Editorial: Não ao delírio de onipotência

30/01/2016 16:42

Por Silvonei José

 

Cidade do Vaticano (RV) – Mais uma vez o Santo Padre nos indica o caminho a seguir, a reflexão a ser feita no período de Quaresma – e para além dela – através de uma mensagem específica para este tempo. Com a data de 4 de outubro de 2015 (Festa de S. Francisco de Assis) e com o tema "'Prefiro a misericórdia ao sacrifício’. As obras de misericórdia no caminho jubilar", foi divulgada nesta semana a Mensagem de Francisco para a Quaresma 2016, na qual ele chama a atenção para a misericórdia de Deus que transforma o coração do homem.

 

Neste Ano Santo vivemos o tempo quaresmal como um momento favorável à conversão, e Francisco reafirma a importância das obras de misericórdia corporais e espirituais, criticando fortemente o delírio de onipotência daqueles que fecham as portas aos pobres que batem às nossas portas.

Na sua mensagem o Santo Padre se detém no milagre sempre novo que a misericórdia irradia na vida de cada um de nós, motivando-nos ao amor pelo próximo. O mundo está precisando dessa irradiação, pois as ruas, as estradas empoeiradas e os mares profundos conhecem todos os dias o drama de milhões de pessoas, que sem onde viver e o que comer, fogem e perambulam em busca de uma vida melhor e mais digna.

 

Graças, precisamente às obras de misericórdia, Francisco está convencido de que podemos “despertar a nossa consciência” muitas vezes adormentada diante do drama da pobreza dessas pessoas. É no pobre, que “a carne de Cristo se torna novamente visível como corpo martirizado, cheio de chagas, flagelado, desnutrido, em fuga, para ser por nós reconhecido, tocado, cuidado com atenção”. É cuidando dos pobres – afirmaçùao que está sempre presente no coração e na boca de Francisco – que nos damos conta de quanto grande é o amor de Deus, e que a aliança de Deus com os homens é “uma história de misericórdia”.

 

Francisco faz ainda uma advertência que toca certamente as nossas realidades, em qualquer lugar nos encontremos, e talvez para alguns, dura de engolir: “o pobre mais miserável é aquele que não aceita se reconhecer como tal. Crê que é rico, mas na realidade é o mais pobre entre os pobres”. Ele vive essa condição porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar a riqueza e o poder, “não para servir Deus e os outros, mas para sufocar em si a profunda consciência de ser também ele nada mais do que um pobre mendigo”.

 

Neste contexto uma triste afirmação: “quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Recordando a figura de Lázaro, Francisco reafirma que ele é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e que talvez não vemos. “Esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de omnipotência”.

 

Tal cegueira, podemos ler na Mensagem, “pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX, e como mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar”.

 

Francisco chama a atenção para as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento baseado na idolatria do dinheiro. Assim, o destino dos pobres se torna indiferente às pessoas e às sociedades mais ricas, “que lhes fecham suas portas recusando-se até mesmo a vê-los”. E essa atitude de fechamento, que também é uma negação a Cristo, que no pobre continua a bater à porta do seu coração, os soberbos, os ricos e os poderosos acabam se afundando no eterno abismo da solidão “que é o inferno”.

 

Na sua mensagem, rica de propostas de reflexão para ajudar a trilhar o caminho quaresmal, mas também o dia a dia de homens e mulheres cristãos, Francisco exorta para que a Quaresma deste Ano Jubilar seja um tempo favorável no qual finalmente sair da própria alienação existencial graças à escuta da Palavra e das obras de misericórdia. Recordando que as obras corporais e as espirituais jamais devem ser “separadas”.

 

Uma constatação final de Francisco é que o amor do Crucificado, um amor que os soberbos, os ricos, os potentes têm a possibilidade de experimentar, é a resposta à sede de felicidade e de amor infinitos que o homem se ilude poder preencher através dos “ídolos do saber, do poder e do possuir”.

 

Quaresma, tempo de conversão, tempo para construir uma vida nova, pois a misericórdia de Deus transforma o coração do homem, tornando-o capaz de misericórdia. Precisamos abrir o coração, deixando de lado o delírio de omnipotência.