Eleições na Argentina marcam fim de estilo

22/11/2015 15:40

Eleições na Argentina marcam fim do estilo Kirchner de governar

Marcia Carmo

De Buenos Aires para a BBC Brasil

(AFP)

 

Seja quem for o presidente eleito da Argentina neste domingo, o governista Daniel Scioli, da Frente Para a Vitória (FPV), ou o opositor Maurício Macri, da coalizão Cambiemos (Mudemos), haverá um novo estilo de governar diferente do que foi implementado nos 12 anos de kirchnerismo (2003-2015), segundo políticos, analistas e eleitores ouvidos pela BBC Brasil.

Os próprios candidatos sinalizaram que, se forem eleitos, vão buscar comandar o país com um estilo diferente do atual.

"Somos do diálogo. E não viemos mostrar que temos razão. E se errarmos, vamos corrigir os erros, trabalhamos em equipe", repetiu Macri durante a campanha. "Na minha gestão, cada poder terá seu papel. Presidência é Presidência, Justiça é Justiça, Congresso é Congresso e imprensa é imprensa", disse Scioli.

A falta de diálogo e de independência dos poderes costuma ser apontada pelos críticos do Kirchnerismo.

Filhos de empresários e amigos de longa data, Scioli e Macri entraram na política na vida adulta e são, segundo conhecidos, "pessoas de diálogo" com diferentes setores ─ um estilo diferente do impresso pelo ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010, e por sua sucessora e viúva, Cristina.

"A confrontação de ideias e de interesses faz parte da política, mas os Kirchner fizeram da confrontação permanente a sua própria identidade. Scioli e Macri têm outro estilo. Os Kirchner não são dados ao diálogo. E os dois presidenciáveis sim", disse à BBC Brasil o analista Jorge Giacobbe, da consultoria Giacobbe e Associados.

Márcia Carmo/BBC Brasil

Os Kirchner não são dados ao diálogo. E os dois presidenciáveis sim

Jorge Giacobbe, analista da consultoria Giacobbe e Associados.

Assessores diretos dos dois candidatos concordam que a eleição marcará o "fim de uma era".

"Cada governo representa uma etapa", disse o assessor de Scioli, o economista e cientista político Gustavo Marangoni, presidente do banco Província.

Para Diego Guelar, assessor de Macri e ex-embaixador da Argentina no Brasil e nos Estados Unidos, os governos "personalistas que fazem parte de uma conjuntura" e "não têm história e trajetória desaparecem", disse, quando seus líderes concluem seus mandatos.

Kirchnerismo

 

(Getty)

A opinião de Guelar, de Giacobbe, e de historiadores argentinos é a de que o Kirchnerismo nasceu logo após a histórica crise que o país enfrentou em dezembro de 2001, com as sucessivas quedas de vários presidentes e panelaços nas ruas.

"O Kirchnerismo cobriu o vazio de poder depois daquela imensa crise e governaram 12 anos com o que chamamos aqui de 'relato', o discurso de fachada", disse Guelar.

Mostrar-se "fraco" naquele momento de crise era o menos recomendado em um país que estava "com os nervos à flor da pele", como disse um Kirchnerista.

Passados 12 anos, cerca de 30 milhões de eleitores vão às urnas neste inédito segundo turno em uma votação que promete ser tranquila e com a presidente Cristina Kirchner passando a faixa presidencial no dia 10 de dezembro, sem caos nas ruas, como observou a analista Analía del Franco, da consultoria política Analogías.

Analía e Raul Aragón, analista político da empresa que leva seu nome, disseram, em entrevista aos correspondentes estrangeiros, que uma das principais demandas dos eleitores é a de "mudança de estilo" de governo e "não por questões econômicas ou sociais".

"Não há desespero nas ruas, o desemprego não é alto e há consumo e a transição promete ser tranquila com a presidente passando a faixa presidencial no dia dez de dezembro", afirmou Analía.

