Espanha: Partido Popular ganha eleição

21/12/2015 19:28

Com 28,7% dos votos, o Partido Popular, do presidente Mariano Rajoy, venceu, mas terá que formar uma coalizão.

 

Eleição ganha, maioria perdida

PP consegue manter liderança no Parlamento, mas terá de lidar com fragmentação inédita

 

- O Globo

 

-MADRI- O Partido Popular (PP) espanhol garantiu a continuidade da liderança no Parlamento por mais quatro anos nas eleições de ontem. O grande vencedor do pleito, porém, foi a ruptura. Insatisfeitos com uma série de casos de corrupção e com uma elevada taxa de desemprego, eleitores deram fim ao histórico bipartidarismo do país, exigindo do vencedor — não mais detentor da maioria absoluta das 350 cadeiras da Câmara dos Deputados — a habilidade de conseguir formar pactos com adversários diante de uma inédita fragmentação. PP e Partido Socialista (PSOE), que alternavam o poder desde a década de 1980, agora dividem significativamente os assentos com o Podemos e o Cidadãos.

 

O PP, do atual presidente do Governo, Mariano Rajoy, obteve 123 assentos, 54 menos do que as 176 cadeiras necessárias para uma maioria absoluta. Em 2011, o partido conquistou 186 vagas. Até agora, nunca uma legenda espanhola havia governado com menos de 156 vagas. O PSOE ficou em segundo lugar, com 90 deputados, o pior resultado de sua história. Já o Podemos, criado no ano passado, apareceu em terceiro. O partido antiausteridade obteve 42 cadeiras, mas seus aliados alcançaram mais 27 assentos, totalizando 69. Já o Cidadãos, em quarto lugar, elegeu 40 deputados. O nome do novo presidente do Governo será negociado entre os partidos nos próximos dias.

 

Seguimos sendo a primeira força política da Espanha — afirmou Rajoy, depois da divulgação da vitória de seu partido. — Há uma base sólida para o futuro, com mais de 1,6 milhão de votos e 30 assentos de diferença sobre a segunda força.

 

Pedro Sánchez, do PSOE, deixou claro ontem que cabe ao PP formar um governo, enquanto Albert Rivera, do Cidadãos, deu por aberta um nova era política no país. O resultado dará lugar a conversas para a construção de uma coalizão que pode se estender por semanas, já que aparentemente não há nenhum pacto fácil ao alcance. A Constituição espanhola não fixa um prazo específico para a formação de um governo após as eleições. Muitos potenciais resultados são possíveis, incluindo um pacto de centro-direita entre o PP e Cidadãos, uma aliança de centro-esquerda entre os Socialistas e Podemos ou uma administração minoritária. De acordo com analistas, o resultado do pleito aponta também para um impasse que pode interromper o programa de reformas econômicas que ajudou a tirar a Espanha — a quinta maior economia entre os 28 membros da União Europeia — da recessão e a reduzir a ainda alta taxa de desemprego, que chegou a 27% no início de 2013 e está em cerca de 21%.

 

De acordo com o Ministério do Interior, a participação nas eleições chegou a 73% de um total de 36,5 milhões de eleitores registrados, quatro pontos percentuais acima do pleito de 2011, quando a taxa de participação final foi uma das mais baixas desde o final da ditadura de Francisco Franco, em 1970. Longas filas foram vistas durante todo o dia. A votação ocorreu sem problemas, e as urnas foram fechadas às 20h no horário local (17h, em Brasília).

 

Espanha precisa de governo estável’

Líder do PP, o presidente do governo, Mariano Rajoy, de 60 anos, foi designado candidato do PP em 2003 pelo então presidente José María Aznar, mas só ganharia oito anos depois, em 2011. Prevendo a fragmentação confirmada ontem, na quarta-feira passada, ele afirmou que consideraria um pacto entre os partidos para assegurar uma administração estável ao longo dos próximos quatro anos.

 

Quem ganha as eleições deve tentar formar um governo e eu vou tentar formar um governo, porque a Espanha precisa de um governo estável — assegurou Rajoy ontem.

 

O resultado de ontem torna ainda pior a situação do PSOE, que em 2011 amargou o seu então pior resultado, com 110 deputados. Na época, muitos espanhóis responsabilizavam o partido pela crise econômica incipiente. O novo cenário coloca também em xeque a situação de seu secretário-geral, Pedro Sánchez, de 43 anos, que ajudou a unir a legenda nos últimos quatro anos. O líder de esquerda perde poder frente ao Pablo Iglesias, de 37 anos, do Podemos. Professor de Ciências Políticas, Iglesias, que fundou o partido, vem afirmando que a Espanha é governada por “mordomos ricos”. Ele volta a surpreender, depois de obter cinco cadeiras no Parlamento Europeu em 2014, apenas quatro meses depois da sua formação. Em maio, foram eleitos prefeitos “indignados” em cidades como Madri e Barcelona.

 

A partir desta noite, certamente, a História do nosso país vai mudar — afirmou Iglesias ao votar, na tarde de ontem, no bairro de Vallecas, em Madri.

 

Estamos ante uma nova transição democrática, ante uma nova era — disse o advogado Albert Rivera, de 36 anos, líder do Cidadãos.

 

A corrida eleitoral foi marcada por incertezas. Sete pesquisas de intenção de voto divulgadas em dez dias coincidiam apenas em relação à vitória do PP, atribuindo ao partido de 25,2% a 29,9% dos votos. Muitas apresentavam o PSOE como o segundo mais votado, sem superar 21% (cerca de 94 deputados), seguido de Cidadãos e Podemos, que brigavam pelo terceiro lugar, com cerca de 20% cada. Cerca de um em cada três votantes afirmou que decidiria quem escolheria apoiar apenas no último minuto.

 

Ao longo de todo o dia, a expectativa de mudança era evocada por eleitores em colégios eleitorais. Os espanhóis mostravam a esperança de um fim do sistema reinante desde 1982, sete anos após a morte de Franco.

 

Estamos há muitíssimos anos com o bipartidarismo, temos que renovar a política, PP e PSOE se acomodaram e se esqueceram de nós. Devemos dar uma oportunidade para os novos — disse à agência AFP Francisco Pérez, um trabalhador autônomo de 53 anos, que votou em Hospitalet de Llobregat, no nordeste do país.

 

Gostaria que houvesse uma mudança, para que o novo governo olhe um pouco mais para o povo. Agora, vejo nossos dirigentes mais voltados para as políticas impostas por Bruxelas e Alemanha — avaliou Juan José Rodríguez, de 43 anos, no bairro popular Lavapiés, em Madri.

 

Mas nem todos apostam em uma mudança incerta e um governo instável.

 

Não ficamos quatro anos sofrendo para que, agora, tudo vá para o lixo — disse, em um dos bairros mais aristocráticos de Madri, María José Pyñeiro, de 52 anos, diretora de uma revista de moda.