Dirceu atribuirá indicação de Duque ao PT, que reage

27/01/2016 07:30

Delator diz que ex-ministro fez 113 voos em seus jatos como parte de propina

Petista será interrogado pela primeira vez pelo juiz da Lava- Jato, Sérgio Moro, na sexta-feira, e, segundo seu advogado, poderá revelar nomes para se defender de acusações que pesam contra ele

 

Preso há seis meses pela Lava- Jato, o ex-ministro José Dirceu será ouvido pela primeira vez pelo juiz Sérgio Moro na sexta- feira, quando pretende “se defender e contestar” as acusações que pesam contra ele, segundo seu advogado Odel Antun. “O que pode acontecer é surgirem nomes”, diz o advogado, afirmando que Dirceu vai confirmar declaração do delator Fernando Moura de que foi o diretório do PT de São Paulo, e não ele, quem indicou o ex-diretor da Petrobras Renato Duque para o cargo. O presidente do PT- SP na época, Paulo Frateschi, reagiu e disse desconhecer Duque. Outro delator, Júlio Camargo, contou que Dirceu usou seus jatinhos 113 vezes, em 2010 e 2011, como pagamento de propina por desvios na Petrobras.

 

PT na mira de Dirceu

 

Estratégia do ex-ministro é atribuir ao partido, e não a ele, indicação para direção da Petrobras

 

Cleide Carvalho – O Globo

 

- CURITIBA, SÃO PAULO e BRASÍLIA- O ex- ministro José Dirceu decidiu se defender abertamente das acusações contra ele na Operação Lava- Jato, estratégia que poderá atingir o PT. Segundo sua defesa, ele deverá confirmar ao juiz Sérgio Moro, em audiência marcada para sexta- feira, que a indicação de Renato Duque para a Diretoria de Serviços da Petrobras partiu do diretório estadual do PT de São Paulo, e não dele. Essa versão, que compromete a cúpula petista, foi dada pelo lobista Fernando Moura em depoimento a Moro semana passada.

 

Quem teria articulado a nomeação de Duque teria sido o então secretário-geral do partido, Sílvio Pereira. Em depoimento à Justiça na última sexta-feira, Moura disse que Dirceu só foi chamado à reunião onde foram decididos os nomes que comandariam a Petrobras para desempatar a disputa entre Duque e Irani Varella, que já era diretor de Serviços da Petrobras no governo Fernando Henrique.

 

Ele não vai denunciar ninguém. Vai se defender e contestar. O que pode acontecer é surgirem nomes. Milton Pascowitch mentiu. Ele usava o nome do Zé (José Dirceu). Quem estava com milhões e teve de devolver foi ele. Com o Zé não foi encontrado dinheiro nenhum. Se o Dirceu não tinha dinheiro, onde está o dinheiro que dizem que foi para ele? Ele prestou serviços de consultoria e recebeu. O resto foi ajuda dada pelo Milton, que nunca falou que era dinheiro de propina — disse Odel Antun, advogado do ex-ministro.

 

Defesa diz que Milton Pascowitch mentiu

Segundo o advogado, ao contrário de outros acusados na Lava- Jato, Dirceu se defenderá de todas as acusações que lhe são feitas, principalmente pelo delator Milton Pascowitch. O advogado afirmou que há contradições nos depoimentos dos delatores que envolvem o ex-ministro nas irregularidades da Petrobras e que a defesa usará o depoimento de Moura, que, segundo ele, “mostra claramente que Dirceu não participou da indicação”.


Toda a denúncia é fundada na informação de que Dirceu indicou Duque para o cargo, e que isso permitiu que fosse feito o gerenciamento de propina. Mas o depoimento do Fernando Moura, um dos delatores, mostra que não foi ele quem indicou. Ele não conhecia nenhum dos indicados, todos lhe eram desconhecidos. Foi o diretório do PT de São Paulo que indicou — afirmou Antun.

 

Na última sexta-feira, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, Moura afirmou que Sílvio Pereira e Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, sonhavam com cargos altos. Sílvio, com a presidência dos Correios; Delúbio, com a do BNDES.

 

Ao juiz, Moura disse que no final de 2002, após a vitória do PT nas eleições presidenciais, havia dois indicados à Diretoria de Serviços da Petrobras. Duque, levado por Silvio, por sugestão do empresário Licínio de Oliveira Machado Filho, da Etesco; e Varella, indicado por Delúbio, por recomendação de Dimas Toledo, que foi diretor de Furnas no governo FH e seria ligado ao senador Aécio Neves (PSDB- MG).

 

Nas escolhas dos nomes, segundo teria relatado Sílvio a Moura, estavam presentes o próprio Sílvio; Delúbio; José Eduardo Dutra (falecido em 2014), que assumiu a presidência da Petrobras em 2003; Luiz Gushiken, ex-secretário de Comunicação (também já falecido); e a presidente Dilma Rousseff, na época integrante da equipe de transição.

 

O lobista disse que o impasse só foi resolvido após Dirceu saber quem indicara Duque e Varella. Moura contou que Delúbio não queria dizer que a indicação de Varella era dele e a atribuiu a Aécio Neves. Chamado a opinar entre os dois e a desempatar a decisão, Dirceu teria decidido por Duque, argumentado que Aécio já havia sido favorecido: “O Aécio já foi contemplado com a indicação do Dimas. Então, fica o Duque”, teria dito Dirceu segundo depoimento do lobista.

 

Dimas Toledo havia sido mantido no cargo pelo PT e só deixou Furnas no governo Lula, envolvido no escândalo conhecido como “a lista de Furnas”, pagamento de propina para beneficiar políticos.

 

Perguntado se Dirceu está disposto a denunciar outros nomes do PT e quem no diretório de São Paulo estaria aliado a Sílvio Pereira, o advogado afirmou que não conversou com seu cliente após o depoimento de Moura. Por isso, afirmou, não sabe dizer se Dirceu citará outros nomes

 

Paulo Frateschi, que presidia o Diretório do PT em São Paulo em 2002, negou ter participado da escolha de Duque:

 

Nem conheço o Duque, nunca vi. Não fui eu, não participei de nada disso — disse.

Segundo o petista, a direção paulista indicou, na época, nomes apenas para cargos de representação do governo federal no estado.

 

Tinha alguns cargos que eram do governo federal em São Paulo. Fazíamos sugestões para esses cargos. Algumas foram acatadas, outras não. 

 

(Colaboraram Letícia Fernandes e Sérgio Roxo)