Do Nobel, da racionalidade e da moralidade

20/10/2017 13:15
ECONOMIA - Do Nobel, da racionalidade e da moralidade
João Pires da Cruz - De Portugal
 
O ecossistema que usa expressões como “especuladores da economia de casino” ou “fundos abutres” assenta num puritanismo antieconómico e em ideologias com 150 anos que há 149 que se sabe serem erradas.
 
Nos vários artigos que tive oportunidade de escrever, e o leitor a caridade de ler, tento transmitir que economia está longe de ser o sistema mais intuitivo entre aqueles que rodeiam a nossa vida. Esta visão raramente é coincidente com a dos economistas porque, como faço questão de sublinhar na assinatura, não sou economista. Só tenho a felicidade e a honra de poder fazer vida a partir da análise e tratamento de dados de relações económicas, para fazer disso informação. E tenho o atrevimento de pensar que uma visão construída a ultrapassar as dificuldades do tratamento desses dados, acrescenta alguma coisa àquilo que os economistas pensam. Resumindo, trabalhamos sobre o mesmo sistema, mas não o vemos da mesma maneira a maior parte das vezes.
 
O assunto que me traz hoje está relacionado com essa diferença de ver as coisas, com a atribuição da medalha do Banco da Suécia para a economia, vulgarmente designada por Nobel (sim, é por inveja que não reconheço o da Economia como um Nobel a sério, mas matava para receber a “carica”…), a Richard Thaler, pelo seu contributo na área da economia comportamental.
 
A visão dos economistas sobre o assunto é fácil de encontrar, mas recomendo dois dos melhores: Luís Aguiar Conraria, no Observador e Sandra Maximiano, no Expresso. Se quiser ficar pela visão da Economia, a leitura de ambos deixa pouco por descobrir. Mas para resumir de forma grosseira o que está em causa, aquilo que foi desenvolvido por Thaler é o desvio que os agentes económicos apresentam daquilo que seria racional, considerando como racional a persecução de um objetivo de satisfação das necessidades e maximização do capital ou da felicidade ou daquilo que entendermos como o nosso papel na economia. O comportamento racional dos agentes é aquilo que é assumido como pressuposto pela mais bem-sucedida teoria económica, a chamada Teoria Neoclássica. Isto num par de frases. Para mais informação peço o favor de recorrerem aos dois artigos referidos.
 
A fundamental reclamação dos economistas ligados à economia comportamental é que várias (muitas) experiências mostram que os agentes económicos se desviam do racional, o que, por sua vez, mostra que o pressuposto da racionalidade dos agentes associado à Teoria Neoclássica não é válido. Espero que nos parágrafos seguintes o possa convencer que isto é um disparate. Uma coisa e outra não estão sequer relacionadas.
 
O sistema económico é complexo e contra-intuitivo porque a economia passa-se ENTRE as pessoas, não NAS pessoas. O pior é que aquilo que se passa entre as pessoas não é mensurável, só o efeito que tem nas pessoas. O que isto significa é que qualquer que seja a relação económica em estudo, este envolve duas pessoas. E precisamos de medir nas duas pessoas para sabermos o que a relação é, isto é, o que aquele pedaço atómico de economia significa. Assim, vamos imaginar que temos uma espécie de drone que está a ver a economia “de cima” e instalamos uma sonda. Em cada relação económica, se no abstrato existir uma racionalidade, o drone vai ver dois agentes: o sub-racional, que aceita menos que aquilo que a racionalidade impunha e o super-racional, que vai obter mais que aquilo que a racionalidade previa. Um que ganha mais que devia e outro que perde mais que devia. Mas, sem grande esforço matemático, podemos dizer que serem ambos racionais é perfeitamente equivalente a serem ambos irracionais. Certo? Ter um a perder 200 e outro a ganhar 200, é exatamente o mesmo, em termos de sistema, que ter dois a ganhar zero. Mais que um pressuposto da Teoria Neoclássica, a racionalidade dos agentes é uma consequência física da existência do sistema e qualquer que seja o diferencial de racionalidade dos agentes presentes na relação, 200, 1000 ou 40 milhões, o resultado é numericamente equivalente a ter dois com um diferencial zero.
Então Thaler não percebe nada disto? Mais devagar. Vamos agora tirar a sonda do drone e “enfiá-lo” num dos agentes e a medir apenas o que acontece por lá. Como só estamos a ver um dos lados da relação, não observamos o efeito de compensação que víamos “de cima”. O agente que estamos a medir vai comportar-se de forma sub-racional umas vezes, super-racional outras e de forma racional quase nunca. Quase nunca porque aquilo que é justo ou racional para uns, é irracional ou injusto para outros. Se do ponto de vista científico, quem assume a racionalidade dos agentes vai chegar mais longe na explicação da fenomenologia do sistema, do ponto de vista da engenharia a economia comportamental é uma ferramenta extraordinária. A exploração das irracionalidades alheias na formação de preço nas empresas e no aproveitamento dos comportamentos irracionais dos clientes parece ser um caminho incontornável. Não ajuda em nada na leitura de um sistema ou na retirada de conhecimento a partir dos dados porque economia envolve sempre um par de agentes, mas é muito mais útil na gestão de um negócio porque todos os negócios são geridos por cada um dos lados de uma relação económica.
 
