Entrevista Romero Jucá – Economia muda em 6 meses

24/04/2016 11:37
Presidente do PMDB, senador diz que a economia será outra em seis meses de um eventual governo Temer.
‘As medidas não serão goela abaixo’
 
• Líder dos governos Lula e Dilma no Senado, presidente em exercício do PMDB e investigado na Operação Lava-Jato, o senador Romero Jucá (RR) diz que, se assumir, Michel Temer precisará de seis meses para a economia dar sinais de recuperação
 
Simone Iglesias e Cristiane Jungblut - O Globo
 
• O PMDB liderou o desembarque da base aliada em apoio ao impeachment acenando com cargos. Vamos para uma nova etapa de relações fisiológicas?
 
A votação do impeachment é uma sinalização de que os partidos, mesmo estando na base de Dilma, entenderam que este governo faliu e migraram para um projeto que é de consequência constitucional. Esses mesmos partidos deram, num passado não muito distante, uma base estrondosa ao governo Lula. O governo Dilma dilapidou esse patrimônio. Num governo de reconstrução da base, é natural que partidos ocupem cargos. A motivação é que vai mudar. Não ocorrerá troca de cargos por votos. Será uma ocupação para a construção de um programa, um roteiro de mudanças e votações que vão remodelar a orientação econômica e social do país.
 
• A presidente Dilma e parte da população tratam o impeachment como um golpe e Temer como um conspirador.
 
A escolha que existe é entre a Constituição e a presidente Dilma. Se a escolha for a Constituição, a consequência é a posse do vice-presidente. Dizer que o PMDB preparou um golpe, que Temer preparou um golpe, é de um raciocínio simplista e de má-fé muito grande, porque nenhum partido colocaria 1,4 milhão de pessoas na Avenida Paulista para protestar. O PT não tem uma justificativa para os crimes que cometeu e tenta direcionar esse debate para a vertente do golpe que não há, da traição de um vicepresidente, que também não há. Está tentando impingir a outros, como já fez, na campanha de 2014, a Marina e Aécio, questões que o governo depois teve que praticar. Não cola mais.
 
• O PMDB está aliado à presidente desde 2010. Não se sente nem um pouco responsável pela crise?
 
A presidente Dilma errou em duas questões básicas, na condução política e na condução econômica. E, me desculpem, nem o PMDB interferiu na condução política, nem o PMDB interferiu na condução econômica, apesar de termos o tempo todo dito que estava errado. Estou muito tranquilo porque minha crítica não é de hoje, e parte do PMDB já tinha esse sentimento. O PMDB não mudou do dia para a noite.
 
• O PT diz que, se Temer assumir, transformará a vida do governo num inferno. Como trabalhar esse clima social que se colocará?
 
Havendo o afastamento, não há político em melhores condições de construir essa base parlamentar, pela condição de jurista, por ter presidido a Câmara três vezes, por ser um conciliador, por ser alguém que é bastante discreto e comedido. O presidente Temer tem o figurino necessário para construir uma base fundamental para a reconstrução do Brasil. Do outro lado, o PT tenta uma jogada de marketing, que é manipular e fazer manifestações que trazem de volta seu âmago. Essas ameaças do PT acontecem ao longo da sua história.
 
• Uma das críticas contra Temer assumir é o fato de Eduardo Cunha se tornar vice-presidente.
 
Quando o vice-presidente assumir, o cargo de vice se extingue. O mandato de Cunha se encerrará em dezembro, quando será eleito o novo presidente da Câmara. Não adianta personificar qualquer questão. Ele (Cunha) conduziu o processo na Câmara porque é o presidente.
 
• A Lava-Jato atinge o PMDB e líderes do partido. Como um governo Temer lidará com as investigações?
 
A Operação Lava-Jato mudou o paradigma da política. O PMDB apoia a Lava- Jato. Eu a apoio. Ela será fortalecida se houver um governo Temer. A questão individual de cada parlamentar será discutida no Supremo, e não podemos atrelá-la à política de governo. Quero desmentir boatos de que haveria uma mudança na linha da operação. Quem cobra a paralisia da LavaJato é o PT. Temer já disse reiteradas vezes que apoiará da forma que puder.
 
• O governo Dilma acredita em uma derrota na comissão do impeachment no Senado, mas espera reverter o quadro no processo de defesa de sua cassação. O senhor acha viável?
 
A capacidade de luta é inerente ao ser humano. Na democracia, todos têm direito à defesa. É natural que o governo queira se defender. Sobre o governo ter esperança, há um ditado que diz: a esperança é a última que morre. Ela vai morrer no dia da votação do impeachment no plenário do Senado.
 
• Como reverter a imagem negativa que Temer tem?
 
Não há uma leitura isenta, e sim uma leitura contaminada sobre ele. Qualquer um que estivesse como vice da Dilma estaria nessa situação. Poderia ser a Madre Teresa de Calcutá, o Dalai Lama ou o Papa Francisco. Qualquer avaliação de Temer só deverá ser algo consistente se ele assumir o governo e for feita seis meses após o seu início de governo. Antes, é um sentimento que mistura a decepção com o atual governo, a revolta e a falta de representatividade sobre a classe política.
 
• Há margem no Congresso para aprovar um ajuste fiscal ainda mais duro do que o proposto por Dilma?
 
Para tirar o PIB do chão, tem que ter credibilidade, segurança jurídica, previsibilidade da economia, responsabilidade fiscal, responsabilidade de gastos do governo. Temer sabe que dois anos é um tempo muito curto e vai ter que acelerar e tomar medidas discutidas com a sociedade. As medidas não serão goela abaixo, até pela formação política que ele tem. Haverá recriação da CPMF? Não. Antes de discutir qualquer aumento de impostos, o governo tem que dar o exemplo de corte de gastos e ter responsabilidade fiscal.
 
• Até que ponto é fundamental a participação do PSDB no governo?
 
O PSDB poderia indicar nomes que seriam muito importantes na formação do governo. Se houver uma decisão de não participar, deve ser respeitada. Agora, o fundamental do PSDB é a formatação de uma pauta. Não podemos abrir mão do PSDB na formulação de saídas.
 
• Quando será possível sair minimamente da crise econômica?
 
A mudança não será em dois ou três meses. Se você falar em reversão do quadro de expectativas, na situação do dólar, do mercado de capitais, entendo que em até seis meses haverá uma outra leitura do país.
 
• Fala-se em um grupo de notáveis para assumir os ministérios. Como serão definidos os integrantes do governo Temer?
 
A discussão não é de notabilidade, é de preparo, de bagagem, de peso político, de credibilidade. O presidente Michel Temer saberá formar uma equipe com condições de tocar o projeto que tem para o país.
 
• Há um compromisso de Temer não concorrer em 2018 para garantir apoio a seu governo do maior número de partidos e políticos?
 
Ele tem dito que sua missão é enfrentar esse governo de coalizão e ajudar a transformar o Brasil. Não fala em candidatura em 2018. Se conseguir em dois anos fazer o que precisa fazer, já terá o seu lugar na história.
 
• Nas últimas décadas, o PMDB não elegeu nenhum presidente pelo voto direto, mas emplacou três indiretamente.
 
O PMDB acabou se acomodando em ser o partido da governabilidade. Realmente, governabilidade não é programa de partido. Tem que ir para a linha de frente, e um eventual governo Temer é ponto de inflexão para colocar isso em prática.
 
 

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