O Kirchnerismo cobriu o vazio de poder depois daquela imensa crise e governaram 12 anos com o que chamamos aqui de 'relato', o discurso de fachada

Diego Guelar, assessor de Macri e ex-embaixador da Argentina no Brasil e nos EUA

(AP)

'Oposição participativa'

 

No mesmo dia 10 de dezembro, Scioli conclui seu mandato de governador da província de Buenos Aires e Macri, por sua vez, o de prefeito da cidade de Buenos Aires.

Um dos dois se tornará presidente e ao outro caberá o papel de líder da oposição.

"Essa será outra mudança. A oposição, seja liderada por Macri ou por Scioli, terá papel participativo na política argentina. Papel que hoje não existe", disse um assessor de Scioli, sob a condição do anonimato.

Para Del Franco e Aragón, o Kirchnerismo terá presença no Congresso Nacional e deverá se mantido por "um setor mais a esquerda", apesar de não ter esperado o papel de destaque de agora.

Na reta final da campanha, porém, Scioli foi visto, por alguns analistas, como Pablo Knopoff, da consultoria Isonomía, "como mais kirchnerista que nunca" pelas acusações ao adversário. Scioli disse que Macri fará "pactos com o diabo" ─ o "diabo" nesse caso, segundo a imprensa argentina, seria o FMI (Fundo Monetário Internacional).

 

'Arrogante' x 'trabalhador'

 

(AFP)

Scioli disse ainda que esta eleição será entre "um arrogante do Barrio Parque", um dos mais caros de Buenos Aires, e um "trabalhador".

A declaração foi vista com simpatia por seus eleitores e criticada pelos seguidores de Macri. "Melhor Scioli porque não quero um 'arrogante' do Barrio Parque", escreveu um eleitor no Twitter. Outro rebateu: "Prefiro esse arrogante".

Quando questionado se as críticas de Scioli afetavam a amizade dos dois, Macri respondeu apenas: "Daniel está muito diferente".

Segundo pesquisas de opinião, Macri lideraria os levantamentos de intenção de votos. Mas os cerca de 11% de indecisos poderiam definir a eleição.

Nas ruas de Buenos Aires, eleitores contaram à BBC Brasil por que votam em Macri, em Scioli ou em branco.

"Eu voto em Macri porque me sinto mais representada por ele. Eu cansei desse governo", disse a estudante de direito Melina González, de 19 anos. O namorado dela, Sebastián Gimenez, também de 19 anos, que estuda economia, disse que votará em branco porque acha que os dois candidatos são "conservadores principalmente na área econômica".

Márcia Carmo/BBC Brasil

 

Estudantes adolescentes Lucila Leguina Díaz, de 15 anos, e Juliana Cano, de 14 anos, faziam campanha contra Macri nos parques de Palermo, bairro de classe média. Elas, que ainda não podem votar, seguravam um pôster do opositor em que se lia "Não vote em Macri".

"O partido de Macri votou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e nós estamos no século 21 e achamos que cada um tem o direito a fazer suas escolhas. Não que eu goste de Scioli, mas ele é do partido de Cristina", disse Lucila à BBC Brasil.

Já o taxista Juan Avellana, de 68 anos, afirmou que votará em Scioli porque "prefiro tudo como está do que ter surpresas como ajustes".

Em sintonia com o que dizem analistas, segundo Agustín Murguía, de 27 anos, e Ezequiel Villarroel, de 31 anos, o voto em Macri é principalmente por "cansaço" do estilo Kirchnerista.

"Eles dividiram o país. Eles não gostam de quem pensa diferente. E se Scioli for eleito o Kirchnerismo vai continuar existindo", disse Murguía.

No mercado financeiro, o dólar paralelo recuou e a bolsa de valores registrou alta nos últimos dias, devido à expectativa de mudança "do ambiente político seja quem for o eleito".

O deputado opositor Claudio Lozano, da Unidade Popular, que se define de esquerda, disse que "termina um ciclo" que começou após a crise de 2001, mas Scioli e Macri não o representam por serem "igualmente conservadores".

 

 


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