Dora Kramer: Miragens no deserto

15/11/2015 15:16

- O Estado de S. Paulo

É a tal história: o problema das soluções fáceis é que em geral estão erradas. Criam a sensação de que a luz no fim do túnel está à vista, mas não reúnem condições objetivas suficientes para que a saída esteja de fato ao alcance das mãos.

 

O jornalista Ivan Lessa costumava dizer que a cada quinze anos o Brasil se esquece do que ocorreu nos quinze anos anteriores. Verdade. Pior agora: o País parece ignorar também dados concretos da realidade presente.

 

É o que se vê no bate-boca sobre a saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda e nas boas intenções contidas nas propostas de conciliação nacional a partir de um diálogo entre governo e oposição nas figuras dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva.

 

Dois exemplos da maré de autoengano que assola o País afogado em crises. Para a política é sugerida uma proposição tão impossível quando ineficaz: o idílico entendimento entre Lula e FH. Pois bem. Consenso em torno do quê? Das premissas erráticas em que se baseiam as práticas políticas em vigor ou das visões completamente diferentes de mundo entre os dois?

 

Talvez fosse mais produtivo o aprofundamento das divergências que a insistência em convergências artificiais e baseadas em modelo considerado por todos falido. Neste caso, uma ruptura poderia construir o que o documento do PMDB chama de “uma ponte para o futuro”.

 

Para a economia, apresenta-se como solução a troca de Levy por Henrique Meirelles, como se o desastre tivesse sido inventado pelo titular da Fazenda e o sucessor pudesse recriar, num passe de vontade e presteza, as condições de um Brasil de mais de uma década atrás.

 

A fritura do ministro muito provavelmente acabará resultando na saída dele. E daí? Joaquim Levy nada mais fez que aquilo que lhe foi pedido por quem o chamou para o cargo. Ainda assim foi e tem sido boicotado desde o início por um PT que não aguenta o repuxo da dificuldade e atribui suas agruras ao rigor fiscal para disfarçar seus problemas de natureza moral e legal.

 

Além disso, enfrenta a apatia de uma presidente que não compartilha de suas convicções e a negligência de um Congresso que não se sente obrigado a dividir com Dilma Rousseff a responsabilidade dos erros cometidos por ela e ainda aproveita a chance de lhe dar o troco pelos maus-tratos.

 

Não tendo sido a ascensão de Levy o motivo da doença, não será sua queda o remédio eficaz.

 

Portanto, a discussão serve apenas para criar a falsa impressão de que é ele o problema quando a questão real é a cabeça equivocada e a personalidade inadequada de Dilma para o exercício do cargo e, em decorrência disso, a necessidade de que ela mude ou de que o governo seja mudado. Lato ou estrito senso.

 

Deixa estar. Com a mudança de posição em relação ao ajuste fiscal, ao apoio a Eduardo Cunha e a decisão de apresentar propostas para resolver a crise, o PSDB resolveu – tardia e teoricamente – abandonar a ideia de que é possível vencer na vida sem fazer força.

 

Constatado o prejuízo da inércia na evidência de que não capitalizou a insatisfação geral com o PT, o partido agora corre atrás de obter benefícios com atuação mais contundente. Até então os tucanos estavam agarrados à bandeira do impeachment e da esperança que o fracasso do governo lhe caísse no colo por gravidade.

 

O problema da nova tese é resultado prático, cujo êxito depende de atributos escassos entre o tucanato: firmeza, unidade, coragem e disciplina.