Dora Kramer: Até que enfim

02/12/2015 15:30

O Estado de S. Paulo

A notícia dada pela pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana apontando a corrupção como o problema que mais preocupa os brasileiros chega tarde, mas é bem-vinda.

Já passava, e muito, da hora de o País encarar com seriedade essa chaga. Deixar de considerá-la como um mal necessário, uma característica inerente - e incontornável - aos meios e modos locais, um lema dos adeptos da convicção equivocada de que o exercício da política implica necessariamente o uso de “mãos sujas”.

 

Não que a sensibilidade tardia resolva a questão. No topo desse ranking de preocupações já figuraram temas como o desemprego, saúde e educação públicas, violência, inflação aí compreendida como a situação econômica de um modo geral e, nem por isso, tais questões chegaram perto de uma solução adequada.

 

O fato de a população se afligir com essa ou aquela mazela e pelo convívio com elas manifestar extrema insatisfação, não significa que Suas Excelências detentoras de poder para modificar o rumo das coisas ouçam o que lhes é dito. Portanto, não será a ascensão do tema ao nível de urgência máxima que levará à correção de condutas.

 

Mas, é um alento. Principalmente quando nos é tão próximo o tempo em que a maioria do eleitorado ignorou as evidências contidas no então em curso escândalo do mensalão e reelegeu com todas as honras Luiz Inácio da Silva, em 2006 e, depois, deixou de lado as condenações ordenadas pelo Supremo Tribunal Federal, entregando de novo o País ao comando do PT.

 

Antes disso, o País havia se mostrado indiferente às barbaridades proferidas pelo então presidente Lula que, além de emprestar solidariedade a todo e qualquer “companheiro” - do PT ou pertencente ao grupo que lhe dava apoio político - fossem quais fossem as suspeitas, acusações e/ou evidências de infrações que pesassem contra eles.


Ex-presidente. No exercício da Presidência por diversas vezes Lula atacou a Justiça, procurou desmoralizar quaisquer fontes de críticas, buscou aniquilar o contraditório e atacou com ferocidade aqueles que, ao seu juízo, lhe impunham obstáculos. Mesmo que estivessem no estrito cumprimento da lei. Exemplo disso, as pesadas críticas feitas por ele a órgãos de fiscalização, como o Tribunal de Contas da União.

 

Na visão de Lula, a suspensão de obras com indícios de irregularidades, por exemplo, representava um “entrave” para o desenvolvimento do País. Chegou a defender a punição de auditores que, segundo ele, atuavam com excesso de rigor. A “poderosa máquina de fiscalização”, na opinião do então presidente, atrapalhava o governo. Bem como a existência da imprensa livre que, segundo ele, deveria se limitar a “informar”. Naturalmente, o que fosse do gosto do poder.

 

Tais declarações eram perfeitamente aceitas. Não apenas pelos beneficiários diretos - dos programas assistenciais ou das benesses proporcionadas pelo BNDES -, mas também pelos entusiastas, imbuídos da convicção (ingênua, equivocada ou mal intencionada) de que assistiam à chegada do Brasil ao reino da justiça social patrocinada por um governo de “esquerda”, cujas práticas revelaram-se sinistras.

 

Ainda que o motor tenha sido o desconforto econômico, é de se saudar: até que enfim a ficha caiu.

 

Pior a emenda. O governo aceita a chantagem explícita do deputado Eduardo Cunha, o homem de uma arma só: a prerrogativa de admitir ou não o pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Afunda-se, com isso, um pouco mais no mar de lama que ronda o Planalto.

 

 


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