Efeito matrioska - Carlos Melo

07/03/2016 20:57

Eis uma crise dentro da crise, na qual o problema maior é a falta de líderes que acalmem os ânimos

- O Estado de S. Paulo / Aliás

 

O maior problema é que o fundo do poço, às vezes, é falso. E este parece ser o caso da presente crise: quem poderá dizer que a condução coercitiva do ex-presidente Lula ao depoimento no Ministério Público será o auge desse processo? Quem poderá dizer que as revelações que Delcídio Amaral ainda não admite são as mais terríveis de toda a crise que se arrasta há mais de um ano? Por quanto tempo essa crise ainda se arrastará? Ninguém poderá dizer.

 

Nem sequer poderá dizer que o desenlace está próximo. Só se sabe que entramos numa nova e mais agressiva fase. A presidente da República foi finalmente envolvida, o ex-presidente, mito de liderança política para muita gente, foi arrolado. Esse é o começo do fim ou o fim do começo. Entramos numa terrível turbulência – ainda mais grave do que aquela em que já estávamos – e não temos tripulação à altura para pilotar esse Boeing enorme e desorganizado que parece ser o Brasil contemporâneo. Para onde vai esse avião?

 

O presidente do PT conclama sua militância. Mais orgânica e disposta, ela se mobiliza rapidamente. Mas isso não significa que ela seja maior e mais influente. Também os setores de oposição, as tais das classes médias urbanas e a oposição formal, irão mobilizar suas tropas. A batalha será na opinião pública. Uma opinião pública dividida e sectarizada, lado a lado. Esse é outro problema. As escaramuças de rua poderão ficar frequentes e perigosas.

 

Certamente, o Congresso Nacional vai ao seu modo espelhar isso. Batalhas verbais e quetais. Os oportunistas, no entanto, é que definirão o jogo, à espreita do espírito do tempo, na dependência das oscilações das maiorias. É claro que o impeachment volta à cena. E agora não mais pelas mãos comprometidas de Eduardo Cunha. Ele, o impeachment, ganha novo destaque, que são as declarações de Delcídio. Mesmo os argumentos do PT ficam mais frágeis: Delcídio não é Cunha. Ou pelo menos era assim que o PT, Lula e Dilma o consideravam até quase ontem.

 

O impeachment alçou, portanto, novo voo. Gera, agora, argumentos diferentes e mais claros do que pedaladas de uma contabilidade que ninguém entende. Para a pretensão de substituir Dilma por Temer, a delação que Delcídio não assume é sopa no mel. E, ao mesmo tempo, o impeachment se torna alternativa à impugnação, que colocaria eleições na rua em 90 dias e, em sua emoção, ninguém sabe no que daria.

 

O fato é que o impeachment de um presidente não é brincadeira de criança. Com Collor pareceu um passeio porque Collor era Collor e não tinha raízes sociais como Lula, o PT e Dilma. Não será de uma canetada e nem de repente, sem dor. Se vier, será de um processo tortuoso e cheio de conflitos. E mais, se não vier, também será por esse mesmo processo. Ruim com Dilma, ruim sem Dilma. Ruim de qualquer modo. O País decidirá entre vários péssimos.

 

O fato é que o caldo entornou e entramos na crise grande, no tsunami, que está muito além das tempestades perfeitas. Não é o apocalipse, mas um brutal movimento dos solos. Terá consequências. Ninguém se iluda. E ainda há pela frente umas tantas e complexas delações, dezenas de revelações, as milhares de especulações em torno disso tudo. Não sabemos o que será, mas será realmente agitado.

 

Mas o maior problema de todos nem é o fundo do poço, falso ou verdadeiro. O problema é a ausência de líderes capazes de acalmar os ânimos, sentar às mesas e propor saídas. O vazio de liderança, acompanhado pela ausência de projeto, pela incapacidade de comunicação, pela fragmentação política, pela crise de representação, pela impossibilidade de diálogo, depois que todos os radicais de festim fecharam as janelas uns para os outros. O maior problema é que, possivelmente, entramos numa crise sem saber como sair dela.

 

É evidente que a ausência de lideranças amplifica a crise e a alonga no tempo. Faz a crise dentro da crise. Ficaremos à mercê de ventos que se debatem, de rios que se distanciam, de opiniões que não se entendem, de figuras que não são confiáveis. Não há unanimidade neste momento e nem tão cedo haverá, e esta talvez seja mais uma crise dentro crise, dentro da crise. Crises que se sucedem.

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Carlos Melo é cientista político e professor do Insper