Por isso, a diferença entre a Teoria Neoclássica e a Comportamental é, basicamente, nenhuma. São duas perspetivas diferentes do mesmo sistema usando referenciais diferentes e, por isso, obtêm medidas diferentes da mesma realidade. Repare-se, no entanto, que esta mudança de referencial é a coisa mais natural de o ser humano fazer, atendendo que ele é parte do sistema e, como tal, um dos lados das relações económicas. O que não é natural é conseguir ver as coisas “de cima”, daí, também, a beleza da abstração associada à Teoria Neoclássica.
 
Mas a aplicação dos resultados obtidos pelos economistas comportamentais não é isenta de perigos. Não porque alguém vá inventar uma técnica absolutamente infalível para enganar os seus semelhantes. Mas porque os economistas meteram na cabeça que se podem desenvolver modelos prescritivos, isto é, conjuntos normativos com o objetivo de gerar e regular os comportamentos dos agentes económicos. É com base nisso que sobem e descem taxas de juro de referência, por exemplo, pelo efeito temporário que tem no comportamento dos agentes. Ora, um modelo prescritivo com base comportamental resvala facilmente para moralismo e o efeito temporário para permanente. Vejamos que a moralidade vem do mesmo referencial que a racionalidade, não olha a economia “de cima”, mas de um lado da relação económica, nunca deveria servir para produzir normas de natureza económica.
 
O ecossistema de economistas que usa expressões como “especuladores ao serviço da economia de casino”, “fundos abutres” e “economia de usura”, expressões que encerram em si mesmo uma consideração moral sobre a atividade em causa, tem já entre nós uma importância exagerada. Um ecossistema baseado num puritanismo antieconómico e em ideologias com 150 anos que há 149 que se sabem erradas. Seria terrível se estes pequenos fascistas que tentam limitar a todo o custo toda a atividade económica, que não percebem e tiveram preguiça de estudar, recebessem deste reconhecimento do valor da economia comportamental uma dose de oxigénio adicional para mais 150 anos. E nós sabemos como é tão mais fácil produzir leis e regras com base na novela da noite do que no raciocínio lógico.
 
Já sofremos hoje bastante com moralismo. Como exemplo, o erro matemático que esteve subjacente à crise do crédito nos EUA continua sem ser apontado como causa porque as pessoas continuam muito mais interessadas em procurar causas morais. É socialmente mais aceitável colocar as culpas na cobiça, na desonestidade, na futilidade ou no poder desviante do dinheiro. Nunca ninguém representou um culpado da crise com óculos de massa, camisa aos quadrados e cabelos desgrenhados porque a culpa não pode estar num académico qualquer que desenvolveu um modelo de equilíbrio para um sistema que nunca o foi. A culpa é sempre de alguém com fato de excelente corte, gel no cabelo e barbeado impecável, um qualquer “abutre” que ficará à espera que o camelo passe pelo buraco da agulha para conseguir entrar no céu, apesar do seu maior crime foi ter confiado nos contributos do académico. E muito devido a esta causa moral, o mesmo modelo errado continua a fazer parte das regras de regulação bancária na Europa, cuja catástrofe anunciada continua a ser adiada, enquanto os nossos esforços continuam a ser canalizados numa demanda talibã contra o pecado da cobiça.
 
Resumindo, o prémio é bem dado, os resultados parecem vir a ser excelentes peças de engenharia e não parecem impactar em nada aquilo que são as (poucas) bases cientificas que vão sustentando o estudo da economia. Mas, por favor, impeçam os economistas comportamentais de se chegarem à possibilidade de fazer normas.
 
 
PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer
 
 

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