Ditados de Helenita e a juíza retirada da Zelotes

07/11/2015 22:55
Por Vitor Hugo Soares - Jornalista
Vitor Hugo Soares
 
Para escrever sobre o afastamento da juíza Célia Regina Ody Bernardes do comando da Operação Zelotes e das querelas políticas, jurídicas e sociais da semana, no Brasil, percorro as páginas do livro “Como diz o Ditado...”, da médica e pesquisadora Helenita Yolanda Monte de Hollanda. Busco auxílio no saber popular que ela recolheu durante décadas, e agora oferta generosamente aos leitores, em cada uma das quase 500 páginas de uma obra seguramente destinada a ser referencial no gênero e conteúdo.
 
História bonita e exemplar de uma autora e seu livro. Desde as primeiras lembranças e relações familiares na infância e juventude, em Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde Helenita nasceu. Depois, no exercício humanitário da medicina no interior do Nordeste, especialmente na Bahia. Finalmente, durante anos de séria e intensa pesquisa acadêmica, até a publicação desta obra original e inspiradora, recentemente editada pela Assembléia Legislativa da Bahia.
 
Assim, com grande prazer intelectual, o jornalista se envolveu no labirinto de que fala o médico Carlos Gilberto Widmer, no prefácio, enquanto procurava um adágio, um provérbio, um dito gírias matutas, um ditado que o ajudasse no tríplice desafio pessoal e profissional: a exata narrativa do fato jornalístico em si, a justa reflexão sobre o caso e a opinião sem titubeios ou cumplicidades pusilânimes, como requer a notícia do afastamento da juíza Célia Regina do comando da Operação Zelotes, nesta semana de começo de novembro.
 
E as embrulhadas que ainda seguem nas entrevistas, cheias de curvas e desvios, do ministro da Justiça, Eduardo Cardozo; das notas mal alinhavadas de dirigentes e representantes de órgãos da Justiça Federal; dos pronunciamentos dúbios e pouco convincentes de entidades corporativas (que mal conseguem disfarçar os atrelamentos de interesses diversos, aos donos do poder da vez e a trupe suspeita de envolvimento no caso. A exemplo do empresário Luís Cláudio Lula da Silva, provavelmente o motivo principal de toda essa algazarra e temores.
 
Principalmente das estranhas e suspeitas entrevistas dos dois juízes que disputam, entre si e entre seus pares, quem vai tocar, a partir de agora, as importantes, graves, delicadas e polêmicas investigações: O juiz titular da 10ª Vara, Vallisney de Souza Oliveira, que repentinamente retorna ao cargo depois de passar um ano no posto de juiz auxiliar no Superior Tribunal de Justiça (STJ); e o primeiro juiz substituto Ricardo Leite, com férias marcadas para os próximos dias que, “ab-ruptamente” (como dizia o saudoso professor Carlos Caetano, nas aulas do Colégio Central da Bahia) também decidiu seguir no batente, o que obriga o afastamento da juíza da 10ª Vara da Justi&c cedil;a Federal e, consequentemente, do comando da Zelotes. “Amaldiçoado seja quem pensar mal destas coisas”, diriam os irônicos e sempre atentos franceses.
 
Apesar do desfecho previsível e anunciado desta história nada alentadora, mas típica dos tempos temerários que correm no Brasil, o fato desconcerta e causa desconforto, mesmo com todos os mascaramentos utilizados até aqui. Afinal, tudo isso acontece poucos dias depois da magistrada, Mestre em Filosofia, adepta do pensamento de Michel Foucault (com livro publicado sobre o filósofo), ter retirado quase da sepultura e jogado potentes focos de luz em volta das muitas sombras que ainda – e cada vez mais – rondam este escabroso caso. Que levou à prisão advogados e lobistas acusados de manipular decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e de comprar benesses em medidas provisórias para montadoras de carros.
 
“A adversidade faz os heróis”. Recolho a verdade popular, com registro de número 1 (em ordem alfabética), no Adagiário do livro de Helenita de Hollanda (página 34). Considero o ditado quase perfeito para ilustrar o caso e a situação da juíza Célia Regina, que agora parece ser castigada por seus superiores (e pelos atuais donos do poder político e jurídico) exatamente por seus méritos: agilidade, competência e coragem.  A sociedade observa.
 
“É melhor ser invejado do que lamentado”. Deparo mais adiante com outro adágio, também sob medida para o perfil da juíza deste caso em pauta. Está na página 127 de “Como Diz o Ditado”, da autora, que há décadas mora na Bahia, dedicada ao exercício da medicina social e humanitária nas áreas mais pobres do estado, gente carente de quase tudo, menos da enorme sabedoria compartilhada com a médica e escritora.
 
O tempo, senhor da razão, dirá qual dos dois ditos se encaixa melhor ao caso, à situação e ao perfil de sua principal personagem. Antes do ponto final destas linhas, porém, mando um Bravo para a juíza Célia Regina (“o tempo só é ruim para quem não sabe esperar”). E o aplauso, acompanhado de forte abraço e agradecimentos à médica escritora, pelos ensinamentos do seu delicioso e notável livro.
 
 

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