Fala de Jaques Wagner acentua mal-estar entre PT e governo

05/01/2016 11:11

Catia Seabra – Folha de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Dirigentes petistas reagiram com irritação, nesta segunda-feira (4), ao ministro Jaques Wagner (Casa Civil), que, em entrevista à Folha, disse que o partido "se lambuzou" no poder.

 

O ex-ministro da Justiça Tarso Genro disse que a declaração de Wagner "foi profundamente infeliz e desrespeitosa, porque generaliza e não contextualiza".


Segundo ele, o chefe da Casa Civil faz "coro com o antipetismo raivoso que anda em moda na direita e na extrema direita do país".

"Com a responsabilidade que ele tem, deveria ser menos metafórico e mais politizado nas suas declarações", reagiu Tarso.

 

A entrevista de Wagner acentuou o mal-estar entre governo e partido. Integrantes da direção partidária, deputados e senadores fizeram chegar ao Palácio do Planalto sua insatisfação diante da fala do ministro, classificada por eles como "um ataque desnecessário" à legenda.

 

O presidente do PT de São Paulo, Emídio de Souza, afirmou que o PT sofreu desgaste ao defender o governo de Dilma Rousseff.

 

"Sustentar o governo mesmo quando ele se distanciou da sua base social e do seu programa também desgastou o partido. O momento é de ajustar o rumo do governo e do partido, garantir e aprofundar as conquistas e não ficar se atacando mutuamente", disse Emídio.

 

O secretário de Organização do PT, Florisvaldo Souza, também chamou de infeliz a declaração.

 

Coordenador da maior força petista, a CNB (Construindo um Novo Brasil), Francisco Rocha disse ser "lamentável que figuras expoentes do partido se utilizem da astúcia da velha mídia quando este debate deveria ser realizado internamente".

 

"O PT não se lambuzou em cuia de mel", disse Rochinha, acrescentando que o erro foi não ter se organizado para aprovar a reforma política.

 

Líder da corrente Articulação de Esquerda, Valter Pomar registrou sua crítica nas redes sociais. "Acho que em 1998, num encontro nacional petista, um determinado senhor disse que o problema do seu partido é que ele tinha que aprender a ser uma grande máquina eleitoral. Muitos anos depois, este mesmo senhor agora critica o seu partido porque se 'lambuzou'".

 

Ocupando interinamente a liderança do PT no Senado, Paulo Rocha (PA) minimizou o impacto das declarações. Segundo ele, o próprio partido reconhece que reproduziu métodos em vez de se valer da popularidade de Lula para modificá-los.

 

"Cometemos erros. Foi um erro o mensalão, foi um erro fazer o caixa dois", admitiu.


Cunha

Mesmo sob críticas, Jaques Wagner usou, nesta segunda-feira, as redes sociais para criticar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

 

"Esse processo [do impeachment, que nasceu como um instrumento de vingança, não tem fundamentação jurídica", publicou.

 

Ele elogiou o STF a respeito da tramitação do processo, ao afirmar que a Corte anulou "as manobras regimentais" de Cunha. "Eu, a presidenta Dilma e todo o governo estamos confiantes de que o processo de impeachment não sobreviverá", concluiu.

 

Um dos principais auxiliares de Dilma, Wagner voltou a reconhecer falhas do governo na condução da economia. "Temos plena consciência de alguns erros que cometemos e das dificuldades que precisamos vencer."

 

Na entrevista à Folha, o ministro disse que "as medidas contracíclicas tomadas produziram problema fiscal".

 

Semana passada, em entrevista a uma rádio, ele apontou como equívocos a "desoneração exagerada" e "programas de financiamento que foram feitos num volume muito maior do que a gente aguentava".

 

Nesta segunda, o petista ponderou, no entanto, que "impopularidade não é crime". "É um defeito, um problema que vamos seguir trabalhando para resolver."


Colaboraram Flávia Foreque e Marina Dias, de Brasília