Dora Kramer: Posicionado está

06/12/2015 16:10

 O Estado de S. Paulo

O fato de o vice-presidente, Michel Temer, não tomar posição em relação ao processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff já significa uma tomada de posição. Quer dizer que para ele e para o PMDB qualquer resultado é bom. Em palavras cruas, o que vier é lucro.

 

Substituto da presidente em qualquer ocasião, eleito e reeleito com ela, presidente de um partido que ocupa meia dúzia de ministérios, seria natural e esperado que Temer fizesse alguma declaração, ainda que formal, de contrariedade. Calou-se e, portanto, consentiu na legalidade e propriedade do tema.

 

O governo bem que tentou. O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, ousou mesmo colocar na boca do vice, palavras que não tinham sido ditas por ele ao “informar” que Michel Temer não reconhecia a existência de embasamento constitucional no pedido apresentado por Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal. Apostou nas maneiras fidalgas de Temer, acreditando que o vice avaliaria no mínimo como falta de educação um desmentido, mas perdeu.

 

Michel Temer não se deu ao trabalho de responder pessoalmente: mandou que a assessoria divulgasse o desmentido. Tratou o governo como foi por ele tratado, com propositada – e perfeitamente estudada – indiferença.

 

Afinal, poderia soar oportunisticamente hipócrita aos ouvidos dele o argumento de que tem o dever de defender “um governo que é dele”. Fosse dado ao popularesco, Temer poderia perfeitamente recorrer à expressão “cara pálida” para perguntar a qual pertencimento se referia o ministro, no caso, Jaques Wagner, da Casa Civil.

 

Ao PMDB não foge a lembrança de que há pouquíssimo tempo, meses, o governo – na pessoa do então ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante – queria afastar o partido da base do governo e substituí-lo pelo PSD do ex-prefeito e depois ministro Gilberto Kassab. A ideia era rifar o PMDB, reformular a base de apoio no Congresso, fazer uma nova configuração. Por óbvio, deu errado. E agora o governo imagina que possa dar certo, usando os mesmos métodos, a lógica habitual. Engano completo.

 

O parceiro menosprezado o esperava para pegá-lo de jeito. Na esquina. É a vida.

 

Coisa e outra. Uma coisa é a situação escabrosa do presidente da Câmara. Outra coisa é o pedido de impeachment que não foi inventado, apresentado nem depende dele para ter um destino favorável ou adverso ao governo.

 

Eduardo Cunha agora deixa de ser protagonista. Papel a ser assumido pelo conjunto dos parlamentares. Para desconforto do Palácio do Planalto, a quem interessa a ideia de que o impeachment é ideia do presidente da Câmara que, na realidade, é produto dos passos em falso do Poder Executivo, na figura de Dilma Rousseff.

 

Elementar. Se, como asseguram a presidente e seus ministros, o governo não estivesse negociando com o deputado Eduardo Cunha os votos do PT no Conselho de Ética em troca da recusa do pedido de impeachment, a decisão da bancada petista de votar contra não teria tido o caráter de contrariedade à vontade do Planalto.

 

O presidente do partido, Rui Falcão, não teria tido necessidade de “chamar” os deputados à razão nem petistas teriam dito, no dia anterior, que a posição em prol de Cunha no conselho significava uma decisão “em favor do Brasil”.


 


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