Dora Kramer: Sagrada divergência

27/12/2015 17:45

- O Estado de S. Paulo

Para início de conversa, combinemos: quem vê golpe em todo canto tem cabeça de golpista. Estes não interessam ao debate. Obsessão não se discute. Tal preliminar destina-se a estabelecer a clara diferença entre os crentes, os cínicos e os conscientes envolvidos no embate entre defensores e detratores do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

 

Quanto aos crentes, nada há a fazer nem a dizer. A respeito dos cínicos falam os fatos. Na seara dos conscientes é que se estabelece a questão sobre a legitimidade, a legalidade e a propriedade da interrupção de um mandato presidencial.

Os que vão às ruas se manifestar contra ou a favor do impeachment têm razões tão consistentes quanto os que não vão. Medo, preguiça, desencanto, mais o que fazer, podem ser vários e variados os motivos.

 

Os favoráveis sustentam a posição com base no descrito na lei como crime de responsabilidade ou simplesmente porque não gostam de Dilma, do PT, dos métodos de ambos e repudiam a condução de governo dada por eles. Há os que consideram também que o Brasil “não aguenta” três anos do mesmo.

 

Os contrários alegam desde a insuficiência de base legal para enquadramento da presidente no rol constitucional das razões para o afastamento até a necessidade de Dilma ficar para consertar – ou fazer o PT pagar na próxima eleição – aquilo que estragou.

 

O que temos aí é uma divergência de opiniões e motivações. Jamais uma justificativa para dividir os brasileiros entre amigos e inimigos na Pátria. Cada um se expressa de maneira livre, consciente e, dentro das respectivas convicções, de modo consistente. Isso é o que se extrai de bom desse momento de aparência escura e confusa.

 

Antes a confusão da liberdade que a paz de cemitério reinante no autoritarismo. As novas gerações não viram – e é bom que não tenham visto – o que foi viver com medo. Um País onde não se podia falar, criar, pensar ou atuar sem correr o risco de sofrer e talvez morrer sob os ditames da ditadura. Vivemos, pois, num Brasil melhor. Nele, os condôminos do poder tanto podem ser contestados quanto sustentados.

 

A sociedade brasileira sabe se defender contra ameaças autoritárias e já demonstrou isso várias vezes. Inclusive e, especialmente, nos governos petistas, cujas tentativas de estabelecer tutela sobre ações e pensamentos revelaram-se todas infrutíferas.

 

No direito inalienável à liberdade de expressão se inscrevem manifestações como aquela em que se viu envolvido Chico Buarque na semana passada. Figura pública que no pleno exercício de sua cidadania expõe suas posições ao público, o artista – bem como quaisquer outros em condição semelhante – está sujeito a cobranças e a elas tem a prerrogativa de revidar. Como fez o compositor, de maneira muito mais civilizada que os modos dos que o abordaram na saída de um restaurante no Rio.

 

O PT já viveu situação oposta da que vive hoje, durante os vários anos em que contou com o entusiasmo da população. O partido em geral e Luiz Inácio da Silva em particular desfrutaram de uma paixão por vezes insana, cega aos casos que evidenciavam abusos decorrentes da mistura do dinheiro público com a atividade partidária desde os primórdios da gestão petista e surda às barbaridades ditas por Lula em seus discursos diários quando presidente.

 

Livre, até de reação à altura, para dizer o que bem quisesse. Inclusive para pregar o ódio a “eles” (os poucos que discordavam) e fomentar a intolerância em relação não apenas ao exercício, como à simples existência de oposicionistas no País. Estes cresceram e apareceram. De minoria viraram maioria e assim caminha a democracia num Brasil que aguenta o tranco e, com liberdade, supera as adversidades.

 

 


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