Dora Kramer: Pernas curtas

09/12/2015 07:56

- O Estado de S. Paulo

É a tal história: não se pode enganar a todos o tempo todo. Foi isso o exposto na carta do vice-presidente, Michel Temer, endereçada à presidente Dilma Rousseff, onde listou uma a uma todas as razões pelas quais é falsa a afirmação dela de que não desconfia “nem por um milímetro” do vice e do PMDB.

 

Se o Palácio do Planalto queria constranger Temer ao divulgar a carta, acabou exibindo a dubiedade do jogo do governo, trincando de vez o resto de confiabilidade do País na palavra da presidente. O PMDB pode não ser confiável, verdade, mas ela tampouco é digna de credibilidade. Situação mortal para um governante.

 

O uso da mentira não consta da Constituição como razão para a interrupção de um mandato presidencial. Na teoria, não é crime de responsabilidade. Na prática, denota a completa irresponsabilidade do Poder que dela faz uso permanente.

 

A carapuça se encaixa perfeitamente às cabeças do PT, do ex-presidente Luiz Inácio da Silva e da presidente Dilma que, depois de alguma hesitação, incorporou o hábito em sua plenitude, embora não com a competência dos companheiros hábeis no manejo das palavras, atributo com o qual Dilma não foi agraciada.

 

Mentir, aqui no nosso Brasil de todas as manhas, não leva presidentes à deposição – nos Estados Unidos por pouco não levou Bill Clinton ao impeachment –, mas, a depender da intensidade da mentira, o governante não escapa da perda da reputação. Dilma bate no peito a celebrar sua presumida honestidade.

 

Porque não rouba (não obstante deixe roubar) nem tenha contas no exterior (apesar de admitir durante a campanha que guardava dinheiro “no colchão”) ou não – ao que se saiba – se dê à prática de ocultar patrimônio, a presidente julga-se dona de reputação ilibada e, por isso, merecedora de toda confiança.

 

Mostra-se desonesta, porém, quando mente e deixa que seus auxiliares mintam. Para ganhar a eleição de 2010, embarcou na falácia de Lula sobre a excelência de sua capacidade administrativa. Para se reeleger, em 2014, criou uma fábula segundo a qual a oposição, se vencedora, jogaria o Brasil na recessão e no retrocesso. Foi desmentida pelos fatos.

 

Da mesma forma como a realidade desmentiu Lula na ideia de demonstrar a “farsa do mensalão” ou como a Operação Lava Jato mostrou o quanto falsa era a versão da presidente Dilma de que tudo ia “bem na Petrobrás”.

 

Embora não tenha tido a intenção de divulgar, mas de fazer da carta à presidente uma pauta para conversa futura entre os dois, Michel Temer, por via torta, acabou prestando um serviço ao País ao demonstrar que mentira tem limite e preço.

Ainda que não tenha sido essa a intenção, o vice-presidente teve um ato de coragem.

 

Antes cedo. Há uma razão para o senador José Serra discordar da ideia de postergar ao máximo o andamento do processo de impeachment, defendida pela oposição em geral, PSDB em particular.

 

Serra acha que quanto mais rápido isso de resolver, mais chance o governo de transição – no caso de ser aprovado o impeachment – teria para mostrar resultados ao País em termos de recuperação da economia e, em decorrência, os condutores conseguirem obter benefícios eleitorais em 2018.

 

Não é segredo para ninguém que, configurada a substituição de Dilma por Michel Temer, o senador tucano seria o homem-chave nesse setor. Estaria, assim, aberta a ele a possibilidade de repetir Fernando Henrique Cardoso quando assumiu o ministério da Fazenda no governo tampão de Itamar Franco.


 


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