiro André Esteves, CEO do banco BTG Pactual, e questiona as citações à presidente manuscritas na minuta do acordo de delação.

 

Na gravação, o filho de Cerveró confirma que as anotações são mesmo de seu pai. Os áudios dos encontros do político com o advogado, gravados por Bernardo Cerveró, foram utilizados pela Procuradoria-Geral da República para pedir a prisão de Delcídio, André Esteves, Edson Ribeiro e o chefe de gabinete do senador.

 

No documento, conforme menciona Delcídio na gravação, há referências de que Dilma “sabia de tudo” e ela “estava acompanhando tudo de perto”, tendo até mesmo cobrado Cerveró sobre o negócio.

 

A aquisição da refinaria de Pasadena é investigada por Polícia Federal, Tribunal de Contas da União e Ministério Público por suspeita de superfaturamento e evasão de divisas. O conselho da Petrobrás autorizou em 2006, quando Dilma era ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal,a compra de 50% da refinaria por US$ 360 milhões.

 

Posteriormente, por causa de cláusulas do contrato, a estatal foi obrigada a ficar com 100% da unidade, antes compartilhada com uma empresa belga. Acabou desembolsando US$ 1,18 bilhão – cerca R$ 2,76 bilhões. Segundo apurou o TCU, essas operações causaram um prejuízo de US$792milhões para a Petrobrás.

 

Em carta encaminhada ao Estado no ano passado, a presidente afirmou que a decisão foi tomada com base em um parecer “técnica e juridicamente falho”.

 

Busca e apreensão. A investigação sobre o caso foi encaminhada ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato, e, por meio de delações, lobistas e ex-executivos da estatal confirmaram que houve o acerto de propinas no negócio para atender “compromissos políticos”. Diante disso, foi deflagrada a 20.ª etapa da Lava Jato que determinou buscas e apreensões nos endereços de ex-funcionários da estatal envolvidos no negócio.

 

Não é a primeira vez que o ex-diretor tenta envolver a presidente no escândalo da Petrobrás. Em janeiro, o executivo chegou a citar Dilma como sua testemunha de defesa em um dos processos que ele respondia na Justiça Federal no Paraná. Na ocasião, após o fato ser revelado, a defesa do executivo recuou e, em menos de uma hora, substituiu a testemunha.

 

O Palácio do Planalto informou que não vai se manifestar sobre o caso.


 


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