Ex-presidente chega aos 70 anos acuado pelo MP e pela PF

27/10/2015 10:35

Por Andrea Jubé – Valor Econômico

 

BRASÍLIA - Na véspera do dia em que completa 70 anos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assistiu a uma ação da Polícia Federal contra um de seus familiares. Ontem os agentes realizaram busca e apreensão em uma das empresas de seu filho, Luís Cláudio Lula da Silva, dentro da Operação Zelotes. No dia em que completam-se 13 anos - número oficial do PT - de sua primeira eleição para a Presidência da República, Lula vai celebrar com parcimônia. "Não há clima para festa", confidenciou aos mais próximos.

 

Depois de participar de cinco eventos públicos na última semana - ele esteve em Teresina (PI), Salvador (BA) e São Paulo (com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) -, Lula adotou uma postura reservada diante das novas acusações contra seu filho. A reação virá na quinta-feira, quando ele proferirá um discurso duro na reunião do Diretório Nacional do PT, em Brasília, sobre a cena política, em que ele próprio, seus familiares, amigos e seu partido aparecem acuados por uma série de acusações em investigações do Ministério Público e da Polícia Federal.

O cerco intensificou-se sobre o ex-presidente e seus entes próximos nos últimos dias. Na semana passada, Lula prestou depoimento aos procuradores federais no Distrito Federal para rebater acusações de que teria feito lobby para empresas brasileiras em outros países. Argumentou que é prática mundial que ex-presidentes defendam "as empresas de seus países no exterior". Depois surgiram denúncias de que uma de suas noras teria sido favorecida por mediação de seu amigo, o empresário José Carlos Bumlai, em suposto negócio de R$ 2 milhões envolvendo navios-sonda e a empresa Sete Brasil.

 

Agora as investigações atingem um de seus filhos. No passado, a Polícia Federal investigou seu irmão mais velho, Genival Inácio da Silva, o Vavá, na Operação Xeque-Mate, sobre a máfia de caça-níqueis.

 

No documentário "Entreatos", de João Moreira Salles, que registrou os bastidores da campanha de 2002, Lula aparece feliz, cantarola "Luar do Sertão". A quatro dias da vitória, diz que sabe que será cobrado. "Se domingo à noite der o resultado e confirmar que eu venci as eleições, nem eu sei como vou reagir. Porque é uma coisa que está tão fora da sociologia, não estava no livro que eu poderia chegar aonde eu cheguei", afirmou. "O que eu sei é que a partir de segunda-feira começa uma cobrança para que eu faça tudo o que eu falei esses anos todos", previu.

 

As cobranças começaram e acentuaram-se. Lula deixou um legado de avanços econômicos e sociais e uma aprovação de 83% de ótimo e bom. Mais de 20 milhões de brasileiros saíram da linha da miséria, mais de 10 milhões de empregos com carteira assinada foram criados e o índice de desemprego era de 4,7%. Em contrapartida, as gestões petistas concentram os dois maiores escândalos de corrupção da atualidade: o Mensalão e a Operação Lava-Jato, que investiga os desvios bilionários na Petrobras.

 

É nesse contexto que merece um "antes e depois" a fotografia do dia da vitória de Lula, em 27 de outubro 2002. Aparecem ao seu lado, no quarto do hotel em São Paulo de onde acompanharam a contagem dos votos: José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Dulci, Aloizio Mercadante, Gilberto Carvalho e Luiz Gushiken. Em um close, a câmara flagra Palocci enxugando as lágrimas. "Se chorar perto de mim, vai pro balaio", tripudia Lula.

 

Mais de uma década depois, apenas Luiz Dulci não é investigado ou sequer foi chamado para prestar esclarecimentos às autoridades. Dirceu foi condenado a sete anos e 11 meses de prisão no julgamento do mensalão. Em agosto, voltou a ser preso por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Lava-Jato. Palocci responde a um inquérito da Lava-Jato, que apura se ele pediu R$ 2 milhões ao doleiro Alberto Youssef em 2010, para a campanha presidencial de Dilma Rousseff. A delação é do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, mas o próprio Youssef nega a denúncia.

 

Mercadante, hoje ministro da Educação, responde a um inquérito no Supremo Tribunal Federal por suposta prática de caixa dois por receber R$ 500 mil para a campanha ao governo de São Paulo em 2010 do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC. O ministro rebate que a doação foi legalizada, tanto que sua prestação de contas, aprovada pela Justiça Eleitoral, contabilizou o exato valor, sendo metade doado pela UTC e metade pela Constran, braço do grupo. Luiz Gushiken, que foi investigado no mensalão, foi absolvido pelo Supremo um ano antes de sua morte, em 2013. Gilberto Carvalho foi chamado ontem a prestar esclarecimentos à Polícia Federal no âmbito da Operação Zelotes.

 

O Valor procurou o Instituto Lula e lideranças do PT, que não quiseram se manifestar abertamente sobre as investigações que atingem o ex-presidente. Em condição de anonimato, uma liderança petista, que participa de reuniões no escritório político do ex-presidente, sustenta que "está em curso uma tentativa clara de atingir Lula", porque apesar da saraivada de acusações, ele ainda é o nome forte do PT para a sucessão de Dilma. Para este petista, as acusações que o alvejam, direta ou indiretamente (no caso de seus familiares), baseiam-se em delações cujo teor se desconhece e em acusações até agora sem a devida comprovação. "Se não conseguem combater Lula na disputa política, buscam atingi-lo no campo do imaginário e da ética". Lula tem duas datas de nascimento, a oficial é 6 de outubro, mas ele escolheu o dia 27 porque sua mãe diz que esta é a verdadeira. E porque prefere o signo de escorpião, de perfil mais firme e combativo.

 


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