Fernando Henrique Cardoso - Cunha está a um passo de virar réu

24/10/2015 13:01

Antes de lançar o primeiro volume de ‘Diários da Presidência’, FH ataca Lula, dá conselhos a Dilma e critica o próprio partido

 

Silvia Amorim, Tiago Dantas – O Globo

 

Não é de hoje que o PMDB é o fiel da balança da governabilidade. O senhor também teve que fazer aliança com eles. Em seu livro, ao falar da pressão por cargos, diz que o PMDB "não é um partido; é uma confederação de interesses". Ainda pensa assim?


Acho que sim. O PMDB era um grande agrupamento de pessoas contra o regime autoritário. O regime caiu e ficou só um grande agrupamento de pessoas. Mas qual o objetivo? Por que valores se bate? Eles gostam de dizer que são o partido da governabilidade. São. Estão sempre no poder.

 

Seu partido tem buscado aproximação com esse PMDB de olho num impeachment. O PSDB tem até feito um jogo duplo com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, defendendo o afastamento dele em público, mas, nos bastidores, articulando com ele. Aprova isso?

 

É uma situação embaraçosa. Ele ainda é o presidente da Câmara e muitas decisões passam por ele. Eu acho que (o PSDB) deve pedir o afastamento dele. Se você tiver uma pessoa sobre a qual pesem menos dúvidas no exercício da Câmara, você tem mais jogo político a fazer e um processo mais legítimo. Ele (Cunha) está a um passo de virar réu.

 

Por "decisões" o senhor quer dizer impeachment?

 

Não sei se há base jurídica para impeachment. Estamos tapando o sol com a peneira. Está tudo tão errado, que não é questão de impeachment ou não. Houve dinheiro discutível na campanha, e isso já é razão para muita coisa. Se juridicamente tem razão ou não (para afastar a presidente), não é isso que vai comandar o processo. É uma questão política e econômica.

 

Que saída tem a Dilma?

 

Se Dilma tivesse tido visão, teria juntado todo mundo e dito: "estamos mal, não importa a culpa de quem é". Ou então não anda. É preciso haver um momento, que eu não sei se vai existir, em que tem que ter liderança. Pensei várias vezes o que faria se estivesse no lugar dela. Posso imaginar as dificuldades. Eu diria: "Está bem, vocês não me querem, vou embora. Mas quero primeiro que o Congresso aprove isso, isso e isso".

 

Existe clima para isso?

 

Não, mas acho que é preciso algo desse tipo. A crise não é a Dilma. Ela tem responsabilidades como, por exemplo, na parte energética, onde tudo está errado. Mas a responsabilidade política é do Lula, que transformou o presidencialismo de coalizão em cooptação. Agora complicou muito porque (o governo) tem um Congresso multifacetado e não tem apoio popular nem agenda. O Congresso controla.

 

Há quem diga que a saída deveria ser construída entre o senhor e Lula.

 

Deixe eu dizer uma coisa. Quando fui para a África do Sul (no funeral do Nelson Mandela em 2013) e estávamos todos (Sarney, Collor, Lula e Dilma) no avião presidencial, achei que tinha que dizer algo. Disse que o sistema que está aí não funciona mais e que nossos partidos ou não têm força para mudar ou não querem. Estava na hora de discutirmos algo em conjunto. A reação foi nenhuma. Agora é tarde. Nós estamos nas mãos da Lava-Jato e da crise econômica.

 

Lula pouco aparece no livro, e a reflexão que o senhor faz sobre o PT em 1996 era de um partido que nunca cresceria. Foi um erro de avaliação?

 

Errei. Eu achava que o PT estava gerindo bem certas cidades e que era bom. Não imaginei que crescesse tanto. O PT estava muito radicalizado. Não fazia alianças. Quando o Lula impôs como condição para ser candidato fazer alianças, começou a crescer. A ausência do Lula (no livro) é porque não tinha projeção naquela época, não tinha importância política. Meu medo era o (Paulo) Maluf.

 

O senhor foi alertado em 1996 pelo dono da CSN, Benjamin Steinbruch, que a Petrobras era um "escândalo", mas conta no livro que decidiu não "mexer" na estatal. Por quê?

 

Ele não estava falando de corrupção, mas de gestão, que o conselho era composto pelos próprios diretores. Só isso.

 

O ex-diretor da Petrobras Pedro Barusco, um dos condenados pela Lava-Jato, diz que a corrupção começou em 1997.

 

O que começou em 1997 foi uma tentativa de suborno, mas sem a conivência da diretoria. O que vemos agora não é corrupção normal, que pode ter existido no meu tempo na Petrobras, porque é impossível saber se "fulano corrompeu beltrano". Hoje é um sistema organizado, com sopro político, caixa dos partidos.

 

No livro, o senhor reclama da postura da imprensa e a acusa de ter sido injusta com o início do seu governo. Por que a crítica?

 

Não acho que a cobertura, em geral, tenha sido injusta. Às vezes, o registro não correspondeu ao que aconteceu. Não posso ter a pretensão de dizer que "o certo era eu". Eu entendia até certo ponto qual é a função da imprensa. A imprensa é naturalmente crítica. Agora, é difícil quando você está sendo objeto da crítica.

 

O plano era publicar o livro após sua morte. Por que mudou de ideia?

 

Confesso que não li o livro todo até hoje porque é muita coisa. Mas houve insistência de muitas pessoas para publicar (logo). Pensei: o Brasil está tão complicado que talvez seja o caso de publicar para mostrar como funcionam as coisas por dentro da Presidência. Não tenho ambição de ser mais nada.

 

 


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