Documento do PMDB dá oportunidade para Dilma – Editorial / O Globo

19/11/2015 09:52

À parte análises e especulações em torno dos propósitos do vice Michel Temer com o documento econômico do partido, ele serve de base a uma ampla negociação com o governo

 

Fritura de ministro da área econômica pelo núcleo do poder é parte da crônica política do país toda vez que a economia entra em pane. Compreensível. Mas a situação se agrava quando esse tipo de conspirata degrada ainda mais o próprio cenário econômico, num certeiro tiro no pé. Louve-se, portanto, a coragem da presidente Dilma de, antes de embarcar de volta na Turquia, depois da reunião do G-20, respaldar o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o qual figuras estreladas do PT desejam debilitar. “Fica onde está", enfatizou a presidente.

 

Assim, Dilma concede ao ministro a força de que ele necessita para avançar na direção correta num imprescindível ajuste fiscal. Sem ele, insista-se, os horizontes da economia não se desanuviarão, as pressões inflacionárias se manterão e investidores e consumidores continuarão recolhidos, enquanto o PIB encolhe e persiste a onda de desemprego. Uma queda livre no princípio profundo de uma recessão poucas vezes vista no país.


Terça-feira, no dia seguinte ao da declaração de Dilma de respaldo a Levy, o PMDB, formalmente o segundo maior partido da base do governo, lançou, em um congresso da legenda, de forma oficial, o documento “Uma ponte para o futuro”. Trata-se de um texto bem articulado, com propostas consistentes para o Brasil sair do atoleiro para onde foi levado desde que a partir do segundo mandato de Lula e no primeiro de Dilma o programa do velho PT foi aplicado sob o nome fantasia de “novo marco macroeconômico”.

 

O PMDB não pode ser comprado pelo valor de face, sabe-se. Nunca é de fato o que parece, porque se trata de uma federação de tendências, mantidas no mesmo barco pela proximidade dos cofres públicos e pela perspectiva de se manter neste mesmo lugar, independentemente de quem esteja no Planalto. Foi assim nos governos do PSDB, é assim nos do PT, será assim sempre.

 

Mas é certo que o partido, por meio do vice-presidente da República, Michel Temer, e presidente da legenda, conseguiu, com este documento, firmar um referencial na crise política que permite negociações sobre um projeto de efetiva solução da séria crise econômica.

 

Há diversas especulações e análises sobre o objetivo peemedebista com o lançamento das propostas. Seria a plataforma para Temer negociar o apoio a seu governo, na eventualidade de Dilma sucumbir a um impechment.

 

Importa é que Dilma precisa do apoio do PMDB para fazer o necessário ajuste fiscal, incluindo reformas como a da Previdência, além de outras mudanças em leis e na própria Constituição, para impedir que as despesas públicas continuem a crescer mais que as receitas, fórmula infalível de uma debacle fiscal já em curso.

 

Este é o ajuste imprescindível. O documento do PMDB, baseado na visão correta de um ajuste estrutural, não deixa de ser um convite ao entendimento com Dilma. Ela deveria aceitá-lo.